QUANDO O MAR SE CALA

1547 Words
O grito que nunca saiu FERNANDO MORELLI BASTIANI Acordei com o coração disparado, o peito arfando, e uma umidade estranha nos olhos. Mas não era suor. Era dor. A porr4 da dor antiga que não passa nem quando você tenta esquecer. MAS ANTES DISSO… Eu sonhei. Estávamos todos no bar. Eu, Allan, Ravi, Diego e Domênico. Rindo, bebendo, como se o mundo fosse nosso e nenhuma bala pudesse atravessar o peito de ninguém ali. Allan, como sempre, com o celular na mão. Franziu a testa. — Vou precisar sair, pessoal. A gente se fala depois. Saiu rápido. Não deu tempo nem de zoar ele por estar sempre saindo às pressas. Três horas depois, Domênico veio até mim com a cara pálida. Tão pálida que na hora soube: m3rda grande. — Chefe… é o Fred. — Que que tem o Fred? — Foi assassinado. Silêncio. Nada se mexia dentro de mim. Nenhuma lágrima caiu. Nenhuma palavra saiu. — E a mulher que ele tava também… mas ela foi encontrada muito mais à frente. Achamos que ela tentou fugir e pegaram ela. Meus dedos fecharam devagar sobre a mesa. — Quem foi, Domênico? Ele engoliu em seco. — Ainda não sabemos, chefe. Mas estamos rastreando. Minha garganta parecia fechar. O ar não vinha. O peito queimava. Não doía como um corte. Era uma dor surda, lenta. Uma dor que se instala e vai comendo por dentro. Levantei. Caminhei sem rumo até a beira da Spiaggia di Fornillo. Aquela praia maldita, testemunha de coisas demais. A noite estava abafada. Sem vento. O mar… calado. Gritei. Com tudo. Com o que eu não tinha gritado quando recebi a notícia. Com o que eu não consegui dizer olhando nos olhos de Domênico. Com a alma. Caí de joelhos na areia. A raiva e a tristeza brigando dentro de mim, como dois cães famintos. Flash. Me vi mais novo. Fred rindo, me zoando. — Me deixa ir, Fernando! — Pai, ele não quer me levar! — Deixa seu irmão em paz, Fred. — Ahhh, tá bom, pai. Ele me mostrou a língua. — Já volto, maninho. — Maninho um caralh0! Já tenho vinte anos, p0rra. Você só tem dois a mais. — Mas você age como se tivesse sessenta! Eu ri. Ele riu mais alto. — Fique aqui e cuide da mamãe, idi0ta! Agora ele se foi. E não voltou. Pelo menos, não inteiro. Voltei ao presente. Areia nos joelhos. Mãos enterradas. Gritando contra o mar. — NÃO, FRED! — P0RRA, NÃO! — QUEM FEZ ISSO COM VOCÊ? ME DIZ, CARALH0! Me debati. Me curvei como se quisesse vomitar a dor. Como se pudesse cavar a resposta na areia. E foi quando senti. Uma mão. No meu peito. Quente. Suave. Mas firme. Abri os olhos. Estava no quarto. Deitado. Respiração ofegante. Minhas mãos agarravam um pulso fino, e uma voz trêmula me perguntava: —Ei! Nando acorda, você está bem? — O que você está fazendo? — Você estava chorando… chamando por Fred. — Quem é Fred? Minha mente ainda estava na praia. No grito. No sangue. Mas meu corpo… estava agarrado a ela. A Alinne. Com os olhos assustados. Com a alma, talvez, reconhecendo a minha. Respirei fundo. Mas o gosto da dor ainda estava preso na minha garganta. — Ninguém. — Ele é ninguém. Mas era mentira. Fred era tudo. Era o começo do meu inferno. E talvez… Ela fosse o fim. — Alinne... Minha voz sai rouca. Ela ainda tá com a mão no meu peito. O olhar assustado. O peito subindo e descendo como se o medo morasse ali. — Me escuta bem. Nunca mais me toque enquanto eu estiver dormindo. Nunca. — Mas eu só… — Nunca! — repito mais firme. — Eu posso fazer uma m3rda sem perceber. Entendeu? Ela assente, silenciosa. Me viro no colchão e sento, com os cotovelos nos joelhos, tentando organizar o caos na minha cabeça. A imagem do Fred ainda sangra por dentro. E agora isso. Ela. Tão perto. Tão viva. Me acordando justo no meio do inferno. — Nando... — Oi. — Quer conversar? — Não. Silêncio. De novo. Ela fica ali parada. A respiração dela não volta ao normal. — Nando? Fecho os olhos com força. A voz dela parece entrar direto nas rachaduras do que me sobrou. — Você não dorme, garota? — Estou com medo. Pode ficar comigo... só até eu dormir. Por favor? Put4 que pariu. Hesito. Entre o sim e o inferno. Entre o ódi0 e esse algo que eu não quero nomear. Mas subo. Me deito do lado dela. De barriga pra cima. Sem encostar. Minha respiração começa a mudar. Eu sei. Sinto o