Capítulo 22

925 Words
Yesenia arquitetou todo um plano. Se arranhou e até cortou a boca, como quem havia apanhado. Recebeu Évora chorando, começou a contar que Kaya surtou com ela e se trancou no quarto, disse que a encontrou com o pulso cortado tentando se matar. Pediu ajuda como se não soubesse o que mais fazer. Évora não acreditou muito. Ficou confusa, comentou que poderiam usar ervas diferentes, pedir ajuda a outras pessoas mais experientes. Deu a entender que ainda queria Kaya como um plano B, porque as notícias estavam se espalhando e até poderiam estar em perigo sozinhas, vulneráveis. Comentou que não tinha medo de Nilufer não se apaixonar e as previsões não se concretizarem, mas que tinham coisas mais importantes envolvidas e, de qualquer forma, Rick não ia preferir Kaya afetivamente, só precisavam conceber um filho e, pelo próprio bem, Nilufer entenderia. Yesenia disse que não achava aquilo possível, já que as filhas sempre tiveram uma certa rivalidade entre elas, ainda que muito unidas. Chegou a falar claramente que não achava bom Kaya ficar por perto, porque poderia causar intrigas com Rick, se oferecer e encher a cabeça da irmã com histórias. Super segura do filho que tinha, Évora disse que esse risco não corriam de forma alguma, porque Rick não fazia nada do tipo e muito menos se sujeitaria a fazer algo para depois desistir. Quando Yesenia foi trabalhar, Évora ligou para Zay desesperada, pediu para ele levar a irmã até lá, para conversarem sobre algo do interesse de ambos. Eram parentes distantes, com as famílias rompidas há mais de trinta anos. No passado, Évora escolheu se afastar e ir viver sua vida, causando um grande atrito entre famílias, gerando até perseguição para as bruxas. Além de bruxos e lobisomens que até viviam em harmonia, no passado existia todo um clã de vampiros, dos quais mandavam em todos na região. Com mais poder e dinheiro, faziam de tudo para garantir que nada mudasse. Eles podiam matar, roubar, fazer toda e qualquer coisa errada, mas se outros, diferentes, fizessem o mesmo, eram punidos, até mortos, expulsos de suas casas. Quando Évora escolheu um lobisomem ao invés de um bruxo, com quem deveria se casar para aumentar as forças de sua família, mantendo a linhagem pura, ela precisou abrir mão de muito. Não ia ter a energia dos ancestrais, nem aumento de poder, também estaria sozinha caso algo desse errado. Otelo, que era de uma linhagem muito importante, pôde protegê-la de início. Ambos morreriam um pelo outro e isso mudou ao descobrirem que seriam pais. Os vampiros não queriam um híbrido daqueles em sua região. Era algo novo e desconhecido, talvez uma ameaça a toda uma raça que seria “inferior”. Évora não era a única a quebrar regras. Recebeu ajuda de algumas outras bruxas, a mãe de Zay era uma delas e Yesenia também. Ainda que jovens, buscaram juntas uma solução: Rick não podia ser híbrido ou seria morto. Com muita dificuldade, conseguiram deixá-lo apenas uma coisa, lobo. Évora teve seu poder todo drenado para ter Rick e quase morreu com isso. Todas que a ajudaram foram punidas pelos vampiros, agredidas, ameaçadas, tiveram as casas queimadas. Foram meses de guerra, caçadas, a cidade já não era boa ou segura para mais ninguém. Revolução gera admiração. Havia quem os admirasse por lutar por algo seu e pelo amor. Em todos os clãs sempre tinha alguém quebrando regras, dormindo com o inimigo. Outros foram pegos, tiveram suas crianças híbridas roubadas e até mortas. Cansados de lutar afundando a cidade, os vampiros fizeram novas regras. Até sua linhagem pura da realeza estava sendo corrompida, desviada. Alguns, por medo, davam suas vidas pelos filhos e, pouco a pouco, quase não tinham híbridos ou alguém realmente forte para ser uma ameaça. Deixar de proibir acabou colocando mais medo ainda nos casais apaixonados. Sumayla, irmã mais velha de Zay, era a atual chefe de sua família. Perdeu a mãe ainda nova e criou os irmãos como filhos. Além de poderosa, vivenciou muitas coisas ruins no passado, que a fizeram odiar pessoas como Évora, Otelo e os vampiros também. Na verdade, ela só gostava das bruxas e apenas das leais, que não se misturavam com os outros. Zay não viu nada, era muito pequeno. Ainda assim, sempre pagou um preço alto por isso tudo. Ele não odiava a todos como sua irmã, mas preferia os humanos comuns e levava uma vida quase normal. Ao receber o convite de Évora, ele já a alertou que Sumayla não iria até lá, pois nem no portão deles ela passava. Vivia esperando uma oportunidade para se vingar. Espalhar armadilhas de lobo envenenadas nas propriedades deles. Era coisa dela. Évora queria fazer as pazes, sempre tentou se redimir com todos que pôde, mas sem muito sucesso. Das bruxas ninguém nem falava com ela. Desde as anciãs até as crianças, todos a desprezavam e inventavam mentiras. Na feira ou no mercado, era sempre prazeroso lembrar dos seus erros. Zay estava em casa. Foi para a cozinha rodear Sumayla. — Hummmm… vamos jantar o que? Pizza? Sentou ao lado da sobrinha no balcão. — Quem pediu pizza? Porque nunca fazem o que eu quero? Ela estava desenhando, começou a rir toda sapeca. — Mas você não gosta de comer nada, titio. Não seja dramático! Ele começou a fazer o desenho dela se molhar, apenas olhando. — Gosto de comer crianças malcriadas, as devoro inteiras. Ela começou a rir muito, deu o braço para ele. — Para, por favor, me morda logo, mas não estrague o meu lindo desenho.
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