Bianca Santoro,
Aquela noite foi uma tortura. O filho de uma vaca sem chifres não apareceu para me tirar da delegacia. Esperei praticamente a noite inteira sentada, com os nervos à flor da pele, mas, com o passar das horas, o cansaço venceu. Quando acordei no dia seguinte, o policial já estava abrindo a cela com um olhar de tédio, como se aquilo fosse apenas mais uma tarefa rotineira.
— Acorda aí, garota. — ele murmurou, dando um leve chute na cama de pedra. — Você tem sorte, sabia? Não sei como consegue tanto, de ter um homem como o senhor Romano pra vir te salvar.
Olhei para ele com desdém. Sorte? Isso não era sorte. Era uma dívida.
— O senhor Romano é importante pra você? — perguntei, minha voz carregada de sarcasmo. — Porque, pra mim, ele é só mais um homem como qualquer outro.
O policial apenas riu, um som seco e sem humor, enquanto abria a cela para que eu saísse. Passei por ele com passos firmes, mesmo que o cansaço ainda estivesse grudado no meu corpo. Quando saí, lá estava ele, parado, me esperando com aquele olhar frio e calculado. Os olhos azuis de Aléssio encontraram os meus, e por um momento, uma corrente de gelo percorreu minha espinha. Ele parecia inabalável, como sempre.
Sem dizer uma palavra, seguimos em direção ao carro que estava estacionado na frente da delegacia. Um carro luxuoso, daqueles que só se vê nas ruas mais nobres da cidade. Assim que entrei, o cheiro do couro novo e o brilho impecável do interior me fizeram lembrar, mais uma vez, da distância entre nossos mundos. Eu não sabia muito sobre quem ele realmente era, apenas que ele era rico, poderoso, e que agora, de alguma forma, eu estava devendo a ele. Era como se eu tivesse feito um pacto com o d***o.
Enquanto o carro deslizava pelas ruas, não disse uma palavra. Minha cabeça estava cheia, girando com os eventos das últimas horas. Eu sabia que o que havia acontecido na delegacia era apenas o começo. Estava em dívida com Aléssio agora, e essa dívida, ao contrário das que eu tinha com os canalhas que me perseguiam, era muito mais perigosa.
O silêncio no carro era denso, pesado, mas eu preferia assim. Não queria falar. Não queria dar a ele mais do que o necessário.
Foi ele quem quebrou o silêncio, finalmente.
— Saiba que a partir de hoje, vai fazer o que eu mandar. — A voz dele era calma, mas havia uma força por trás de cada palavra. — Você está em dívida comigo, Bianca, e, se esquecer disso, faço questão de lembrá-la todos os dias, se for preciso.
Senti meu corpo ficar rígido, como se o carro tivesse ficado mais frio de repente. Eu não gostava de ouvir isso. Não gostava de estar sob o controle de ninguém. Mas, ao mesmo tempo, sabia que não tinha escolha.
— Não vou esquecer. — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse controlá-las, como se meu subconsciente tivesse assumido o comando por um segundo.
Aléssio sorriu de leve, mas não desviou o olhar da estrada.
— Ótimo. — Ele respondeu, sua voz ainda carregada de autoridade. — Espero que o que passou sirva para você amadurecer.
Fiquei quieta, sem saber como responder a isso. Amadurecer? Como se fosse tão simples. Como se ele entendesse o que eu tinha passado, como se ele soubesse o que era lutar para sobreviver todos os dias. Mas eu engoli a resposta amarga que estava na ponta da língua. Não era hora de discutir. Não enquanto eu ainda estava devendo a ele.
O carro continuou seu caminho pelas ruas silenciosas, e eu olhava pela janela, vendo a cidade passar como um borrão. Minha mente estava em alerta, mas também cansada. Eu estava ciente de que, a partir daquele momento, minha vida estava nas mãos de Aléssio, e ele não era do tipo que fazia favores sem cobrar. O que ele queria de mim? Essa era a pergunta que martelava na minha cabeça. Eu sabia que ele não havia me tirado da delegacia por bondade. Ele queria algo em troca, e, cedo ou tarde, eu teria que descobrir o que era.
Chegamos à mansão dele, um lugar que, para mim, parecia mais uma fortaleza do que uma casa. As luzes estavam todas acesas, os seguranças posicionados estrategicamente ao redor. Tudo ali transpirava poder e controle, e eu, mais uma vez, me sentia deslocada. Era um mundo ao qual eu não pertencia.
Ele saiu do carro e abriu a porta para mim, me fazendo sinal para que o seguisse. Engoli o orgulho mais uma vez e o acompanhei. Sabia que não adiantava resistir agora.
— Venha comigo. — Ele disse, a voz baixa, mas firme. Não era um pedido.
Entramos na mansão, e ele me conduziu para um escritório no andar de cima. O lugar era tão impecável quanto o carro. Tudo ali tinha um propósito, assim como ele. Aléssio sentou-se atrás de uma enorme mesa de madeira e me encarou, seus olhos fixos nos meus. Eu sabia que esse era o momento em que ele definiria o preço da minha liberdade.
— Agora que você me deve um favor, — ele começou, seu tom de voz calmo, mas carregado de autoridade, — quero que saiba que essa dívida não será fácil de pagar. E eu espero que você cumpra cada parte do acordo que fizemos.
Meus olhos o encararam, desafiadores, mas ao mesmo tempo, eu sabia que estava em desvantagem. Estava presa naquele jogo.
— O que você quer de mim? — Perguntei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.
Ele sorriu de canto, aquele sorriso que me dava nos nervos.
— Isso, Bianca, você vai descobrir em breve. — Ele se inclinou um pouco para frente. — Mas saiba que, a partir de agora, cada passo que você der será sob a minha supervisão.
Um nó se formou na minha garganta, mas eu apenas assenti, sabendo que, a partir daquele momento, não tinha escolha a não ser seguir as regras dele.