Nove

1217 Words
Luana Narrando Assim que chegamos na entrada do morro, vi de longe as barricadas montadas, Sempre tem isso por aqui. O pessoal do movimento não brinca quando o clima está tenso. Luana: Desliga os faróis e abaixa os vidros, Rodrigo - pedi, minha voz saindo baixa, mas firme. Ele me olhou pelo retrovisor, a expressão séria. Rodrigo: Tem certeza, Lu? Luana: Tenho, me deixa aqui mesmo, eu subo sozinha, eu moro aqui pertinho. Helena: Nem pensar! - Helena protestou. Helena: Você está tremendo, não tem condições de andar assim. Suspirei, ela tinha razão, meu corpo inteiro ainda estava em choque, mas eu preferia enfrentar qualquer coisa a ver Rodrigo em maus lençóis com o pessoal do movimento. Luana: Isso só acontece quando o Sombra, está sob alerta - expliquei, tentando acalmá-los. Luana: Ele é o dono do morro, e quando tem movimentação estranha, reforçam a segurança. Rodrigo olhou para os lados, visivelmente tenso. Rodrigo: Então não é um bom momento pra gente estar aqui, né? Luana: Não é, Por isso eu subo sozinha, eles protegem os moradores, Não se preocupem comigo. Helena: Luana… Helena começou, mas a interrompi com um beijo no rosto. Luana: Obrigada por tudo, de verdade. Rodrigo suspirou e aceitou meu beijo na bochecha, mesmo relutante. Rodrigo: Se cuida, hein? Se precisar de algo, me liga. Luana: Pode deixar - garanti, saindo do carro. Assim que pisei no chão e levantei a cabeça, meu coração disparou, O Sombra estava ali, sentado em cima da moto, me analisando da cabeça aos pés. Engoli em seco e abaixei o olhar. Melhor não encarar. Respirei fundo e segui meu caminho, torcendo para que aquela noite acabasse logo. Assim que cheguei em casa, abri o portão rápido, entrei e tranquei novamente. O silêncio tomava conta do lugar, só dava para ouvir o ronco do meu tio, e olha que ele dormi num barraquinho do lado, mas como é no mesmo lote, parece que o som atravessa as paredes finas, o homem ronca como uma motosserra. Joguei minha mochila em cima da cama, arranquei a roupa e fui direto para o banheiro. A água quente escorria pelo meu corpo, mas não era suficiente para levar a dor embora, as lágrimas quentes se misturavam com os pingos do chuveiro, meu peito doía. Como Jonas pôde fazer isso comigo? Como ele teve coragem de me enganar por tanto tempo? Dois anos sendo amante sem saber. Duas malditas ilusões, me sentia uma desqualificada, uma idiot@ completa. Saí do banho me sentindo exausta, me enrolei na toalha e fui até a cama. Meu celular vibrava sem parar, Peguei o aparelho e, sem surpresa nenhuma, vi que era Jonas. Jonas: Luana, me atende, por favor. Jonas: A gente precisa conversar, Eu tô indo aí. Minha visão ficou turva de tanta raiva, como ele ainda tinha coragem? Respirei fundo e gravei um áudio na hora, sem nem pensar duas vezes. Luana: Vem, Jonas, Vem mesmo. Tomara que tenha invasão hoje e tu leve um tiro bem no meio da tua testa, Me esquece, garoto, se insistir nessa ideia de vir aqui, eu peço pro Sombra dar um jeito em você. Enviei e desliguei o celular na mesma hora, antes que ele tentasse mais. Vesti um pijama folgado, liguei o ventilador no máximo e me joguei na cama, abraçando meu travesseiro com força. O choro veio de novo, sem controle. A sensação de ridículo, de humilhação, pesava sobre mim como uma pedra no peito, eu confiava nele. Eu amava aquele desgraçado, e agora tudo o que restava era esse vazio sufocante, essa dor que parecia não ter fim. Fechei os olhos, sentindo a dor me invadir e me consumir. Acordei com a voz da minha avó me chamando, insistente. Vó: Luana, acorda!, Você já está atrasada pro trabalho. Tentei abrir os olhos, mas foi um sacrifício, meus olhos estavam inchados de tanto chorar, minha cabeça latejava, e meu corpo inteiro doía como se tivesse sido atropelado. Luana: Vó, eu tô doente, não vou trabalhar hoje - murmurei, minha voz saindo fraca. Minha avó se aproximou e tocou minha testa, sua expressão preocupada. Vó : Você tá com febre, menina! Vou pegar o termômetro e preparar um chá. Eu apenas gemi em resposta, me sentindo ainda mais fraca, quando ela voltou, colocou o termômetro debaixo do meu braço e esperou. Poucos minutos depois, confirmou o que já suspeitava. Vó: Quase 40 graus, Luana. Tá com 39,5. Suspirei, sem forças nem para reagir. Minha avó puxou as cobertas de cima de mim sem aviso. Vó: Levanta e vai tomar um banho, Agora. Me arrastei até o banheiro e deixei a água fria escorrer pelo meu corpo, foi um choque, Saí me debatendo de frio, batendo os dentes, mas minha avó já estava com o chá pronto. Vó: Bebe isso e se enrola de novo. Tem que suar pra febre sair. Obedeci sem discutir, passei o dia todo dormindo, mergulhada num sono pesado, sem sonhos, apenas tentando fugir da dor e do cansaço. No final da tarde, fui despertada por uma voz familiar. Alana: Luana! Caramba, mulher, eu quase enfartei! - Alana entrou no quarto, preocupada. Esfreguei os olhos e tentei me sentar na cama. Luana: O que foi? Alana: O que foi?! Seu celular tá desligado o dia inteiro, pensei que tinha acontecido alguma coisa grave com você. Suspirei e minha avó, percebendo que eu queria conversar com minha amiga, saiu do quarto, assim que ela fechou a porta, desabei de vez. Luana: Alana, eu descobri, o Jonas, ele é casado. O olhar dela se transformou na hora. Alana: O QUÊ? Luana: Ele tem filhos, Dois. Alana: Aquele… aquele - Ela começou a disparar uma sequência de palavrões. Deixei que ela xingasse por mim, eu já não tinha forças para isso. De repente, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Tio: Luana! Meu tio entrou correndo, ofegante. Levei um susto e arregalei os olhos. Luana: Que foi?! Tio: O Sombra vai matar o teu amigo! Senti meu coração acelerar. Luana: Que amigo? Tio: Eu não sei o nome, Luana, mas corre lá! O cara veio atrás de você, chegou num baita carrão, e os moleques chamaram o Sombra! Meu sangue gelou. Só podia ser o Rodrigo, ou será que era o Jonas. Levantei num pulo, ainda meio tonta da febre. Eu estava com um vestido coladinho de malha fina, estampado com o Piu-Piu e o Frajola, meu favorito, nem pensei em trocar. Apenas calcei minhas Havaianas e saí correndo morro abaixo. Alana veio atrás de mim, preocupada. Alana: Luana, espera! Mas eu não podia esperar. Quando cheguei na barreira, vi a cena que temia, Rodrigo estava ao lado do carro, parado, com dois garotos armados um de cada lado. E bem na frente dele, o Sombra. Senti minhas pernas falharem, mas não hesitei, me meti entre Rodrigo e o Sombra sem pensar duas vezes. O chefe do morro me olhou dos pés à cabeça, a cara mais cínica do mundo, ainda lambeu os lábios. Sombra: Fala tu, morena. Qual foi? Engoli em seco, tentando manter a calma. Luana: Por favor, não faz nada com ele, Esse é meu amigo da faculdade, o nome dele é Rodrigo, ele me trouxe pra casa ontem porque eu não tava me sentindo bem, ele só veio me visitar, só isso.
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