Ele só voltou para casa na esperança de encontrar Yesenia. Ao ver que lá não tinha ninguém, foi até a casa dela. De longe, viu que ela estava lá e aparentemente bem, então partiu sem se despedir.
Mostrou a filha por telepatia, algumas coisas que fez enquanto viajava: festas, roubos, brigas. Por muito tempo passou a viver mais como lobo do que como homem. Ela pôde sentir o quanto aquilo era melhor para ele, sem autocobranças, vivendo um dia após o outro. Lorian gostava de ser solitário, porque havia se acostumado a isso.
Lorian escolheu exatamente o que mostrar ou não para Kaya. Enquanto ela via os flashes distorcidos, foi aprendendo mais sobre o que eles eram. E se identificou, sentia como era bom, ser um animal livre.
Ele mostrou a primeira vez que a viu recentemente, na cidade mesmo. Kaya pôde sentir exatamente o que ele sentiu: afeto, medo, insegurança, admiração, arrependimento.
Ele mesmo se surpreendeu quando ela acordou e o olhou fixamente, de um jeito diferente do comum. Seus olhos estavam brilhantes. Deitada em seu colo, ela sorriu como se ele fosse a melhor pessoa do mundo. Em êxtase, a única coisa que ele enxergou foi sua mãe ali; a semelhança era imensa.
Kaya se sentou e o abraçou, encostou a cabeça em seu ombro, esperando ouvir algo. Ele pôde sentir o quanto ela estava feliz e grata, ficou emocionado enquanto acariciava seus cabelos.
— Você é perfeita. Sinto muito por ter te perdido, filha.
Ela se afastou, reparando em cada detalhe dele com admiração, sentindo o cheiro familiar e o calor do corpo.
— Sei que não teve culpa e faria as coisas diferentes, se pudesse. — Ela disse.
— Como me encontrou?
Ele se levantou e foi saindo do quarto.
— Não sei. Acho que você me chamou. Quando voltamos para o nosso lar, tudo muda.
— Seus instintos já não podem ser controlados por sua mãe. Me sinto conectado a você, desde que mudou pra cá.
Ela foi atrás, reparando na casa.
— Sou uma loba também, né? Tenho sonhado com lobos, a anos.
Ele sorriu, saindo para o quintal.
— É muito melhor que isso. Quem diz o contrário tem inveja.
— Como está se sentindo? Acha que vai conseguir se transformar?
Confusa e eufórica, ela disse que não sabia, mas que se sentia normal. Ele foi se afastando em direção à mata.
— Não vou te deixar passar pelo que passei sozinha.
— Vou te ensinar tudo. Você é um pouco diferente, mas acho que são os feitiços da sua mãe.
— Aquela bruxa me odeia. Ela tem sido c***l, com você, eu sei.
Kaya sorriu irônica.
— A mim também. O que aconteceu entre vocês? Quando terminaram?
Ele caminhava em direção a um penhasco muito alto e respondeu vagamente:
— Eu a abandonei. Tive medo de nunca ser a pessoa que ela precisava.
— Yesenia é bem durona, nunca precisou de proteção.
— Não a culpe por me odiar. Sou digno de tudo o que conquistei, docinho.
— Acha que consegue pular? Tem medo de altura?
Kaya se aproximou, olhando para baixo.
— Não tenho medo de nada, mas… e se eu não conseguir?
— Sinto umas coisas quando fico com raiva ou com muita dor de cabeça, mas não acho que vou me transformar.
— Como vou saber? Com você, foi diferente.
Ele se aproximou, preparando-se para pular.
— Você vai sentir quando for o momento.
— Acho que você não se transforma porque não quer.
— Não de propósito, mas você se controla e desliga quando não quer que aconteça.
— É algo raro, faz todo sentido. Você é muito forte mentalmente.
— Posso sentir seus sentimentos. Precisa aprender a bloquear suas emoções para os outros.
— Essa é uma das maiores fraquezas que podemos ter.
— Esse medo é por mim? Ele aumenta a cada passo que dou.
Ela sorriu sem jeito, chegando mais perto.
— É… não quero te perder agora que acabei de te encontrar.
— Isso parece um sonho, o melhor que já tive.
— Como vou saber que é real? Eu sempre quis te conhecer.
Ele se virou de costas e sorriu irônico.
— Você não é esquizofrênica, docinho. Nada do que viveu foi delírio ou alucinação.
— Talvez bruxaria, mas isso não é defeito seu.
— Se não pular, vai precisar me encontrar na mata. Não tenha medo, está segura comigo.
Sorriu segundos antes de se jogar de costas.
— Eu sinto o seu cheiro de muito longe. Pode me encontrar logo ali.
