Aléssio Romano,
A discussão entre mim e Bianca foi curta, mas intensa. Suas respostas afiadas, sua raiva evidente, e a maneira como ela me encarava, como se quisesse me afastar e desafiar ao mesmo tempo, me deixavam inquieto. Ela era diferente de qualquer outra pessoa que eu já tinha conhecido. E havia algo nela que me incomodava de uma maneira que eu não conseguia definir. Mas, antes que eu pudesse continuar tentando entender o que estava acontecendo entre nós, a enfermeira entrou no quarto.
Ela caminhou até o soro pendurado ao lado da cama de Bianca e verificou os medicamentos com a eficiência de quem já fez isso milhares de vezes. Bianca permaneceu em silêncio, e eu me afastei um pouco, permitindo que a enfermeira fizesse o trabalho dela.
Foi nesse momento que meu celular vibrou no bolso do meu terno. Atendi com um movimento rápido, levando o telefone ao ouvido. Era Vito.
— Senhor Romano, Don Rick está esperando. Ele ligou perguntando quando você vai chegar para a reunião — a voz de Vito estava séria, como sempre. Don Rick era um dos mais influentes no nosso círculo, e aquela reunião era crucial para os próximos passos dos negócios.
— Diga que já estou indo. — Respondi, tentando manter a calma e o foco. Desliguei o celular e o guardei de volta no bolso.
— Apliquei 50ml de morfina no soro — disse a enfermeira, enquanto ajustava a pequena bolsa pendurada. — É para aliviar a dor dela e ajudar a descansar. Ela vai precisar de bastante repouso nas próximas horas.
Eu assenti silenciosamente enquanto observava Bianca, que evitava meu olhar a todo custo. Ela estava machucada, tanto por dentro quanto por fora. Eu podia ver isso claramente agora, por mais que ela tentasse esconder com sua atitude desafiadora. Ela parecia frágil ali, deitada na cama, e, por mais que tentasse parecer dura, era evidente que havia algo quebrado dentro dela.
A enfermeira terminou o procedimento e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Eu a olhei mais uma vez, vendo como ela se recusava a me encarar. Talvez ela estivesse com raiva de mim, ou talvez estivesse apenas envergonhada. Não tiro a razão dela, afinal, eu sou intimidador, e a situação toda tinha sido caótica. Mas, por alguma razão, eu sentia que havia algo a mais nessa atitude. Algo que vinha de antes de eu sequer cruzar seu caminho.
— Terei que ir a uma reunião — disse, quebrando o silêncio. — Espero que você fique bem. Assim que sair, passo aqui para ver como você está. Tudo bem? Ainda temos muito o que conversar.
Ela apenas assentiu, sem dizer uma palavra, ainda evitando me olhar diretamente. O silêncio que se seguiu era quase ensurdecedor. Eu sabia que não havia mais nada a dizer naquele momento.
Com um último olhar, me virei e saí do quarto, fechando a porta suavemente atrás de mim. Caminhei pelo corredor do hospital, minha mente já se voltando para os compromissos que me aguardavam. A reunião com Don Rick era importante demais para ser ignorada. Esse encontro poderia decidir o futuro de várias operações que eu gerenciava, e eu não podia me permitir distrações.
Entrei no carro, onde Vito já estava me esperando no banco do motorista. O silêncio reinava, e ele sabia que não precisava dizer nada enquanto eu processava tudo o que havia acontecido. A tensão entre eu e Bianca ainda ecoava na minha mente, mas eu sabia que precisava me focar.
— Ele já está no local da reunião? — perguntei a Vito enquanto ele dava partida no carro.
— Sim, senhor. Ele está esperando no nosso escritório privado.
Assenti. Não precisávamos de mais palavras. O carro deslizou pelas ruas da cidade, e, embora minha mente estivesse voltada para os negócios que me aguardavam, uma parte de mim ainda estava presa na imagem de Bianca, deitada naquela cama, lutando contra algo que parecia maior do que a simples dor física.
— Enquanto eu estiver em reunião, levante um Dossiê completo sobre Bianca. Quero saber tudo sobre ela, onde mora, o que faz, com quem vive. — Dei ordens a Vito.
— Sim senhor.
O caminho até o local da reunião foi rápido, e, quando chegamos, a familiaridade do ambiente trouxe um certo alívio. O prédio discreto, em uma parte isolada da cidade, era usado exclusivamente para encontros desse tipo. Ali, longe dos olhos curiosos, os acordos mais importantes eram feitos.
Saí do carro e ajustei meu terno antes de entrar. O ambiente era frio e calculado, como sempre. Um jogo de poder estava prestes a começar, e eu sabia que precisava estar no controle, como sempre estive. Mas, mesmo com toda a minha experiência e treinamento, algo dentro de mim estava diferente. Aquela garota... Bianca. Não conseguia tirá-la da cabeça.
Ela tem a língua afiada.
Vito me acompanhou até a porta da sala de reuniões, onde Don Rick já me aguardava, e em seguida saiu para fazer o quê pedi.
— Romano! — ele exclamou com seu sotaque carregado, levantando-se da poltrona de couro onde estava sentado. — Estava começando a achar que tinha esquecido de mim.
— Impossível, Don — respondi com um leve sorriso, enquanto apertava sua mão. — Apenas alguns contratempos no caminho.
— Contratempos? Espero que nada sério. — Ele se inclinou para trás na cadeira, com um olhar curioso.
— Nada que eu não possa resolver — disse, sem dar muitos detalhes. Afinal, o que aconteceu com Bianca não era algo que Don precisava saber. — Vamos ao que interessa. O que temos para hoje?
Don Rick assentiu e se ajeitou na cadeira. A reunião estava prestes a começar, e o foco absoluto era necessário. Por mais que a imagem de Bianca continuasse a pairar no fundo da minha mente, eu sabia que o mundo dos negócios exigia a minha atenção completa. No meu mundo, distrações eram perigosas.
A reunião começou, e os tópicos eram os de sempre: dinheiro, poder, controle.
Enquanto discutíamos o futuro dos negócios, eu já sabia que, ao final de tudo, teria que voltar para aquele hospital.