Dormir contigo é o menor dos meus pecados
FERNANDO MORELLI BASTIANI
Ela subiu antes de mim. O som dos passos leves ecoando na escada de metal. O quarto de hóspedes no andar de cima era simples, mas limpo. Tinha uma cama de casal, um abajur velho e cortinas que deixavam a luz da rua entrar feito sussurro. Era o suficiente.
Ou deveria ser.
— Fernando!
A voz dela cortou o silêncio como navalha. Subi correndo, o coração na garganta.
— O que foi? — entortei o pescoço ao entrar, vasculhando com os olhos.
Ela estava no meio do quarto, abraçada a si mesma.
— Eu não vou dormir aqui sozinha, não. Eu tenho medo.
— Porr4, garota! Que susto! — deixei o ar sair com força, passando a mão pelo cabelo.
— Que susto por quê? Eu só te chamei.
— Você gritou, caralh0! Achei que tava sendo atacada ou sei lá!
— Agora que eu não durmo sozinha mesmo. Se pode me acontecer alguma coisa, eu não fico aqui.
Revirei os olhos. Respirei fundo.
— Tá bem... espera aí.
Desci, peguei um colchão extra, cobertor e um travesseiro que ficava guardado pro caso de hóspedes. Subi, arrumei tudo aos pés da cama e bati a mão com força no colchão.
— Pronto. Contente?
Ela não respondeu. Se deitou na cama, se encolhendo como uma criança. Eu deitei no colchão no chão, braços cruzados atrás da cabeça, olhos no teto mofado.
— Dorme. Quero ir tomar banho.
— Eu vou com você.
Virei o rosto, desconfiado.
— Pra onde?
— Lá pra baixo. Você toma banho, depois a gente sobe juntos pra dormir.
Soltei uma risada seca.
— Oh, garota... quantos anos você tem, hein?
— Vinte e oito.
— Foi uma pergunta retórica. Tá bem grandinha pra ter medo, não tá?
— E você é um grosso.
Levantei sem responder. Desci.
Fui direto pro banheiro no porão, fechei a porta e encostei a testa no azulejo frio. A água quente desceu pelos ombros, mas não lavou a cena que se repetia na minha cabeça como um filme indecente.
Sua pele tremendo. O som do seu gemido. A forma como seu corpo se contorceu, preso, rendido. A porr4 da tatuagem queimando na minha mente. E o gosto...
O gosto dela ainda estava na minha língua.
Fechei os olhos. A mão escorregou até o p4u duro. Comecei devagar, sussurrando.
— Alinne...
Minha testa encostada na parede, a água escorrendo entre os dedos. Minha boca lembrava do calor da pele dela. Meu corpo inteiro parecia pedir mais. A respiração ficou descompassada. E quando a imagem do seu corpo arqueado explodiu na minha mente, eu g0zei forte, arfando como se tivesse apanhado por dentro.
Encostei na parede. Ainda ofegante. Fodid0.
— Como é que eu vou dormir com ela ali em cima, nua, usando minha camisa... sem calcinha?
Cuspi no chão. Enxaguei o corpo rápido. Saí enrolando a toalha na cintura. E foi quando vi.
Ela.
Encostada na parede do corredor.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, tentando manter a voz firme. — Veio me ver tomar banho?
— Eu fiquei com medo. — ela olhou pra baixo, depois direto nos meus olhos. — E você estava se masturband0?
Pausa.
O mundo pareceu ficar mudo.
Me aproximei devagar, o sangue ainda quente correndo nas veias.
— Aqui é minha casa. Minha privacidade. E sim. Eu estava me masturband0. Por quê? Devo f0der você?
Ela piscou. O peito subindo e descendo.
— Se você não me quer aqui, por que me mantem aqui?
Ela virou e subiu correndo, os pés descalços batendo nos degraus.
Fiquei parado ali, no meio da escada, com o gosto do nome dela ainda na minha boca... e a dúvida de até onde essa p0rra vai nos levar.
Coloquei uma calça de moletom — sem cueca, como de costume.
A pele ainda quente do banho. O cheiro do sabonete se misturando com o sal do pensamento. Respirei fundo, tentando deixar o corpo mais leve, mas era em vão.
Subi as escadas com uma jarra de água em uma mão e dois copos na outra.
— Trouxe água. Se sentir sede mais tarde... — murmurei, largando tudo sobre a mesinha de madeira.
Nenhuma resposta.
Só o som da respiração dela. Um pouco mais acelerada que antes.
E então… o som que me rasgou por dentro.
Choro.
Baixo. Contido.
Aquele tipo de choro que quem ouve… sente.
Caralh0. P0rra.
Fechei os olhos por um segundo.
— Alinne? — minha voz saiu mais branda do que eu gostaria. — Por que está chorando?
— Não é da sua conta. Não fale comigo, seu grosso!
Ela falou sem se virar, ainda de costas, a voz abafada pela mágoa.
