Quatro

1484 Words
Sombra Narrando Acordei e já fui direto pra minha rotina matinal, Jogar água fria no rosto é a melhor maneira de espantar o sono, né? Não dá pra passar o dia perambulando com aquela cara de quem não dormiu direito, Fui na padaria que sempre frequento, mas dessa vez decidi mudar. A padaria de baixo tinha um café mais forte e com certeza me daria o gás que eu precisava. Assim que entrei, a primeira coisa que vi foi uma figura de costas, Na hora, pensei que aquele lugar tinha suas surpresas, A mulher tinha uma presença marcante, daquelas que atraem olhares e respeito, tanto dos manos quanto das minas. Fiquei curioso, e a adrenalina começou a subir. Com certeza, ela não era qualquer uma. Quando ela virou, eu congelei. Linda demais! Olhos que brilhavam e uma boca bem desenhada, mas, pra minha surpresa, assim que ela me viu, desviou o olhar, pegou o saco de pão e saiu de cabeça baixa, sem nem me dar a chance de trocar uma ideia. Que situação! Fiquei lá, meio perdido, sem saber o que fazer. Fiz meu pedido e me sentei numa mesa, tentando organizar as ideia, meu vapor, sempre atento, percebeu que eu estava bolado e perguntou se estava tudo certo. Olhei pra ele e sem rodeios, já mandei a pergunta que estava queimando na minha mente. Sombra: E aí, quem é a mina que acabou de sair? Ele deu de ombros, como se não soubesse. Isso me deixou ainda mais intrigado. Não é possível que alguém tão gostosa assim passasse por ali sem que ninguém soubesse quem era. Aí, decidi dar uma missão a ele. Sombra: Menor, quero que você descubra tudo sobre ela. Nome, telefone, sobrenome, endereço, até o signo dela se precisar. Quero essa informação na minha mesa ainda hoje! Ele riu, mas eu falei sério. A ideia de deixar aquela beleza escapar sem tentar alguma coisa não estava nos meus planos. Ele olhou pra mim, já sabia que eu não ia descansar enquanto não descobrisse nada. Enquanto esperava, minha mente vagava. Quem será que ela era? O que fazia da vida? Fui lembrando de algumas situações que já passei, de como sempre atraí olhares e respeito, mas aquela morena tinha algo diferente. Era como se ela tivesse um mistério que me chamava, e eu não ia deixar isso passar. Com o café na mesa, já meti marcha filhão, não dá pra ficar de marola o trampo espera e não para não. Quando saí da padaria, fui direto pra boca, Cheguei lá já cumprimentando os moleque, fazendo o toque, O gerente já tinha passado a missão, e aqui no meu morro não tem sub, tá ligado? É só eu, o gerente e os vapor, Mas todo mundo tá ao meu comando, Não sou do tipo que fica o dia todo sentado numa cadeira, não, Eu também gosto da atividade, Sempre desço pra trocar ideia com os comerciantes. Sou respeitado aqui na minha quebrada, mas mesmo assim, ainda não conheço todos os moradores, principalmente os que moram lá embaixo. É engraçado, porque eu passo mais tempo em cima do morro, onde a visão é boa, onde dá pra ver tudo, Lá embaixo, a vida é diferente, e eu quase não desço. De vez em quando, eu arrisco uma passada, mas não é todo dia, não. Quando eu saio, é de helicóptero, porque a polícia tá de olho em mim. Eles oferecem uma grande miserável pela minha cabeça, e eu não posso vacilar. Essa vida não é fácil, Os caras não sabem o que é viver com esse peso, As ruas são perigosas, e todo mundo tem um motivo pra querer me ver no chão, Mas aqui, no morro, é diferente, Os moleque me respeitam, e eu faço questão de manter as coisas em ordem. O gerente sempre manda eu ficar ligado. Ele fala "Sombra, se cuida. A polícia tá mais em cima." E eu ouço, sempre. Afinal, eu não cheguei até aqui pra dar bobeira. Os comerciantes também são minha base, Eles sabem que comigo, o negócio é diferente. Se alguém encostar neles, é como se encostasse em mim, Aqui, a palavra vale mais do que qualquer papel, O respeito é tudo. Mas a vida aqui é cheia de desafios, A cada dia, tem que se provar, Os moleque tão sempre esperando que eu mostre que tô firme, E eu não posso decepcionar, Então, eu desço, troco