Aléssio Romano,
Assim que entrei no meu escritório após a visita à clínica, recebi uma ligação de Vito. Já era tarde, e eu esperava que o dia estivesse acabando, mas parecia que a noite ainda me reservaria algumas surpresas.
— Senhor, Bianca se meteu em uma fria. — disse ele, com aquele tom calmo, quase indiferente. — A molecada chama assim, não é? Ela entrou em uma loja de roupas, pegou o dinheiro do caixa, e assim que saiu, o alarme disparou. A polícia foi acionada e prendeu ela. Levaram-na para a delegacia.
Suspirei, sem surpresa. Eu sabia que isso iria acontecer eventualmente. Bianca não era o tipo de pessoa que conseguia se manter longe de problemas. Ela estava presa naquele ciclo autodestrutivo, e, por mais que resistisse, o fim sempre seria o mesmo. Era inevitável.
— Não faça nada. — respondi a Vito. — Ela vai ter que me procurar. Eu sei que vai dar um jeito de me ligar.
Desliguei o telefone e caminhei até a janela do meu escritório, olhando para o jardim lá fora. Uma parte de mim estava satisfeita. Não porque ela havia sido presa, mas porque, finalmente, eu tinha o controle que queria sobre ela. Bianca era teimosa, orgulhosa, mas agora ela estava encurralada. E, no final, ela precisaria de mim. Eu sabia que esse momento chegaria, e quando minha funcionária me avisou sobre uma mulher que queria muito falar comigo, não fiquei surpreso, eu sabia que era ela.
A ligação foi transferida para o telefone do meu escritório, ao ouvir sua voz do outro lado da linha pedindo minha ajuda, uma satisfação quase maliciosa passou por mim. Não mostrei isso na voz, mas dentro de mim, havia uma sensação de vitória. Finalmente, eu a tinha nas mãos.
A ligação foi encerrada, ela estava esperando por mim.
Mas Bianca precisava aprender que não era ela quem ditava as regras. Ela estava no meu mundo agora, e no meu mundo, ninguém me dá ordens. Eu teria que ir até a delegacia? Sim. Mas isso não significava que eu tinha que correr até lá no momento em que ela pediu.
— Vou deixar que ela espere até amanhã. — murmurei para mim mesmo, enquanto sentava na minha cadeira de couro e servia um copo do meu uísque favorito.
Bianca estava acostumada a fazer tudo sozinha, a lidar com as consequências dos seus atos sem depender de ninguém. Ela precisava entender que agora, para sair do buraco em que se meteu, ela teria que abaixar a cabeça e aceitar que precisava de mim. E se ela precisava de mim, isso significava que estava jogando no meu espaço.
Fiquei no escritório mais algumas horas, organizando meus papéis e me preparando para a viagem a Acapulco. Já fazia semanas que eu deveria ter feito essa viagem, mas os imprevistos, especialmente envolvendo Bianca, tinham me segurado em Roma. O Don Rick estava contando com a minha presença para uma reunião importante e para a festa que viria logo depois. Tudo parte dos negócios, claro, mas também um momento para solidificar algumas alianças.
Enquanto revia os documentos sobre a viagem, saboreava o uísque, deixando o líquido dourado descer suavemente pela garganta. Tudo estava em ordem agora. Bianca estava fora das ruas, e, por enquanto, ela esperaria pela minha ajuda. Isso me deu uma estranha sensação de calma. Ela precisava entender quem estava no controle, e o tempo que passaria naquela cela fria seria o suficiente para refletir sobre isso.
Após concluir meu trabalho, apaguei as luzes do escritório e fui descansar. Sabia que o dia seguinte traria a resolução do problema com Bianca, e depois disso, eu estaria pronto para seguir com meus planos.
Na manhã seguinte, acordei cedo, como de costume. Tomei um banho quente, me vesti com cuidado, e desci para o café da manhã. A mesa já estava posta, e um dos meus soldados trouxe o jornal do dia. As manchetes falavam sobre o roubo na loja, estampando a foto de Bianca. Era um pequeno artigo, nada que chamasse muita atenção, mas lá estava ela, com sua máscara preta e suas roupas escuras, correndo pelas ruas. A polícia, é claro, fez seu trabalho.
— Não mudou nada. — murmurei, tomando um gole do café enquanto lia o artigo. A garota problemática continuava na mesma espiral de sempre.
Terminei meu café tranquilamente, deixei o jornal de lado e me levantei. Hoje era o dia de tirá-la da delegacia, mas isso não significava que eu estava com pressa. Ela já tinha aprendido a lição ou, pelo menos, parte dela.
Peguei as chaves do carro e decidi ir eu mesmo até a delegacia. Alguns dos meus soldados vieram comigo, como sempre. Vito preferiu me acompanhar no carro de trás. No caminho, liguei para meu advogado, repassando os detalhes do caso de Bianca. Não era nada sério, um roubo simples, mas queria garantir que tudo seria resolvido sem deixar rastros.
— O caso é simples, disse o advogado, após eu explicar o que havia acontecido. — Podemos tirá-la de lá com um bom argumento e uma pequena quantia.
— Faça isso. Quero tudo resolvido sem complicações. — Minha voz saiu firme, e desliguei o telefone logo em seguida.
O trânsito estava tranquilo, e chegamos à delegacia em pouco tempo. Entrei no prédio com a confiança de sempre, meus homens me acompanhando. O cheiro de cimento e burocracia enchia o ar, o ambiente típico de qualquer delegacia de polícia. Caminhei até o balcão e me apresentei, esperando que o processo fosse rápido.
O policial responsável nos levou até o meu advogado, que já estava esperando. A papelada foi preenchida rapidamente, sem muitas perguntas. Bianca estaria livre em questão de minutos.
Enquanto esperava, minha mente voltou a calcular o que viria depois. Bianca estava devendo, e não só para aqueles homens. Agora, ela me devia também, e eu não deixaria que esquecesse isso tão cedo. O poder sobre ela estava em minhas mãos, e o que ela faria a seguir dependeria das condições que eu impusesse.
Quando finalmente a trouxeram para fora da cela, seus olhos encontraram os meus, e o que vi ali foi o que esperava: orgulho ferido, mas também a aceitação de que, desta vez, ela estava em débito comigo. E isso me agradava profundamente.
— Vamos. — murmurei, sem tirar o olhar dela. — Esse tipo de lugar, não é para mim.