Yesenia estacionou e desceu do carro ignorando-a. Évora, nervosa, aguardava na varanda e ficou olhando confusa.
— Oi… o que aconteceu? Yesenia? Kaya?
Foram entrando. Kaya insistiu atrás da mãe.
— Por favor, fala comigo. Você precisa me contar.
Yesenia entrou no quarto.
— Évora, ela já sabe. Encontrou aquele lixo de genitor. Ele já encheu a cabeça dela.
— Daqui pra frente, todo cuidado é pouco, já que confiança é algo bem difícil de se ter.
— Não quero saber de nada. Depois de tudo o que aconteceu, você acha mesmo que ele vai chegar e te amar?
— Ser o pai do ano?
Começou a gritar.
— ELE NUNCA TE QUIS, KAYA!
— NUNCA SE IMPORTOU COM NINGUÉM ALÉM DE SI!
— VAI PREFERIR A ELE, É CLARO!
Évora ficou assustada. Kaya foi ficando emotiva.
— Então… não vai ser nada diferente do que tem sido com você há muito tempo.
Saiu chorando e foi para o quarto. Yesenia ficou histérica.
— Ele vai encher a cabeça dela de mentiras.
— Não dou uma semana pra ela sumir no mundo com ele.
— Sabia que isso ia acontecer, eu estava sentindo.
— Ele vai acabar com tudo o que construí.
— Essa cidade vai me destruir.
Ajoelhou-se aos pés de Évora.
— Você precisa me prometer, Évora, que vai cuidar da minha filha como se fosse sua.
— Nilufer vai precisar de ajuda, eu preciso de uma garantia.
— Eles não podem estragar tudo.
Dava para ver no olhar o desespero e o medo. Évora garantiu que ajudaria as duas e perguntou o que realmente havia acontecido no passado entre Lorian e ela. Yesenia foi para o banheiro, disse que precisava sair, tomou banho e saiu às pressas. Aconselhou Évora a deixar Kaya de canto e tomar cuidado, porque ela poderia ficar perigosa.
Perdida, Évora não sabia o que fazer. No fundo, começava a ter medo de Kaya. Espiou o corredor, esperou algumas horas passarem e foi bater na porta do quarto.
— Kaya? Querida, vamos almoçar!
— Sua mãe saiu, estamos só nós duas.
— Posso entrar?
Kaya havia tomado banho há horas. Estava sentada no tapete, encostada na cama, enrolada na toalha, pensando. Preferiu não responder. Passou o dia todo no quarto, isolada.
Nilufer já havia enviado mais de cinco mensagens, começava a se preocupar com a certeza de que estavam escondendo algo. Ligou três vezes no final do dia. Kaya atendeu normalmente, disse que estava ocupada cuidando dos animais e mexendo na estufa. Nilufer começou a chorar, sentida.
— O que está acontecendo?
— Por que ninguém me responde direito?
— Não tô conseguindo focar em nada aqui.
— Já vi meu pai hoje… se não é nada com ele, é com você.
— Você e a mãe brigaram de novo?
Kaya não soube o que responder. Disse que estava tudo normal e que ela veria quando chegasse com os próprios olhos. Ainda sentindo que era mentira, Nilufer se despediu, chateada.
Já era noite. Évora estava preocupada, vigiando a porta da varanda e do corredor. Bateu novamente, oferecendo chá. Kaya não respondeu, apenas abriu a porta, séria.
— Minha mãe já voltou?
Évora estava com as mãos trêmulas e geladas, segurando a xícara.
— Ainda não. O celular só dá caixa postal.
— Fiz o seu chá, você não pode ficar sem comer.
— Quer conversar e contar o que aconteceu?
Kaya pegou a xícara e saiu do quarto, pensativa.
— Obrigada.
— Tenta ligar de novo, por favor?
— Você sabia de tudo, né?
— É uma bruxa mesmo… igual a ela?
Évora foi pegar o celular na sala.
— Tudo, não. Sou… um dia fui.
— Olha, é muito mais complicado do que você imagina.
— Eu era como as outras, uma bruxa mediana. Então, saindo do comum, me apaixonei por um lobo.
— Nós éramos os rebeldes da época, mocinha.
— Isso era proibido. Deixei um noivo bruxo poderoso pra ficar com o saco de pulgas do meu marido.
— Ele é um lobo.
Respirou fundo.
— Não sei se você já amou alguém a ponto de nada mais existir ou importar.
— Briguei com o mundo por isso. Fui excluída, perseguida. As bruxas me odeiam até hoje.
— Quase morri pra ter meu filho e fui drenada por ele.
— Tê-lo me fez perder quase toda a magia, mas não me arrependo.
Olhou para Kaya com cuidado.
— Sua mãe também escolheu negligenciar tudo pra proteger vocês.
— Criou vocês longe disso tudo. Alguns nem podem ir e vir. Nossa vida é aqui.
— Quando os ânimos se acalmarem, ela vai te contar.
— Vocês já deviam saber… na idade de vocês, todos sabem.
— Sei que está confusa, e é normal. Sua vida vai começar a passar diante dos seus olhos como um filme.
Fez uma pausa curta.
— Sinto muito em te dizer… mas ninguém brilha no sol.
Kaya estava tomando o chá, olhando fixamente para o chão. Levantou o olhar até Évora.
— Acha que a Nilufer não sabe de nada mesmo? Elas são iguais!
Évora olhou o celular e se levantou.
— Não são. E ela não sabe. Sua mãe chegou.
— Vocês precisam conversar. Acho que contar para a Nilufer não é uma boa opção agora.
— Ela não é forte como você para lidar com problemas.
