Quando o corpo fala o que a guerra cala FERNANDO MORELLI BASTIANI Ainda estava sentado, com a bandagem quente latejando no ombro, quando Alinne tomou meu rosto com as duas mãos. Não foi um beijo faminto, desses que rasgam o ar; foi um beijo de chegada, lento, firme, como quem volta para casa depois de um temporal. Eu quis resistir — o corpo avisava que cada movimento ia cobrar um preço —, mas o que veio dela não foi pressa. Foi cuidado. — Deita. — disse, num tom baixo, quase uma ordem sussurrada. Obedeci. O colchão cedeu sob minhas costas, o ombro reclamou, mas ela ajeitou meu corpo com as palmas abertas, uma de cada lado do peito, como se me recolocasse no mundo peça por peça. Os cabelos caíram sobre mim. O cheiro era limpo, doce, ainda com um resto de shampoo. O primeiro beijo veio

