Luana Narrando
Acordei às cinco, como todos os dias. Meu corpo já estava acostumado com essa rotina, então levantei sem dificuldades. Fiz minha higiene matinal e vesti minha roupa de sempre: Calça jeans e a blusa da farda. Olhei no relógio, cinco e quarenta e cinco. Hora de sair. Peguei minha mochila e, assim que abri a porta do quarto, senti aquele cheirinho de café fresquinho. Minha avó sempre acordava cedo para preparar o café para mim e para o meu tio.
Cheguei à cozinha e nem tive tempo de beber o primeiro gole. Minha avó me olhou séria e falou:
Vó : Lua, você vai ter que ter uma conversa com o Luiz.
Franzi a testa e perguntei:
Luana: Por quê? O que aconteceu?
Não gostei nada do que ouvi a seguir.
Vó: O Luiz tá arrumando briga no colégio e se juntando com amizades sem futuro.
Respirei fundo, tentando manter a calma. Meu irmão sempre foi um bom garoto, mas estava naquela fase complicada da adolescência. Precisava dar um jeito nisso antes que ele se metesse em problemas maiores.
Luana: Amanhã eu resolvo isso, vó. Amanhã é sábado, tô de folga. Vou pegar na orelha desse moleque.
Minha avó assentiu, mas seu olhar preocupado permaneceu. Bebi o resto do café às pressas e saí de casa quase correndo. O ônibus estava chegando quando cheguei ao ponto, como sempre lotado. Suspirei e subi, me espremendo entre os passageiros.
O trajeto foi o mesmo de todos os dias: gente reclamando, empurrões e o calor sufocante dentro do ônibus. Olhei pela janela, tentando ignorar o desconforto. Pensava em Luiz, nas escolhas dele e no que eu diria quando conversássemos. Ele precisava entender que certas amizades podiam ser uma armadilha, um caminho sem volta.
Desci do ônibus e caminhei até a fábrica. O dia se arrastou, como sempre, entre atendimentos e pequenas tarefas. Mas minha cabeça estava longe. Precisava conversar com Luiz da melhor forma possível, sem brigas, sem gritos. Só precisava fazê-lo entender que eu estava do lado dele, que queria o melhor para ele.
Depois do expediente, fui direto para o vestiário dos funcionários. Sempre tomo banho e me arrumo lá antes de ir para a faculdade, não dá para encarar a aula suada e descabelada, né?
Assim que saí da empresa, peguei a van direto para a facul. Cheguei e fui logo comprar uma conchinha e uma Coca bem gelada. Comi rapidinho e, logo em seguida, a aula começou.
Hoje tive sorte, o último período ficou vago. Com isso, saímos mais cedo, às nove. Até que enfim vou chegar em casa antes do habitual!
Cheguei em casa correndo, eu que não vou dar bobeira na rua sozinha como se estivesse andando na passarela. Nem sou doida né. Assim que entrei Minha avó estava sentada na sala, assistindo TV.
Vó: Como foi o dia, minha filha? - perguntou ela.
Luana: Cansativo, como sempre - respondi, jogando minha mochila no sofá.
Luana: E o Luiz? Chegou cedo da escola?
Vó: Chegou, tá no quarto. Nem falou muito, você sabe que ele não conversa comigo.
Suspirei. Amanhã, sem falta, teríamos aquela conversa.
Fui para o meu quarto. Depois de um dia corrido entre trabalho e faculdade, tudo o que eu queria era um banho relaxante no meu banheiro, um banho quente porque na empresa o banho é gelado. No vapor do chuveiro Fechei os olhos por alguns segundos, deixando o cansaço se esvair um pouco.
Depois do banho, vesti um pijama confortável e me joguei na cama. Peguei o celular e mandei uma mensagem para o Jonas.
- Oi, amor! Como foi seu dia? Estou com saudades...
Fiquei olhando para a tela, esperando uma resposta, mesmo sabendo que ela não viria agora. Jonas sempre desligava o celular à noite. Ele já tinha me explicado que alguns clientes ligavam de madrugada, então preferia deixar o telefone desligado para descansar melhor. De manhã, ele sempre me respondia cedo.
Suspirei e abracei meu travesseiro. Às vezes era chato sentir saudade e não poder falar com ele na hora, mas eu entendia.
Fiquei alguns minutos rolando no celular, vendo vídeos e mensagens no grupo da faculdade. Alguns colegas comentavam sobre a aula do dia seguinte, outros mandavam memes aleatórios. Dei uma risada baixa, mas logo senti os olhos pesarem.
Ouvi uma batida leve na porta antes dela se abrir.
Vó: Vai Comer?
Luana: Oi, vó - respondi, minha voz já grossa de sono.
Ela entrou no quarto e olhou para mim com aquele olhar carinhoso de sempre.
Vó: Comeu alguma coisa?
Luana: Comi na faculdade, vó, tô sem fome agora.
Vó: Tá bom, mas se sentir fome depois, tem comida pronta.
Luana: Obrigada.
Ela se aproximou e ajeitou uma mecha do meu cabelo.
Vó: Você tá cansada, né?
Luana: Muito...
Ela sorriu de leve e beijou minha testa.
Vó: Então dorme bem, meu amor. Deus te abençoe.
Luana: Boa noite, vó.
Ela saiu do quarto e fechou a porta devagar.
Me aconcheguei melhor na cama e deixei o sono me levar. Em poucos minutos, já estava completamente adormecida.
Acordei com o som insistente do meu celular tocando. Ainda sonolenta, estiquei o braço e peguei o aparelho na mesinha ao lado da cama. Era o Jonas.
Assim que desbloqueei a tela, vi várias mensagens dele. Meu coração acelerou um pouco, mas a empolgação logo deu lugar à decepção conforme eu lia.
- Bom dia, amor. Não vou poder te ver esse final de semana. Tenho um compromisso.
Fiquei triste. A semana toda eu tinha esperado por esse encontro. Respirei fundo e digitei uma resposta curta:
- Claro.
Mas antes mesmo de a mensagem ser enviada, percebi que só ficou um ponto ao lado do texto. A mensagem nem chegou.
Luana: Droga - resmunguei.
Tentei ligar, mas o telefone dele estava desligado. Suspirei frustrada. Estava esperando chegar o final de semana para ficarmos.
Deixei o celular de lado e me levantei. Fiz minha rotina matinal e prendi o cabelo em um coque bagunçado. Hoje era dia de faxina, e eu ainda precisava ter aquela conversa com meu irmão.
Vesti um short jeans, deixando o botão desabotoado para ficar mais confortável, e uma camiseta larga. Quando saí do quarto, minha avó me olhou da cozinha.
Vó: O pão acabou, minha filha.
Franzi os lábios.
Luana: Sério? Eu tava doida pra comer um pãozinho com ovo.
Ela riu.
Vó: Se quiser, compra lá na padaria.
Luana: Vou agora.
Peguei meu cartão na bolsa e fui até a padaria do bairro. Fiz o pedido no balcão e, enquanto esperava, senti um arrepio subir pela minha espinha.
Havia alguém bem atrás de mim.
A atendente olhava na minha direção, mas não para mim. Seu olhar estava fixo em algo atrás de mim.
Engoli em seco e me virei devagar.
Um homem me encarava.
Ele tinha uma expressão séria, quase intimidadora. Não fazia ideia de quem era, mas algo nele me deixava desconfortável.
Meu coração acelerou.