Suspirei. Bufei. Me odiei.
— Alinne … — deixei sair.
Ela não respondeu.
— Desculpas.
Pausa.
— Conversa comigo?
Ela hesitou. Depois devolveu:
— Depende. O que você quer conversar?
— Por que você veio aqui, para Positano?
— Essa é minha pergunta. Falei.
— Estou procurando meu irmão. — Tá. Mas por que EU preciso estar aqui? Ainda não entendi.
Ela me olhou confusa.
Pensei em mentir. Não consegui.
— Estou caçando seu irmão. Satisfeita?
— Caçando? — ela virou lentamente o rosto. Os olhos marejados. — Você… quer matar meu irmão? E eu sou a isca?
— Então o perigo não está lá fora. Está ao meu lado? — a voz dela falhou na última palavra.
Eu a olhei. Pela primeira vez desde que subi.
E vi.
As lágrimas.
Não as que rolam por capricho, nem as que pedem atenção.
Mas aquelas que vêm de um poço antigo, que ficam presas por anos e só precisam de um sopro pra virarem cachoeira.
Merda.
— Minha vez… — engoli seco. — Por que você estava chorando?
Ela demorou. Mas respondeu com a verdade.
— Saudade.
— Saudade?
— Sim, Fernando. Dos meus pais que se foram. Do meu irmão que não vejo há anos… e... — ela engoliu o nó na garganta — e dele. O rapaz que eu não conheci.
Me franzi.
— Como sente saudade de alguém que não conhece?
— Não sei, Nando.
Nando.
Aquilo soou como uma punhalada... doce.
— Nando? Ganhei apelido agora? Não Entendi. Nem me conhece e já me deu apelido.
— Pode rir. Eu sou assim. Gosto de conversar. Gosto de me conectar com o outro. Entender. Sentir.
— Isso ainda não responde minha pergunta. Por que saudade dele?
— Não sei. Acho que ele estava sentindo o mesmo que eu: dor. E eu me conectei com a dor dele.
Ela respirou fundo, como quem voltava no tempo.
— Eu tinha acabado de perder meus pais. Meu irmão me levou pra um retiro de artes. Mas eu não conseguia pintar nada. Tudo estava sem cor. Sem brilho.
Quando eu olhei nos olhos dele — o raro momento em que ele me olhou de volta — eu vi. Um grito na garganta. Um mar atrás dos olhos. Segurado por uma muralha que não era dele.
Eu só queria jogar nossas dores naquele mar… e deixar que fossem levadas pra longe.
Fechei os olhos por um segundo. A imagem veio nítida.
Não dela.
De mim.
De uma noite.
De um beijo.
— Foi meu primeiro beijo. — ela continuou. — Infantil e terno. Não teve língua. Não teve toque… além das mãos grandes dele segurando meu rosto.
E depois… só a testa dele encostada na minha. Como um adeus sem fala.
Silêncio.
— Depois desse dia… eu voltei a pintar. Cresci. Por fora. Ganhei fama. Fortuna. Carreira.
Mas... o olhar dela mudou. E a mulher de verdade que ela é ... apareceu.
— Sabe, Nando… eu me apego à minha dor. De alguma forma. Eu não quero que essa menina cresça… porque eu não quero esquecer o único pedaço de vida que eu tive. Eu não quero esquecer.
Minha garganta fechou.
— E você acha que ele se lembra? Que ele sente?
Ela me olhou. Triste. Quase sorrindo.
— Minha menina aqui dentro? Ela grita que sim.
— Mas você sabe que não. — completei.
Ela assentiu devagar.
— Não lembro do rosto dele. Nem do cheiro. Só do cheiro do mar. Da lua imensa naquela noite. O resto… tudo sumiu.
E acho que pra ele também.
Se ele passar hoje por mim… eu não saberei. E nem ele.
— E mesmo assim você continua guardando a lembrança?
Ela me encarou. Olhos brilhando. Lágrimas firmes descendo.
— O que mais me resta, Nando? Que eu estou sozinha no mundo?
Que até meu irmão… eu vou perder?
— Eu não sei por que você quer matar ele. Nem se ele merece morrer.
Mas… quem sabe com essa lembrança, com essa saudade…
Aquela praia… que um dia levou minha dor,
Traga ele de volta. E me leve o medo também.
Ela respirou fundo. Deitou de lado.
— Obrigada pela conversa, Nando.
Bom descanso.
Fiquei ali, deitado. Sem saber se era o barulho do mar…
Ou meu coração batendo por dentro do peito que agora doía.
Ela virou de costas. Silêncio.
Mas o nome dela ainda pairava no ar. Alinne.
E por algum motivo estranho, intenso…
meu peito doía como se eu já tivesse perdido ela também.
Fechei os olhos.
E naquele instante, eu soube:
Se ela descobrir quem eu sou…
ela nunca vai me perdoar.