corpo travando como se estivesse prestes a entrar em combustão. — Me abraça, por favor. Aperto os olhos. Respiro fundo. Coloco o braço sobre ela, pesado, como se fosse só isso. Um gesto. Uma concessão. Mas ela segura meu braço. Se aproxima. Se encaixa. Se aconchega em mim. Caralh0. Ficamos assim alguns segundos. O corpo dela colado no meu. A cabeça repousada no meu ombro. A pele quente, tão perto da minha. O cheiro suave, ainda com traços do sabonete e da p0rra da lembrança que não sai da minha cabeça. Ela respira fundo. Solta o ar devagar. Me cobre com o lençol como se eu fosse dela. Coloca a cabeça mais firme no meu ombro. E a perna. Por cima da minha. Tensa. Eu não me mexo. Eu m4l respiro. — Relaxa só um pouquinho… só até eu dormir… por favor — ela sussurra. Fecho os olhos. Pressiono os dentes. Luto com meu próprio corpo. — É que... eu não tô muito à vontade, Alinne. — Você me fez g0zar na sua boca… e não está à vontade com o quê? Silêncio. Caralh0. Ela tem razão. Ela me quebra com uma frase. Puxo o ar devagar. Solto mais devagar ainda. Meu corpo tenta aceitar o contato. Não como prazer. Não como entrega. Mas como proteção. Como promessa. Como uma p0rra de rendição silenciosa. Ela adormece. Devagar. Primeiro a respiração fica mais leve. Depois o corpo dela relaxa, e o peso da perna sobre a minha deixa de pressionar. A mão solta devagar meu braço, mas ainda descansa sobre o meu peito. A cabeça fica ali. Quente. Tranquila. E eu? Eu continuo acordado. Com o olhar no teto. Com a alma em frangalhos. Ela confia em mim. E isso… me f0de mais do que qualquer coisa. Confia o bastante pra dormir ao meu lado. Pra se entregar no meio da noite com a mesma inocência com que beija a saudade de um garoto que ela diz não lembrar. Ela me chama de Nando. Ela segura minha dor sem saber que é minha. Ela deita no meu ombro como se eu fosse casa. E eu não sou. Eu sou ruína. Eu sou vingança. Ela dorme. E eu ouço o som do mar lá fora. E pela primeira vez em anos… O barulho não me acalma. Me ameaça. Porque eu tô com medo de me perder nela antes mesmo de descobrir se ela é o veneno… ou a cura do meu caos. Acordei sem perceber que tinha dormido. A luz da manhã já escorria pelas frestas da janela, pintando o quarto com um dourado preguiçoso. Mas o que me despertou não foi o sol. Foi o calor. O peso. A posição. Eu estava abraçado nela. Meu braço em volta da cintura fina. Meu peito colado nas costas. E minha mão… caralh0 … estava quase tocando os sei0s dela por debaixo da camisa. Minha camisa. A m3rda da camisa que era a única coisa que ela vestia. Mas não foi isso que me assustou de verdade. Foi a bund4 dela. Macia. Quente. Empinada bem no meu p4u, que já estava ereto com aquela maldita ereção involuntária da manhã. E foi aí que a consciência me deu um soco no estômago. Ela estava sem calcinha. Sem. Calcinha. M3rda. Engoli em seco, parando de respirar por um instante. Fiquei imóvel. Travado. Meu p4u latejava, como se estivesse desafiando minha própria honra. Comecei a afastar o quadril, devagar. Bem devagar. Sem mover a parte de cima do corpo, tentando não acordá-la. Só queria ganhar uns centímetros de distância. Um respiro. Um espaço de sanidade. Mas aí ela se mexeu. P0rra. Se virou pra mim… e se aconchegou mais ainda. Braço por cima do meu peito. Rosto enterrado na curva do meu pescoço. Perna jogada sobre a minha. E o que me matou de vez: a bucet4 quente dela encostada na minha coxa. Dei um pulo mental. Interno. Meu corpo inteiro gritou. Meu p4u endureceu tanto que doeu. Eu preciso sair daqui. Agora. Antes que essa p0rra vire uma tragédia. Fui me arrastando devagar por baixo dela, até conseguir me soltar. Me levantei sem respirar, como se estivesse desarmando uma bomba. Saí do quarto em silêncio. Desci direto pro banheiro. Entrei no box como se fosse fugir de mim mesmo. A água caiu fria no meu corpo quente. E minha mente? Um caos. P0rra. Nem b4ter uma eu posso! Fiquei ali. Debaixo da água. Tentando esfriar o corpo. E implorando pra esquecer a sensação do corpo dela no meu. Daquela bucet4 quente na minha pele. E do que meu corpo queria fazer com ela… mesmo sem minha permissão.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD