Dois

928 Words
Sombra Narrando Mas um dia finalizado na quebrada, família. Meu nome é Samuel, mas ninguém sabe disso. Não revelo minha identidade pra nenhum curioso. Aqui no Complexo da Maré, eu sou conhecido como Sombra, o dono do morro, o temido e implacável. Sabe, família? Não ligo pro que falam de mim, o que importa aqui é o poder e a grana. E isso eu tenho de sobra. Tenho 32 anos e assumi essa porr@ com 25. Sou moreno, tenho 1,80 de altura, pele branca e cabelo e olhos castanhos, meu corpo é quase todo coberto por tatuagem e tenho aquele mastro que as mina pira no desejo. Meu pai me ensinou tudo. Aprendi com um grande mestre na arte do movimento, me deu um fuzil e uma pistola ao invés de um lápis e um caderno. Sei ler e escrever, mas só estudei até a quinta série. Não sou o inteligente da geografia, mas sei que não existe crime perfeito, né, família? Eu mesmo tô ciente que um dia vai cair na língua dos falador que fui eu que mandei apagar o Coroa. Mas e daí? Fiz isso pela minha mãe e pela minha irmã. Só quem viveu no inferno sabe o peso de cada gota de sangue derramada. Só quem viu a mulher que te deu a vida ser pisada como um inseto entende o que é ódio de verdade. Meu pai? Nunca foi pai. Foi um monstro que aterrorizou nossa casa, que fez da da vida da minha Rainha um campo minado. Eu sirvo ao TCP. Terceiro Comando Puro. Lá, família é tudo. E como vou considerar família o homem que maltratou a mulher que me deu a vida? Aí é forçar muito, meu parça. No morro, palavra tem peso, e eu não podia deixar aquilo impune. A lei da quebrada é clara: quem trai a família paga o preço. Na noite em que resolvi fazer o que tinha que ser feito, não senti medo. Só um frio na barriga, aquele arrepio que dá quando a adrenalina sobe. Sem muitas palavras. Sem perdão. Fim da linha. Meu coroa caiu e foi de arrasta na jaula, mas porque eu não deixei ele respirar muito tempo lá dentro. Mandei apagar. O velho foi ot@rio, fez merd@ a vida toda e mereceu o fim que teve. Eu não sabia das parada suja que ele fazia até minha mãe abrir o bico. O saf@do abusava dela, batia, queimava as pernas. Minha mãe sempre andava de calça e saia grande, nós achava que era estilo dela, mas era pra esconder as marcas. Quando ele foi preso, a verdade veio à tona. A raiva me consumiu, e eu não pensei duas vezes. Soltei a grana pros maluco do UC Azul, e eles fizeram o serviço sujo. Sem rastro, sem nada. Agora sei que a conversa vai rolar. Sei que a favela fala, que o vento leva e traz fofoca. Mas eu tô pronto. Sei que se cair no ouvido errado, o bagulho vai ferver. Só que eu sou cria, não fujo do que fiz. Se um dia minha hora chegar, que seja. Mas pelo menos, quando eu fechar os olhos, vou saber que minha mãe e minha irmã dormem em paz. Depois disso, assumi essa bagaça. Botei ordem. Aqui ninguém faz o que quer. Respeito é essencial. Quem não segue as regras, desaparece. O crime é organizado, tem estrutura, tem disciplina. Não sou qualquer um. Faço dinheiro entrar, gero trampo pra minha gente, cuido da quebrada. Aqui ninguém passa fome, pelo menos os meus. Mas não confunde bondade com fraqueza. Errou comigo, o caixão desce. Moro sozinho. Não trago mina fixa pra dentro da minha goma. Mulher gosta de falar demais, e meu mundo é silencioso. Meu coração já foi de pedra, hoje nem existe mais. Mas minha mãe, minha irmã e minha tia vivem bem. Elas moram numa goma de luxo, tudo do bom e do melhor. Minha mãe sofreu demais, agora só merece descanso e paz. Minha irmã é nova, tem a vida inteira pela frente, e eu faço de tudo pra ela nunca precisar sujar as mãos como eu fiz. Hoje o dia foi puxado. A entrega de ontem deu boa, a mercadoria chegou intacta, e o dinheiro já tá rodando. O estoque tá cheio, e os noiado tão tudo feliz. Mas eu sei que a paz nunca dura muito tempo. No crime, todo mundo é aliado até o momento que quer tomar o seu lugar. Já tentaram me derrubar umas três vezes, mas eu sou Sombra. Eu vejo tudo, escuto tudo. Quem me trai, nem tem tempo de se despedir da família. Saio da minha goma e dou um rolê pelo morro. Os menor tão na ativa, de olho em tudo. Cumprimento uns, dou uma palavra pra outros. n**o do Tráfico me chama pra trocar uma ideia. Parece que tão querendo invadir nosso espaço lá na divisa. Dou um gole no meu whisky e escuto atento. Amanhã vamos ter que resolver isso. Não sou de guerra, mas também não fujo de uma. No final da noite, volto pra minha goma. Um drink na mão, um baseado na outra. O barulho da favela é minha sinfonia. Olho pela janela, vejo tudo o que construí. Aqui, ninguém sobe sem minha permissão. Sou o rei desse lugar. E enquanto eu estiver vivo, essa porr@ é minha. Amanhã tem mais trampo, mais dinheiro girando, mais desafios. Mas eu tô pronto. Sempre tô. Porque no fim das contas, só sobrevive quem é esperto. E eu? Eu sou o Sombra. O dono do morro.
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