Capítulo 21

1761 Words
Ele começou a latir. No susto, ela acordou com Nilufer a tocando sutilmente. — Eiii, acorda, dorminhoca. Era pra você ir me buscar e não eu vir te buscar. — Tudo bem? — Perguntou Nilufer. Kaya foi despertando sonolenta. — Uhum… que horas são? Se sentou olhando o barranco. Por instantes, pôde jurar estar vendo um lobo lá em cima, sentado. Sorriu para Nilufer. — Desculpa, eu não quis ir pra fazenda, aí fiquei aqui. Não achou que eu ia fugir, né? Nilufer a ajudou a levantar, disse que tudo bem e que não esperava uma fuga de fato. Saíram conversando. Ao ver a mãe com aquele olhar de julgamento, Kaya perguntou como foi o primeiro dia da irmã, fingiu realmente estar muito interessada. Tagarela, Nilufer estava radiante com tudo e falou o trajeto todo. A cidade fazia muito bem a ela. Chegando na fazenda, Évora as recebeu apreensiva, porque Yesenia tinha falado horrores da Kaya, dizendo que com certeza ela ia fazer algo errado sozinha na casa. Kaya até sorriu para Évora quando recebeu o convite para jantar. Em menos de meia hora juntas, Évora pôde observar o quanto ela estava diferente, com o olhar mais atento e calma, até sorrindo para as graças da Nilufer. Apesar das dificuldades, Évora sentia que Kaya tinha muito carinho pela irmã. E Nilufer o mesmo. Jantaram um frango assado inteiro. Nada passava desapercebido pela cozinheira, que sabia exatamente do que as meninas deviam gostar, seguindo os instintos. Ainda com medo da reação de Yesenia, Évora decidiu bancar a boa amiga. Antes de irem dormir, convidou Kaya para assistir um filme, já que ela poderia dormir até tarde no dia seguinte, e Nilufer não. Kaya aceitou porque era algo que realmente gostava. Tomou banho pensando no sonho, em qual roupa usaria caso voltasse para aquele lugar, porque foi com a roupa que usava enquanto dormia. Fez curativo na perna rindo de si por estar imaginando tantas coisas, colocou calça de moletom e camiseta folgada, voltou para a sala meio sem jeito. Évora estava com uma manta e um travesseiro para cada, foi muito gentil o tempo todo, ajeitou Kaya no sofá. Escolheram um filme de romance. Quando ele estava acabando, Évora foi fazer um lanchinho da noite. Voltou com aquele chá que não oferecia para os outros. Kaya pegou a xícara, assoprou e perguntou intrigada: — O que é isso? Do que ele é? Évora sorriu, servindo as bolachinhas de nata. — Ahh, um mix de ervas… é um pouco calmante. Por quê? Não gostou? Kaya achou tudo um pouco estranho, tomou um gole com aquele sorriso m*****o. — É alucinógeno? Amansa louco? Porque tem dado só pra mim? — Eu sinto o cheiro, é diferente. Évora começou a rir muito, sem deixar se intimidar. — Que isso, menina? Quer expor meus segredos? — Perguntou Évora. — Tem visto ou ouvido coisas com ele? — Não é nada demais… serve pra pessoas agitadas, impulsivas e… não sei como falar… — Ardidas! — Caso esteja se sentindo diferente, de uma maneira r**m, não faço mais. Kaya sorriu, tomando a xícara toda, arqueou as sobrancelhas com ironia. — Minha mãe quer que eu tome, né? Tem remédio aqui? Ficou emotiva. — Pode falar a verdade, não vou contar nada pra ela. — Sei do quanto ela pode ser persuasiva, principalmente contra mim. Évora ficou com dó, levantou e foi sentar no mesmo sofá. — Não, querida. Ela nem sabe… aposto que iria surtar. — Não tem remédio nenhum aí, pelo menos não controlado ou comprado. — São coisas naturais, eu juro. Se for o nosso segredinho, te ensino a fazer amanhã. — Sabe que sou meio bruxa, né? Não viu meus incensos pela casa? Decoração esotérica? Mostrou o colar com uma pedra. — Olha meu amuleto da sorte aqui. Não quero te prejudicar. Confie em mim. Kaya sorriu, enxugando os olhos marejados. — E por que me ajudaria? m*l me conhece! Évora levantou, juntando as coisas. — Você não sabe… vai que em outras vidas fomos alguma coisa. Amigas. Família. — Acredita em previsões? Leitura de cartas? — Sou uma bruxa de respeito, mocinha. Kaya se levantou e foi indo atrás dela pra cozinha. — Não sei se acredito… que horas eu levanto pra aprender a fazer o chá? Évora começou a rir. Notando como Kaya podia ser adorável, do jeito dela. — Com as galinhas, antes da sua mãe e irmã. — Disse Évora. — Tem sentido mesmo diferença depois que começou a tomar? Encostada na pia, olhando fixamente pro chão, Kaya disse que se sentia estranha, de uma maneira boa. Combinou de levantar muito cedo e foi dormir com a sensação de estar ansiosa, só que por algo bom, como um passeio ou uma festa. Ela se sentiu acolhida. Não sonhou com nada da mata ou o lobo. Acordou no dia seguinte às seis da manhã com o despertador. Muito sonolenta, caiu da cama, em cima da bagunça que deixou o quarto. Irritada, foi lavar o rosto, escovar os dentes, abriu a porta da varanda. Viu que o dia estava começando lindo, saiu pelo quintal se espreguiçando no sol, deitou no gramado úmido com muita preguiça, se sentindo conectada a natureza, gostando do cheiro de grama molhada. Logo tomou um susto com a sombra de