— Siga seus instintos.
Pulou rindo, como o maluco que era. Ela ficou olhando, rindo apreensiva. Viu-o sumir e teve medo de não conseguir, de decepcioná-lo. Esperou alguns minutos e saiu andando pela mata no escuro.
Atenta aos barulhos, tentou sentir o cheiro dele, farejar. Desceu até perto do rio, em dúvida se estava sentindo de verdade ou não. Tentou se concentrar, relembrando as memórias dele. A vontade era ir cada vez mais longe. Confusa, desistiu quase uma hora depois e voltou para a casa dele.
Encontrou-o sem saber nem como. Ele saiu rindo ao vê-la se aproximar.
— Sabia que iria conseguir.
— Vamos, vou te levar embora. As bruxas vão começar a te procurar assim que amanhecer.
Ela se aproximou frustrada.
— Não te achei, eu só voltei para cá.
— Nada em mim funciona muito bem.
— Não quero voltar, lá não tem nada pra mim.
Ficou emotiva.
— Por favor, me deixa ficar. Minha mãe não me quer lá.
— Você nem vai perceber que eu tô aqui.
— Não precisa se preocupar com nada.
Ele se aproximou e a olhou exultante.
— Docinho, você precisa voltar.
— Vou garantir que ninguém te machuque novamente.
— Toda vez que quiser, vai saber como me encontrar.
— Estamos ligados, sempre estivemos.
— Aqui não é lugar pra você. Vamos, ou vai chegar pro almoço… a não ser que aguente correr?
Empurrou-a sutilmente em tom de brincadeira.
— Se quiser, te dou uns minutos pra se alongar. Quer meia hora de vantagem?
— Posso te sentir. Não fique triste, ou vou achar que tenho sido uma má influência.
Ela sorriu, engolindo o choro.
— Tudo bem, desculpa.
— Não vai me deixar perdida no mato, né?
Ele disse que talvez, foi se afastando. Correu de um jeito que ela conseguisse acompanhar, mostrou trilhas e pontos de referência, contou histórias da infância. Derrubou-a de propósito quando estavam chegando à fazenda. Exausta, ela se deitou no mato rindo.
— Quando vamos nos ver de novo?
— Logo. — Ele disse, sendo afetuoso.
Pediu para ela ir até a beira da estrada esperar a mãe. Kaya se levantou curiosa.
— Estava observando a gente?
— Sabe quando ela vem e vai?
Ele se afastou irônico.
— Tenho relógio, celular. Saí das cavernas há alguns anos.
— Ande logo, pode ir. Tenho observado tudo.
Ela o olhou com os olhos marejados, pensando que talvez nunca soubesse quando seria a última vez.
— Tchau. Obrigada por me encontrar.
Ele se afastou e acenou, sorrindo, sentindo-a insegura e triste.
— Ninguém nunca mais vai te ferir. No momento certo, vamos ficar juntos.
Ela foi até a beira da estrada, a caminho da fazenda, pensando no que diria à mãe. Yesenia vinha do trabalho sem saber de nada do que havia acontecido durante a noite. Ao ver Kaya andando, reduziu a velocidade, cheia de raiva, e parou ao lado gritando:
— Aonde você foi?
— Quantas vezes te pedi pra não sair?
Antes mesmo de Kaya responder ou entrar no carro, Lorian surgiu por trás dela, transformado em lobo. Yesenia o viu saindo da mata, ficou pálida como um fantasma, paralisou e perdeu a fala. Ele se aproximou de Kaya, esfregando a cabeça na mão dela, como quem pedia carinho. Ela o acariciou, surpresa por vê-lo se expor diante da mãe.
Yesenia não teve reação alguma, parecia não acreditar no que via. Lorian se afastou de Kaya, passou na frente do carro, encarando Yesenia de forma hostil, rosnando como uma ameaça, e seguiu para a mata.
Kaya entrou no carro, desconcertada e emotiva.
— Eu já sei de tudo.
— Por que me escondeu tantas coisas?
— Ele me mostrou a verdade, o que somos.
— Por isso me tratou desse jeito a vida toda?
— Não gosta do que eu sou, não é?
Yesenia não a olhou. Chorando, dirigiu até a fazenda sem dizer uma única palavra. Estava transtornada, nervosa. Kaya insistiu, confusa.
— Chega de mentiras. Seja sincera comigo, mãe.
— O que você fez pra eu não me transformar?
— Ao menos uma vez na vida, seja sincera.
— Por que tudo isso?
— Minha irmã é uma bruxa também, não é?
— Por isso você a trata tão diferente?
— Ela é como você… toda parecida.