Aléssio Romano,
As últimas três semanas passaram em um ritmo lento, quase arrastado. Viajei, tratei de negócios importantes, participei de festas e jantares de interesse. Negociei contratos significativos e mantive minha presença no mundo dos negócios como de costume. Minha rotina seguia inabalável, com a exceção de um detalhe: nada de Bianca. Nenhum sinal, nenhuma palavra. Ela parecia ter desaparecido completamente. Meu pai sempre dizia que a pressa é inimiga da perfeição, e talvez ele estivesse certo. Algum momento, ela iria precisar de mim. Isso era inevitável. No final, todos precisam de algo. Bianca não seria diferente.
Enquanto aguardava esse momento, segui com meus compromissos, concentrando-me nos acordos em andamento. O controle sempre foi a base de tudo para mim. Eu me assegurava de que cada movimento fosse calculado e eficiente. Por trás dos jantares de negócios e das festas de aparências, sempre havia uma nova negociação, uma nova aliança a ser formada. Cada passo no mundo que construí era parte de uma dança precisa, onde o erro era fatal.
Agora, sentado no meu escritório, fumo um cigarro de menta, observando a fumaça se dissipar no ar. Meus pensamentos estavam nos próximos movimentos, nas decisões estratégicas que precisavam ser tomadas. A clínica de Lia, as festas, as reuniões... tudo rodava de maneira organizada, como uma engrenagem bem lubrificada. O ambiente ao meu redor estava calmo, e isso me permitia pensar com clareza. O cigarro era uma distração breve, algo que me ajudava a manter o foco. E então, uma batida na porta quebrou o silêncio.
— Entra. — disse, ajustando minha postura na cadeira enquanto Vito entrava no escritório com sua habitual postura firme e disciplinada.
Ele caminhou até minha mesa e parou à minha frente, olhos fixos e prontos para o relatório. Vito sempre sabia o momento certo para entrar. Sabia que não gostava de interrupções desnecessárias, então, se estava ali, era porque tinha algo relevante para dizer.
— Essas semanas em que esteve fora, estive de olho nela, senhor. — começou, direto ao ponto, como sempre.
O tempo passou, mas mantive minha ordem de monitoramento ativa. Bianca podia estar quieta, mas isso não significava que estivesse segura. Alguma coisa aconteceria eventualmente, e Vito estaria lá para observar.
— Alguma novidade? Algo que me agrade? — perguntei, soprando a fumaça do cigarro enquanto mantinha os olhos fixos nele.
— Ela tem saído disfarçada, senhor. Roupas pretas, máscara... claramente tentando não ser notada. — Vito relatou com precisão.
Dei uma longa tragada no cigarro, processando a informação. Bianca se escondendo fazia sentido. Quem conhece o submundo, sabe que desaparecer às vezes é a única forma de se proteger. Mas, no caso dela, não era apenas uma questão de se esconder de mim. Ela tinha dívidas com gente perigosa, e eu sabia que esses homens não a deixariam em paz tão facilmente.
— Claro. Faz todo o sentido. Está tentando passar despercebida. — murmurei, jogando o cigarro no cinzeiro. — Ela está sendo cautelosa, mas isso não vai durar para sempre.
No mundo que eu controlava, ninguém conseguia desaparecer por completo. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria cometendo um erro. Era uma questão de tempo. A pressa não era minha aliada, mas a paciência era. E eu estava acostumado a esperar.
— Continue de olho nela. Quero saber cada passo que ela der. — ordenei, voltando meu olhar para os papéis em cima da mesa.
— Sim, senhor. — Vito respondeu com um aceno, antes de sair do escritório, fechando a porta atrás de si.
O escritório voltou ao silêncio, e por um momento, fiquei ali, refletindo sobre o que Vito havia dito. Bianca estava se escondendo, mas não por muito tempo. Naquele mundo, o disfarce era uma solução temporária, uma jogada de desespero. E eu sabia que, eventualmente, ela teria que encarar os problemas que a perseguiam. A questão era: como ela lidaria com isso quando o tempo dela se esgotasse? Será que vinha imediatamente para mim?
Algumas horas mais tarde, depois de concluir meus compromissos do dia, subi para o quarto. Me vesti com o meu terno preto, uma extensão do meu controle sobre minha vida. O terno sempre me dava uma sensação de domínio, de segurança. Hoje era dia de visitar Lia, minha sobrinha. Não importava o quão ocupado estivesse, sempre fazia questão de estar presente. Aqueles momentos com ela eram os únicos que realmente me permitiam relaxar. O resto do mundo podia esperar.
Entrei no carro, com meu segurança Arthur ao volante, como de costume. Seguimos pelas ruas de sempre, o céu começando a se nublar, o clima pesado combinando com o dia. As ruas movimentadas de Roma passavam rapidamente pelas janelas, mas minha mente estava tranquila. O tempo que eu passava com Lia era o único que me permitia um certo alívio, uma pausa da rotina que construí ao longo dos anos.
Quando chegamos, desci do carro, e, como sempre, um dos meus seguranças me acompanhou até a entrada da clínica. O ambiente da clínica era quase reconfortante de tão calmo. As enfermeiras já me conheciam, e o silêncio dos corredores me dava uma estranha paz. Lia estava sempre no mesmo quarto, 302. O lugar tinha se tornado um refúgio para mim, onde eu podia ser apenas o tio dela, sem o peso dos negócios.
Ao entrar no quarto, vi Lia deitada na cama, como sempre. Ela parecia mais frágil hoje, os olhos fundos e a pele pálida. Mas, como sempre, ela me deu um sorriso assim que me viu. Aquele sorriso era o suficiente para fazer qualquer peso que eu carregasse desaparecer por um momento.
— Oi, pequena. — disse, sorrindo de volta, enquanto me aproximava da cama.
— Tio Aléssio. — A voz dela saiu baixa, quase um sussurro, mas cheia de carinho. — Você veio.
— Claro que vim. Sempre venho. — Respondi, sentando-me ao lado dela e segurando sua pequena mão entre as minhas.
Passei a tarde com ela, lendo, conversando sobre coisas simples. O tempo passava devagar ali, mas de uma forma boa. Por algumas horas, todo o resto desaparecia. Eu sabia que, lá fora, o caos me aguardava. Sabia que a vida continuava. Mas, naquele momento, nada mais importava além de estar ao lado de Lia, que agora dormia como um anjo.
Quando a noite caiu e era hora de ir embora, me despedi com um beijo suave na testa dela e deixei o quarto, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, teria que voltar à realidade que me aguardava lá fora. Afinal, meu mundo estava longe de ser tão tranquilo quanto aquele quarto de hospital.