NORMA
Meu telefone tocou enquanto eu ainda terminava de beber o suco.
—Ao olhar para a tela, franzi a testa ao reconhecer o número da empresa.
Aquela ligação não era comum, especialmente naquele momento da minha vida, após tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Atendi imediatamente.
— Alô? Do outro lado, a voz soou apressada, quase em desespero, como se quisesse transmitir uma mensagem urgente antes de ser interrompida.
— Senhora Santin… há uma reunião extraordinária da diretoria em andamento, meu corpo ficou rígido.
Era como se um peso enorme tivesse caído sobre mim em meio à turbulência que estava vivenciando.
— A notícia daquela reunião era o último golpe que eu poderia suportar.
— O que quer dizer com reunião extraordinária? — Eles estão discutindo a presidência da empresa.
As palavras pairam no ar como uma nuvem escura.
—Eu não consegui deixar de lembrar que, em momentos críticos, como a separação de um ente querido, o fundamental deveria ser o apoio mútuo, não o planejamento corporativo.
—Um calor intenso subiu à minha cabeça, uma mistura de confusão e indignação, como se estivesse em uma panela prestes a ferver.
— Eu não posso acreditar nisso… — murmurei, a incredulidade tomando conta de mim.
— Não faz nem uma semana que sepultei meu marido… meu filho está em coma… e esses assuntos já estão sendo tratados?
O silêncio desconfortável do outro lado da linha me deixou ainda mais irritada.
— Senhora… é preciso.
— Eu não posso acreditar no que vocês estão falando!— murmurei, com a incredulidade, predominando em meu pensamento.
— Não faz nem uma semana que sepultei meu marido… meu filho está em coma, não morto, e esse assunto não está em pauta entenderam?
O silêncio desconfortável do outro lado da linha intensificou minha irritação.
— Senhora… temos que resolver a situação da empresa imediatamente.
— Aquela frase soou como um ultimato, ressoando em minha mente como um toque de sino em um momento de crise.
Com cada respiração, tentava controlar a raiva que ameaçava transbordar, ciente da pressão que mulheres em posições de liderança enfrentam, especialmente em tempos turbulentos, semelhante a um navegador que deve manter o leme firme em meio à tempestade.
Uma amiga certa vez me disse: "Em momentos difíceis, é fácil perder de vista o que realmente importa."
—E agora, eu sentia essa verdade em cada fibra do meu ser.
— Diga a eles que estou indo agora para o escritório.
Olhei rapidamente para a jovem atrás do balcão e acrescentei: — E ninguém tomará nenhuma decisão até que eu chegue.
Desliguei o telefone devagar, mas meu interior fervia. Naquele instante, deixei de ser apenas uma viúva em luto; transformei-me na mulher que não permitiria que decisões sobre a minha família fossem tomadas sem minha presença. A lembrança de todas as horas que meu marido dedicou para construir nosso legado me impulsionava, transformando minha dor em determinação.
Em sua memória, eu não iria falhar.— Paguei pelo suco, peguei minha bolsa e deixei o hospital.
Ao sair, o motorista já me esperava na entrada. Entrei no carro em silêncio, segurando o celular, as palavras da ligação ecoando em minha mente como um alarme: uma reunião extraordinária, sem mim, apenas três dias após a morte do homem com quem construí minha vida.
— Esse desrespeito às nossas memórias me fez lembrar do que ele sempre dizia: a família deve ficar em primeiro lugar, mesmo nos negócios.
Enquanto o carro avançava pelas ruas da cidade, fechei os olhos por um instante. A imagem do caixão descendo à terra ainda estava vívida na minha mente. O homem que havia construído tudo o que tínhamos agora era apenas uma memória, mas seu legado permaneceria em toda cidade que trazia de volta nossas conquistas, as noites passadas sonhando juntos e os desafios que superamos como um time.
—Meu filho, deitado em uma cama de hospital, lutava silenciosamente para voltar para mim.
Respirei fundo e endireitei os ombros, determinada a não permitir que essa tragédia se tornasse uma oportunidade para outros.
—Não aceitaria ser tratada como uma mera observadora em minha própria vida.
Quando o carro parou em frente ao prédio da empresa, eu não era mais a mulher devastada que saíra do hospital.
— Eu era uma das fundadoras daquele império, pronta para honrar o legado do meu marido e proteger nossa família, custe o que custar.