Capítulo 8

1537 Words
Bianca Santoro, — O que aquele homem pensa que sou? — murmurei, sentindo o desconforto do soro preso à minha veia. — Não vou ficar aqui, só porque ele quer. A sala branca e fria do hospital me fazia sentir ainda mais sufocada. Eu odiava hospitais, e o fato de estar ali, sob o olhar daquele homem misterioso, me deixava ainda mais agitada. Não era apenas a dor física que me incomodava, era o peso de estar constantemente sob o controle de situações que pareciam fugir do meu alcance. Eu não queria a ajuda dele, muito menos precisava de sua piedade. Não precisava de ninguém. Com um movimento brusco, arranquei a agulha do soro do meu braço. O pequeno ponto de sangue apareceu na pele, mas eu não me importei. Era uma dor insignificante comparada ao que eu já havia suportado. Respirei fundo e balancei a cabeça. Precisava sair dali, e rápido. O que quer que estivesse acontecendo, eu não queria fazer parte disso. Aquela cama de hospital me fazia lembrar da fragilidade da vida. E fragilidade era algo que eu não tinha tempo para sentir. Levantei-me da cama, mesmo com as pernas ainda fracas. O impacto do acidente tinha deixado meu corpo dolorido, e minha cabeça latejava, mas nada que me fizesse parar. Caminhei até a poltrona ao lado, onde minhas roupas estavam jogadas. Ajeitei-me, tirando aquele vestido irritante de hospital e vestindo minhas roupas de volta. Eu era boa em me virar sozinha, e essa seria só mais uma prova disso. O corredor do hospital estava relativamente calmo, mas eu sabia que não poderia simplesmente sair pela porta da frente. Eles me parariam, com certeza. Minha mente trabalhava rápido, procurando uma rota de fuga. Olhei pela janela e vi que havia um beco estreito do lado de fora. Uma saída discreta, se eu conseguisse chegar até lá. Saí do quarto com cautela, mantendo a cabeça baixa enquanto passava pelas enfermeiras que conversavam distraídas no corredor. Minha sorte era que o turno estava tranquilo, ninguém prestava atenção em mim. Virei à esquerda no final do corredor e desci as escadas de emergência. O cheiro de mofo e o som dos meus sapatos ecoando no concreto eram um alívio. Ninguém parecia usar aquele caminho. Quando cheguei ao último andar, percebi uma janela entreaberta que dava para o beco. Era a minha chance. Sem pensar duas vezes, subi em um cano velho e enferrujado que ficava ao lado da janela e me esgueirei por ela. A queda não foi tão alta, e, com um pouco de sorte, caí de pé, mesmo que com alguma dor nas pernas. O beco era estreito e sujo, mas era exatamente o que eu precisava. Desaparecer sem ser notada. Já na rua, andei rapidamente pelas vielas que conhecia tão bem. Passei pelas lojas abandonadas e pelos carros estacionados, sem nunca olhar para trás. O vento cortava meu rosto, e a sensação de liberdade momentânea preenchia meu peito. Finalmente, eu estava longe daquele hospital e de tudo o que ele representava. Mas, mesmo com o alívio, eu sabia que ainda teria que enfrentar o próximo desafio: minha tia. Cheguei à rua de casa, com o corpo cansado e a mente cheia de raiva. Tudo parecia estar exatamente como antes, como se o tempo ali não se movesse. O pequeno portão enferrujado da frente rangia enquanto eu o empurrava para abrir. A casa, com suas paredes desbotadas e janelas sempre sujas, parecia tão decadente quanto eu me sentia por dentro. Assim que entrei, lá estava ela, com aquele olhar de desprezo que eu já conhecia tão bem. — Foi fabricar os pães? — minha tia me lançou o olhar mais frio, os braços cruzados. — E cadê eles? Por que demorou tanto para chegar? A falta de paciência dela era óbvia, como se eu tivesse sumido apenas para irritá-la. Seu hálito, com cheiro de cigarro, já me dava náuseas. Suspirei, tentando manter a calma, mas minha voz saiu seca. — Tive um acidente. Estava no hospital. Mas já estou aqui. Ela riu, um riso seco e amargo. — Hospital? — zombou, com o rosto torcido. — E os pães, Bianca? O que você fez com o dinheiro que eu te dei? — Perdi o dinheiro — respondi, cruzando os braços. Não queria explicar o que realmente aconteceu, não para ela. Ela não se importava de verdade. — Não trouxe os pães porque perdi o dinheiro no meio do caminho. — Claro que perdeu — ela gritou, avançando para perto de mim, com os olhos cheios de fúria. — Sempre com essas desculpas, Bianca! Você