Quando o amor vira estratégia FERNANDO MORELLI BASTIANI Ela me olha por dentro. A mão sobe à minha nuca, o polegar desenha um círculo lento — é um gesto de paciência antiga. O azul dos olhos dela brilha como aquela parte do mar que esconde profundezas perigosas e, ainda assim, convida. — Eu não sou sua maquininha de tatuar — ela diz, sem pressa, como quem escolhe palavras que não podem falhar. — Não sou sua casa em Li Galli. Não sou seu estúdio. Eu sou teu lar. Teu outro pulmão. Teu abrigo. Então não me mostre ao mundo como tua mercadoria, porque eu não sou. As palavras dela não entram; elas acontecem. Primeiro esmagam. Depois, me levantam. Eu sinto vergonha de tudo que nomeei errado. Sinto gratidão por ela ainda me ensinar. Eu não consigo responder. A boca não tem tamanho suficiente.