Évora ao lado. — As galinhas já estão quase voltando a dormir. Kaya se sentou, rindo sem jeito. — Bom dia… desculpa, eu já estava indo. Abri a porta e vi esse sol, não resisti. Évora serviu uma xícara de chá. Notando que Kaya estava até mais corada, com um ar de saúde. — Amanhã você vai direto pra cozinha e depois pro sol, combinado? — Sua irmã já vai levantar, vou arrumar a mesa do café. Kaya se levantou, agradeceu e foi junto. Começou a ajudar Évora a preparar um bolo de fubá, comentou que amava bolos de todos os tipos. Nilufer logo levantou, disposta e de bom humor como sempre, sentou pra comer, reparando na irmã que estava lavando a louça. Não disse nada, mas gostou de vê-la mais à vontade. Saiu às pressas e já pediu pra Kaya ir buscá-la à noite. Yesenia ficou olhando querendo intimidar. Kaya disse que iria. Na frente da irmã, sorriu, e por trás ficou encarando a mãe séria. Évora as acompanhou até o quintal, voltou dizendo que ia cuidar dos bichos, porque o funcionário não estava indo. Kaya se ofereceu pra ir junto, foi com uma muleta, ajudou como deu. Passou a manhã toda no quintal, simpatizou com um cavalo e até o escovou por bastante tempo. Yesenia demorou pra voltar. Chegou na hora do almoço com os olhos inchados vermelhos, com cara de quem havia chorado muito. Comentou que Callum não estava reagindo bem ao tratamento. Évora estava de saída, combinou de buscar Nilufer à noite, porque Yesenia estaria no trabalho. Kaya estava ouvindo a tudo calada, sentada à mesa tirando comida. Tinha pego duas conchas de feijão, quatro colheres de arroz, começou a cortar o pernil assado, quando Yesenia segurou a mão dela, enfiando as unhas pra machucar. — Você nem disfarça o quanto não se importa… de repente seu apetite abriu. Virou o braço dela, deixando o pulso para cima. — Escuta bem o que vou te falar, sua garota ordinária. Pegou a faca grande que estava na mesa, cortou o pulso de Kaya, mais de uma vez, lentamente. — Reza muito pra ele ficar bem, porque se o pior acontecer, vai pagar por isso. — Sua irmã vai preferir te ver morta, ela nunca vai te perdoar. Sem conseguir reagir, Kaya começou a chorar de dor. Perdeu a voz de um jeito que o corpo não respondia. Quando Yesenia a soltou sangrando, ela foi levantando com a vista embaçada, segurando os ferimentos. Saiu pro quintal na intenção de se afastar, caiu desorientada ainda na varanda dos fundos e apagou, perdendo a consciência. Yesenia foi quem fez aquilo, drenando a magia da filha. A levou arrastada para o quarto, limpou tudo e a trocou, colocou pijama, fez curativos nos cortes e a medicou na veia pra garantir que não acordaria tão cedo. Aproveitou também a oportunidade pra acorrentar a filha. Kaya começou a sonhar assim que apagou. Despertou na mata, com a cama ao lado e acorrentada. Estava tudo diferente dessa vez, como se estivesse presa àquilo, sem poder se soltar, fugir ou fazer qualquer coisa, seu corpo estava fraco, dolorido. O sol estava brilhando e o vento cada vez mais forte e gelado. Se sentindo acuada, com dor e medo, ela se deitou encolhida no chão. Ao ver o sol se pondo, começou a chorar desejando acordar. A única coisa que fazia sentido era achar que sua cabeça estava cada vez pior. Tudo lá fedia a mofo, enxofre e terra molhada. Tudo começou a escurecer e o frio chegou junto, lhe fazendo sentir a dor da friagem como se tudo fosse real. Com os dentes batendo e os lábios roxos, a vontade foi de se soltar. Ela pensou que talvez se ferindo fosse acordar daquele pesadelo. Começou a tentar soltar as mãos, chegou a se ferir mais ainda. Em desespero, começou a chorar e voltou a deitar, com fome, sede. Era como estar presa lá há horas, com o corpo sentindo tudo de r**m. Quando estava quase adormecendo, se sentindo muito fraca, sentiu alguma coisa grande e quente se aproximando, subindo na cama. Era o lobo marrom. Ele se aproximou cheirando, lambendo, choramingando, deitou próximo aquecendo-a. Sonolenta, ela o abraçou chorando. — Não achei que fosse voltar… não quero ficar mais aqui, não consigo acordar. — Você precisa me ajudar… tem algo errado comigo. Ele latiu uma vez, como quem dizia “sim”, e a olhou encarando. Chorando, ela se sentou exausta, com dor. — Me machuque pra eu acordar… anda. Sei que está entendendo. O empurrou hostil, quase o derrubando da cama. — Faça alguma coisa… de que serve ficar me olhando? Não vai ajudar. Ela o chutou e empurrou. Ele ameaçou rosnar, ficando hostil também, mas ao vê-la desabando aos prantos, voltou pra perto choramingando, se encostando. Kaya se deitou e não disse mais nada. Acabou adormecendo ao ter o corpo aquecido por ele, perdendo a noção do tempo, apenas sentindo um alívio por não estar mais só. Tudo o que ele queria fazer, era de fato ajudá-la, mas sem se expor, fora dali. Porque ele sabia, que no mundo real, aquilo iria o prejudicar e muito. Por mais que fosse difícil compreender, ele estava ligado a ela e não conseguia evitar.
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