não faz nada certo! Nada! Eu te dou uma coisa simples para fazer, e você não consegue nem isso? Uma coisa tão simples como foi cuidar do seu irmão, e você também não conseguiu. Fechei os olhos, tentando conter a raiva e a dor que começavam a subir por dentro de mim. A culpa e a mágoa que ela sempre jogava nas minhas costas estavam lá, pesando, como sempre. Cada palavra dela era uma faca cravada no peito. Eu já estava cansada dessas brigas, dessas acusações, da culpa que ela jogava em mim todos os dias. Como se minha vida já não fosse complicada o suficiente, minha tia fazia questão de tornar cada segundo dentro daquela casa um inferno. O gosto amargo da raiva subia na minha garganta, e eu senti que, desta vez, não conseguiria simplesmente engolir e ficar em silêncio. — Sabe de uma coisa? — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, e meus olhos finalmente encontraram os dela. — Eu também estou cansada. Cansada de você, cansada dessas acusações. O que você quer que eu faça? Que eu conserte tudo? Que eu traga meu irmão de volta? Não posso! Eu não posso fazer nada disso! Minha voz tremeu ao falar dele. O peso da culpa pelo que aconteceu com meu irmão sempre esteve comigo, mas minha tia fazia questão de esfregar isso na minha cara o tempo todo. Eu sabia que ela me odiava por isso, mas o que mais eu poderia fazer? Eu era só uma criança, e tudo que fiz foi errar, e aquele erro me assombrava desde então. — Não me venha com esse drama! — ela gritou de volta, cruzando os braços. — Você sempre foi um problema. Desde o começo. Sempre falhou, e por isso está nessa situação. Sabe por que ninguém te quer? Porque você não vale nada, imprestável. Nem ontem, nem hoje, nem nunca. Essas palavras, que eu já tinha ouvido tantas vezes, ainda me atingiam como socos no estômago. Cada vez que ela dizia aquilo, era como se estivesse arrancando mais um pedaço de mim. Mas hoje, depois de tudo o que aconteceu, eu não podia mais suportar. Algo dentro de mim estava prestes a quebrar, e eu não sabia o que aconteceria quando isso acontecesse. Sem dizer mais nada, virei as costas para ela e fui em direção ao meu quarto. Bati a porta com força, as lágrimas que eu segurava finalmente escapando. O quarto era pequeno, apertado, mas era o único lugar onde eu tinha um pouco de privacidade. A única coisa que me separava do inferno que era viver com aquela mulher. Joguei-me na cama novamente, sem me importar com as dores que ainda restavam do acidente. Meu corpo doía, mas a dor física era a menor das minhas preocupações. Eu me sentia cansada. Cansada de tudo. Cansada da minha vida, das acusações, de ser sempre a culpada por tudo. Meu irmão estava morto, e talvez... talvez tudo realmente fosse culpa minha. Enquanto as lágrimas desciam silenciosamente, eu sentia o vazio tomando conta de mim novamente. Aquela sensação de estar perdida, sem rumo, sem ninguém. Eu estava sozinha, como sempre estive. E, por mais que tentasse fugir disso, a realidade me puxava de volta. Eu sabia que não podia ficar ali para sempre, mas, ao mesmo tempo, não tinha forças para sair. O que eu faria agora? Onde eu iria? Eu não tinha para onde ir. Minha vida era uma sequência interminável de erros, e, apesar de todos os esforços, parecia que eu nunca conseguiria escapar disso. O rosto daquele homem, Alessio, passou pela minha mente por um breve momento. Eu me perguntei o que ele pensava de mim. Provavelmente me achava uma garota qualquer, sem rumo, sem importância. Alguém que ele ajudou por pura obrigação, e não por se importar de verdade. Afinal, por que ele se importaria? Eu era apenas mais uma bagunça em sua vida controlada. Eu virei na cama, abraçando o travesseiro e tentando conter as lágrimas que não paravam de vir. Talvez minha tia estivesse certa. Talvez eu realmente não valesse nada. Mas, ao mesmo tempo, uma pequena voz dentro de mim — fraca, mas presente — dizia que eu ainda poderia mudar as coisas. Que, de alguma forma, havia algo mais para mim. Mas o quê? Eu não sabia. Tudo parecia tão distante e fora de alcance. Fechei os olhos, tentando me acalmar, mas o peso da culpa e da dor era forte demais para ignorar. Eu estava à beira do colapso, e sentia que, se não encontrasse uma saída logo, não conseguiria suportar por muito mais tempo.
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