O MAR QUE ME OBSERVA

1615 Words
Entre a tinta e o sangue, encontrei meu nome. FERNANDO MORELLI BASTIANI O mar de Positano à noite não tem som. Tem presença. Ele não te chama. Ele te encosta. Te vigia. Te avalia. E às vezes, quando tudo está silencioso demais, eu sinto que ele quer me afogar. Ou talvez queira me devolver pra algum lugar de onde nunca voltei. Tô sentado na laje do meu próprio estúdio. Um terraço simples, encardido, mas com uma vista que parece arrancada de um quadro. As luzes das casas se acendem devagar, como se Positano acordasse de noite, não de dia. Lá embaixo, bem lá embaixo, está ela: Spiaggia di Fornillo. A praia escondida onde tudo começou. Onde minha alma foi beijada pela primeira vez... e talvez, pela última também. Meu nome é Fernando Morelli Bastiani. Tenho 34 anos, mas o tempo me pesa como se eu tivesse nascido no século passado. Sou italiano, de sangue, de idioma, de raiva. Moro aqui mesmo, em Positano, no bairro alto, onde as escadas parecem nunca terminar e o mar não parece querer ir embora. Meu estúdio fica num beco discreto, longe dos turistas, onde o cheiro de tinta se mistura com o de cigarro e pecado. Não tem plaquinha na porta. Não precisa. Quem vem, é porque foi mandado. Ou porque carrega dor suficiente pra virar tinta. Sou tatuador. E não, eu não escolhi isso por paixão, por arte, nem por rebeldia. Escolhi porque tatuar me dá poder. Tatuar é fazer uma marca permanente num corpo que antes era neutro. É transformar carne em código. E eu precisei aprender a marcar antes de ser apagado. As pessoas acham que tatuagem é estética. Mas pra mim, é domínio. Talvez por isso eu tenha me tornado o que sou: O chefe da Rosa N3gra. Não é uma máfia. Não do jeito que você imagina. A Rosa N3gra é uma irmandade. Um círculo de homens que carregam em si a crença de que a justiça do mundo é fraca, e que a dor precisa ter forma. A minha dor veio com uma morte. A do meu irmão. Ele foi tirado de mim por um traidor. Um verme covarde que fugiu como o rato que é, deixando atrás de si não só sangue, mas a necessidade de resposta. Uma necessidade que grita dentro de mim todos os dias — mas grita mais alto quando a noite cai e eu volto pra esse terraço. O estúdio tem dois andares. Em cima, a tatuagem. Embaixo... o porão. Ali é onde a tinta é mais escura. Onde a pele não é só pele, é confissão. Onde você não pede desenhos... você paga pecados. Lá embaixo, hoje, tem alguém. Mas agora não. Agora é só o mar. O vento. E o gosto dela que ainda não saiu da minha boca. Que porr4 você fez comigo? Era pra eu te usar. Era pra eu cravar a dor do mundo na tua pele. Mas eu te lambi. Eu te fiz g0zar. E depois saí correndo como se você tivesse me tatuado por dentro. Fecho os olhos. A brisa salgada bate no meu rosto. E a memória vem... De quando eu tinha 22. E beijei uma garota naquela praia escondida. Sem saber que anos depois, ela seria... minha redenção. Ainda não sei. Mas o mar sabe. E ele me observa. Desci do telhado com o vento ainda nas ideias. Peguei o caminho de sempre — uma viela que leva direto ao restaurante da Tia Nena. Ela não é tia de sangue, mas foi assim que fomos ensinado nas ruas. Os mais velhos são tios e tias, mesmo depois de adultos, nada muda. Aquela mulher me conhece desde que eu usava bermuda no joelho e falava com a boca cheia de sorvete. — Buonasera, tia. — Olha só quem apareceu! — ela sorriu, enxugando as mãos no avental florido. — Dois PFs como sempre, menino? — Dois, por favor. — Me sentei na cadeira de madeira que sempre range, mas nunca quebra. Ela arqueou a sobrancelha, me lançando aquele olhar de quem já viu tudo. — Tá comendo em dobro ultimamente, hein? Almoço e janta... dois pratos. Não é muita comida não, Fernando? Dei uma risadinha sem jeito. — Ah, tia... não é isso. Tem um morador de rua que apareceu outro dia, dei um prato e agora ele bate ponto todo dia lá no fundo do estúdio. Então... eu como com ele. É isso. Ela balançou a cabeça com um sorrisinho maternal. — Tinha que ser você. Vai lá, vou preparar duas marmitas bem caprichadas. Peguei as quentinhas e voltei pro estúdio. Assim que pus os pés dentro, um gelo percorreu minha espinha. Merda. Ela. A garota. Ainda presa. Desci as escadas correndo. O porão tava silencioso, abafado. Destranquei as algemas. — Se veste. Falei seco, sem olhar. Fui até a bancada, fingindo que procurava