ideia, ouço as demandas. Às vezes, rola um papo mais sério, e eu faço questão de tá presente, Porque no fundo, sou um deles, só que com um papel diferente. Os que moram lá embaixo não sabem o que rola aqui em cima. Eles veem a vida de um jeito, mas eu conheço as nuances e Os perigos, as dificuldades, Um dia, eu decidi que ia mudar isso, que ia fazer minha parte pra que a quebrada se sentisse segura, que todos soubessem que ali, no meu morro, não é só criminalidade, É uma comunidade. E assim, entre um movimento e outro, eu vou vivendo, Na correria, sempre atento, Os caras tão atrás de mim, mas eu não deixo me pegar, porque quem tem o controle é quem sabe o que quer, e eu quero mais, sempre mais. Cada dia é uma nova missão. Tá ligado? Minha irmã me mandou mensagem pedindo pra eu ir conversar com o meu sobrinho. O moleque tá dando trabalho na escola, brigando e tudo mais. Respirei fundo. Já falei pra esse moleque estudar, e avisei a minha irmã que não vai tirar o lápis e o caderno das mãos dele, a não ser que seja a escolha dele quando ele tiver maior de idade. Mas com nove anos, ele já tá arrumando briga na escola. O pai dele morreu, e eu como tio, sou a figura mais próxima de um pai que ele pode ter. Cheguei na casa da minha mãe, a minha irmã mora com ela, e já senti a bagunça no ar, a vó dele tava na cozinha, fazendo algum doce que eu não podia sentir o cheiro, mas sabia que ia ser bom. Minha irmã apareceu na sala, com a expressão preocupada, O moleque estava no quarto, provavelmente jogando algum videogame, fugindo da realidade. Sombra: E aí, irmã? — perguntei, tentando captar a situação. Samara: Ele tá dando trabalho, Mano, Não sei mais o que fazer, Ele briga com os colegas, e eu já não consigo controlar. - A preocupação dela era evidente. Sombra: Aí, ele precisa de um puxão de orelha, só pode ser, não dá pra deixar isso passar. Eu já sabia que tinha que ir lá e dar uma esculachada no garoto, mas ao mesmo tempo, tinha que ser firme, Ele precisa entender que a vida não é fácil, e muito menos na escola. Fui até o quarto dele e bati na porta. Sombra: Gabriel! Abre essa porta! Falei com firmeza, ele hesitou um pouco, mas abriu, quando entrei, ele estava com um controle na mão, tentando disfarçar. Sombra: Que bagunça é essa? - Perguntei, olhando ao redor, Os brinquedos espalhados, as roupas jogadas. Sombra: Você acha que pode ficar aqui jogando enquanto tá arrumando briga na escola? Ele olhou pra baixo, envergonhado. Gabriel: Eu não queria brigar, tio. Ele gaguejou. Sombra: Mas brigou, não é? - Disse, me aproximando dele. Sombra: Escuta aqui, se eu pegar você brigando de novo na escola, vai ser você e eu na esquina. Eu vou te dar uma surra na frente das garotas, e você vai entender que isso não é brincadeira. Ele arregalou os olhos, claramente assustado. Gabriel: Mas tio, eu só. - Ele tentou justificar, mas eu não ia deixar. Sombra: Não me interessa! - Falei, cortando ele. Sombra: Você precisa entender que na escola, você tem que se comportar, tem que estudar e ser um exemplo, porque sua mãe e sua avó já fazem o máximo por você. O moleque ficou em silêncio, as lágrimas quase escorrendo. Sombra: Olha, eu sei que você tá triste, e que a vida não é fácil sem o seu pai. Mas isso não é desculpa pra arrumar briga. Você é um bom garoto. Ele assentiu, mas eu queria mais do que isso. Queria que ele realmente entendesse a gravidade da situação. Sombra: Então, você vai pegar seus livros e vai estudar. E quando acabar, vai me mostrar. Porque, se não, vai ter problema comigo, beleza? Ele concordou, um pouco mais calmo. Sombra: Isso, garoto. A gente vai dar um jeito nisso juntos. Mas não esquece: a vida é dura, e você precisa ser mais forte. Agora, vai lá e faz sua parte. Eu tô aqui, mas não vou ficar sempre pra te salvar. Sai do quarto, sabendo que tinha feito o que era preciso. O moleque precisava de um guia, e eu ia tentar ser esse guia. Mas a luta dele era dele, e eu só poderia ajudar.
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