Bianca Santoro,
Essas semanas se arrastaram como se o tempo estivesse preso, me sufocando a cada segundo que passava. Minha vida não mudou muito desde a última vez que vi aquele homem arrogante. Continuei fugindo dos canalhas a quem eu ainda devia uma boa parte do dinheiro. Sempre que achava que tinha escapado deles, apareciam em alguma esquina, prontos para me lembrar de que minha dívida estava longe de ser paga.
Hoje não era diferente. Estava vestida de preto, com uma toca que cobria meu cabelo e uma máscara no rosto. Sentada em um banco em frente a uma loja de roupas, observava o movimento da rua. Minha mente estava focada em um plano. Nas últimas três semanas, estive arquitetando como conseguir o dinheiro para pagar aqueles desgraçados de uma vez por todas. Não era fácil, mas eu precisava arriscar. Precisava agir.
O barulho das pessoas andando pela rua e o som dos carros ao fundo ajudavam a disfarçar minha ansiedade. Meu alvo era simples: a loja à minha frente. O caixa dela estava quase sempre desprotegido, e as câmeras de segurança eram fáceis de evitar. Eu já tinha observado o suficiente para saber os horários e o fluxo de pessoas. Hoje seria o dia.
Levantei-me do banco, ajustando minha máscara e a toca, e caminhei em direção à entrada da loja. Meu coração batia acelerado, mas mantive a calma. Sabia que precisava fazer tudo rapidamente, sem chamar a atenção. A loja estava mais vazia do que o normal, o que facilitava meu plano. Fingi interesse nas roupas, tocando em algumas peças, até que a vendedora me deu as costas para atender outro cliente.
Esse era o momento.
Com um movimento rápido, passei por trás do balcão e abri o caixa. A gaveta se abriu com um estalo seco, revelando o dinheiro que eu precisava. Peguei as notas o mais rápido que pude, meu coração batendo cada vez mais rápido enquanto olhava ao redor, tentando me certificar de que ninguém havia percebido.
Quando estava prestes a sair, o alarme da loja disparou.
— Droga! — murmurei, já sabendo o que estava por vir.
Não havia tempo para pensar. Saí correndo pela porta da frente, ouvindo os gritos da vendedora chamando por ajuda. Meu corpo se movia automaticamente, os instintos de sobrevivência tomando conta. Corri pelas ruas, virando esquinas e tentando despistar qualquer um que pudesse estar atrás de mim.
A adrenalina corria pelas minhas veias, e por um momento, achei que conseguiria escapar mais uma vez. Mas meu alívio foi interrompido pelo som estridente de uma sirene. Uma viatura da polícia apareceu do nada, bloqueando meu caminho.
— Mãos para cima! — um dos policiais gritou, saindo rapidamente do carro com a arma em punho.
Não tinha para onde correr. Meu corpo congelou no lugar, e levantei as mãos lentamente, sentindo o peso da situação cair sobre mim como uma pedra. Eu estava encurralada. Em segundos, fui algemada e jogada na traseira da viatura. Minha mente fervilhava de raiva e frustração, mas, ao mesmo tempo, sabia que havia sido imprudente.
Na delegacia, fui levada diretamente para uma cela. As paredes frias e o cheiro de umidade eram sufocantes, mas o pior era a sensação de derrota. Sentei-me na cama de pedra e encarei o vazio, tentando pensar em uma saída.
— Você tem direito a uma ligação, — disse o policial, com um olhar impassível.
Essa era minha chance. Eu precisava pensar rápido. Havia apenas uma pessoa que poderia me tirar daquele inferno, e, por mais que odiasse a ideia, não tinha escolha.
— Preciso ligar para alguém. — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
O policial me levou até o telefone. Com os dedos trêmulos, disquei o número da mansão de Aléssio, o qual consegui depois de muita pesquisa e alguns favores sujos. Demorei muito para acertar o último número. Um número errado e tudo estava arruinado, mas sempre tive uma boa memória para me lembrar das coisas. Ele é o único que pode me ajudar, sabia que ele tinha recursos para me tirar dali, mas, ao mesmo tempo, sabia que pedir ajuda a ele significava me expor de uma maneira que eu sempre evitei. E isso me deixava com raiva de mim mesma.
— Mansão Romano, como posso ajudar? — uma voz feminina atendeu.
— Eu preciso falar com Aléssio. É urgente.
A atendente hesitou por um segundo, mas logo ouvi o som da linha sendo transferida. Meu coração acelerou, e, então, ouvi a voz dele do outro lado da linha.
— Quem é? — Ele atendeu com uma calma provocante, como se já soubesse de tudo, mas quisesse se divertir com a situação.
— Sou eu... Bianca. — Minha voz saiu tensa. — Eu estou precisando da sua ajuda, por favor.
Houve uma pausa, e eu podia imaginar o sorriso satisfeito se formando em seus lábios.
— Bianca? — Ele fez uma pausa, o tom de voz levemente zombeteiro. — Não conheço nenhuma Bianca.
Revirei os olhos, irritada.
— Ah, para com isso. Vai se ferrar, Aléssio.
— Olha a boquinha, Boneca. — Ele riu do outro lado. — Porque, se continuar assim, posso desligar. O que você quer?
Eu engoli o orgulho, coçando a cabeça, tentando encontrar as palavras certas.
— Estou na delegacia... preciso que me tire daqui. Por favor.
Ele riu de novo, um som que me fez cerrar os dentes.
— O que eu ganho com isso? — perguntou, sua voz carregada de provocação. — Porque, segundo você, disse que não precisava da minha ajuda. Agora está me pedindo por favor? Isso é engraçado.
Meu sangue ferveu, mas eu não tinha escolha.
— Cala a boca e vem logo. — Eu praticamente gritei. — Eu faço o que você quiser, só me tire daqui.
— O que eu quiser? — Sua voz era suave e ameaçadora ao mesmo tempo. — Tem certeza?
Fechei os olhos, sentindo a humilhação queimando por dentro, mas respondi:
— Sim, o que você quiser.
— Tudo bem. — Ele disse, sua voz baixa, como se estivesse se divertindo com a situação. — Já estou indo.
A ligação foi encerrada, e o policial me levou de volta à cela. Sentei-me na cama de pedra novamente, sentindo o frio do concreto subir pelas minhas pernas. Agora, não havia mais nada a fazer além de esperar. Esperar e pagar o preço por ter pedido ajuda para aquele arrogante do Aléssio.
— Humilhação, até onde eu cheguei. — resmunguei enquanto eu esperava.