algo. Ou talvez estivesse fugindo do que vi antes de sair. Ela correu pro banheiro, me lançando um olhar de fúria. — Eu deveria ter mijado no chão. E eu não limparia. Trancou a porta. Bem ousada... Mas linda. Realmente. Deixei ela presa. Por horas. Sem água. Merda. Preciso me lembrar desses detalhes. O som do chuveiro ligando trouxe um silêncio estranho. Não era culpa, mas era incômodo. Minutos depois, a porta do banheiro se abriu. Ela saiu molhada. Nua. Cabelos pingando. A pele ainda vermelha da tatuagem. — Ei, moço... não tem... — Fernando. — O quê? — Me chamo Fernando. — Ah. Prazer, eu acho... Não tem toalha no banheiro. Levantei os olhos. Primeiro vi o rosto. Depois o corpo. Depois... a tatuagem. Engoli seco. Soltei o ar devagar. Fui até a gaveta, peguei uma toalha e joguei pra ela. Ela se aproximou. — Quando eu... — Cala a boca, por favor. — Mas... — Cala a porr4 da boca. Fiz um gesto com a cabeça, apontando a cadeira. — Senta e come. — Como vou vestir a calcinha agora? Tá doendo. Resmunguei baixinho, levantei, fui até o armário e peguei uma pomada anestésica. Me ajoelhei na frente dela e comecei a aplicar com cuidado. O toque era quente. O contraste entre o jeito frio da minha cara e a suavidade da minha mão me expôs demais. — Não vista calcinha até melhorar a dor. Fui até o guarda-roupa e peguei uma camisa minha. — Vista isso. — Como vou pra casa só de camisa? E sem calcinha? Sem encarar, respondi: — Não vai. — O quê? — Até seu irmão aparecer... você mora aqui. —Agora senta e come Alinne. — Como você sabe meu nome? Suspirei fundo. — Senta, Alinne. — E come. Ela me olhava como quem procura respostas. Mas naquele momento, nem eu sabia o que estava perguntando a mim mesmo. Ela vestiu minha camisa, longa o suficiente pra cobrir o necessário, mas não o bastante pra esconder o estrago que fiz — na pele e no equilíbrio dela. Os cabelos ainda úmidos colavam no rosto. O perfume dela agora era sabonete barato e algo que grudou em mim desde que a toquei. Desejo. Ou maldição. Ela sentou de frente pra marmita, encarando o arroz como se fosse uma bomba prestes a explodir. — Vai ficar me olhando ou vai comer? — Você sempre é assim... gentil? Levantei uma sobrancelha. — Você ainda tá aqui, não tá? — Presa. — Viva. Ela baixou os olhos. Mas só por um segundo. Alinne tinha essa maldita mania de não baixar a cabeça por muito tempo. Mesmo nua. Mesmo algemada. Mesmo tremendo. — Eu só queria uma tatuagem no pescoço. Um símbolo. Uma rosa. E agora... nem sei o que você marcou em mim. Dei de ombros. Fingi desinteresse. Mas por dentro, o nome dela estava queimando como ferro quente contra o meu peito. Ela cutucou o arroz com o garfo. — Posso perguntar uma coisa? — Não. — Você já sabe meu nome, já me viu nua, já me prendeu, já me lambeu... custa responder uma pergunta? — Custa. — Por quê? Parei. Respirei fundo. Encostei as costas na parede, cruzei os braços. — Porque pergunta demais, Alinna. E aqui embaixo, cada resposta vem com uma cicatriz. E você... já tem uma nova. Ela me encarou. Firme. Não com ódio. Com um tipo de fascínio confuso, como se tentasse entender o quebra-cabeça que sou. E por um segundo... eu quis que ela entendesse. Mas segurei. — Termina de comer. Ela pegou o garfo, mastigou sem fome. Depois, olhou pra mim com os olhos semicerrados. — E o tal morador de rua? — Que tem ele? — Vai jantar também? Ou aquela segunda marmita era pra mim? O silêncio entre nós virou outra coisa. Quente. Densa. — Foi o que eu imaginei. — Ela disse, voltando a mastigar. — Você gosta de fingir que não sente. Mas sua comida entrega. — Você fala demais, garota. — E você finge demais, Fernando. Fiquei em pé. Puxei a marmita dela, fechei com força. Ela arregalou os olhos. — Terminei. — Já vi. — Peguei a embalagem e levei até a pia. Ela me seguiu com o olhar. Depois se ajeitou na cadeira, ainda de camisa, as pernas nuas cruzadas de forma quase calculada. — E agora? — Agora você dorme. — Aqui? — No quarto do andar de cima. — E você? — Eu? — Abri a porta. — Vou sonhar com o que nunca devia ter acordado. Ela se levantou devagar. Olhou pra mim de novo antes de passar pela porta. — Tem certeza... que foi só uma tatuagem? Eu não respondi. Nem precisava. Porque o gosto dela ainda tava na minha boca. E o nome dela… já tava tatuado na minha mente.
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