Foram saindo para a varanda. Yesenia entrou com o mesmo semblante fechado, triste e preocupado.
— Boa noite, Évora. Podemos conversar? A sós?
Passou por Kaya como se ela não existisse. Évora ficou sem jeito e foi entrando para o escritório. A sós, Yesenia falou que não podiam continuar ali, mas que os planos não mudariam sobre o futuro dos filhos, e que aquela seria a última semana delas na fazenda, porque a casa já estava sendo reformada.
Évora não queria que fossem. Estava com medo de deixar Kaya sozinha e sugeriu que esperassem Callum sair do hospital. Yesenia respondeu com o olhar cético.
— Continuar aqui será um risco para você mesma. Agora não tenho dúvidas de que foi ela quem o atacou.
— Aquele Lorian vai fazer de tudo para me prejudicar. Devia estar brincando com a cabeça dela desde que chegamos.
— Ela tem mudado muito. Tudo faz sentido.
— Não vou deixar que, novamente, ele estrague a minha vida.
— Vou buscar a Nilufer e tentar conversar. Ela precisa saber do que a irmã é capaz.
— A qualquer momento, ela vai partir sem olhar para trás e desestabilizar a Nilufer.
— Precisamos estar prontos.
Évora apenas concordou. Havia mandado mensagem mais cedo, pedindo para Rick voltar antes, no fim de semana, de surpresa, para ajudar Nilufer com o furacão que estava por vir.
Contou para Yesenia que ele estava preparando uma surpresa, queria levar Nilufer para viajar, se isolar, talvez contar sobre o que eram, porque a sós tudo seria diferente, de uma maneira melhor. Yesenia concordou e já bolou um plano para que Nilufer não visse Kaya antes disso.
Arrumou a mala com tudo o que ela precisaria. Quando estava colocando no carro, Kaya viu. Estava sentada na rede da varanda e a chamou, perguntando se podia ir junto buscar a irmã. Foi completamente ignorada.
Yesenia voltou para dentro para conversar com Évora. Kaya aproveitou a oportunidade e saiu escondida. Só queria ver a irmã e falar do Lorian, nem pensou em revelar nada.
Sem o efeito dos feitiços da mãe e se sentindo melhor, mais forte e confiante, colocou os fones no último volume e foi correndo para a cidade, beirando a estrada, mais escondida na mata. Sentia o ar mais gostoso, passando pelos seus pulmões, sua perna já não estava mais doendo, seu corpo todo sentia o impacto dos passos, na terra úmida, entender o que o pai passou, fez ela se olhar com mais gentileza.
Quando chegou à cidade, foi até o posto de combustível. Entrou na loja de conveniência para comprar cigarros. Monaylle, a atendente muito simpática, tentou puxar assunto e sorriu ao reconhecê-la.
— Oiii, você não apareceu mais aqui.
Kaya tirou os fones, séria e impaciente.
— Quanto tá o maço mais em conta?
Achando-a super estranha, a moça respondeu e mostrou duas opções. Kaya colocou dinheiro trocado e moedas no balcão.
— Quero o vermelho.
Ficou séria enquanto Monaylle contava. Ela sorriu sem jeito, intrigada.
— Tá certo. Quer mais alguma coisa?
Kaya olhou os isqueiros pendurados.
— Tem caixa de fósforos? Quanto tá?
Percebendo que ela não tinha dinheiro, Monaylle pegou uma caixinha e colocou no balcão.
— Pode ficar, não é nada. Sou a Monaylle. E você?
Foi praticamente ignorada. Kaya colocou os fones, sorriu sutilmente.
— Kaya, obrigada.
— Valeu, preciso ir.
Saiu às pressas. Sentou um pouco longe para fumar escondida. Estava esperando Nilufer quando viu Rick chegando e Yesenia também.
Nilufer saiu surpresa. Ele se aproximou com um balão de coração nas mãos e uma caixa de chocolates, a beijou e a abraçou, levantando-a do chão. Ela se agarrou a ele, emotiva.
Yesenia estava ao lado mexendo no celular. Mandou uma mensagem para Kaya, sem saber que ela estava tão perto:
“Sua irmã vai te ligar e quer saber se está tudo bem. Sabe o que fazer. Chega de atrapalhar a vida dela!”
Rick falava sobre ter uma surpresa. Pegou a mala no outro carro e colocou no seu, dizendo que não ia devolver nada caso o convite fosse recusado.
Nilufer começou a rir, confusa.
— Não tô entendendo nada. Por isso estavam me ignorando?
— Minha irmã arrumou minhas coisas?
Yesenia disse que todos estavam ajudando Rick. Ele mostrou uma foto no celular.
— Não vai ser tão r**m, confie em mim. Difícil foi convencer sua mãe. — Ele disse.
— Prometo te trazer de volta assim que quiser.
Nilufer estava ansiosa e sorridente. Abraçou a mãe.
— Tudo bem mesmo se eu for?
— Quero falar com a minha irmã antes. Não gosto de sair assim, sem me despedir direito.
— Como ela passou o dia?
Yesenia disse que não a viu direito, porque ficou mexendo na estufa, e ligou para Kaya. Ela já estava se afastando de lá, extremamente chateada, mas atendeu.
— O que foi? Não tem ninguém mais legal para incomodar?
Nilufer estava tão eufórica que nem percebeu.
— Ai, que fofa. Tá tudo bem mesmo? — Nilufer perguntou.
— Arrumou minhas coisas, né? Pra surpresa?
— Vai ficar bem sem mim?
Engolindo o choro, Kaya respondeu de forma irônica que até gostaria, pediu fotos de tudo, desejou bom passeio e foi breve, querendo desligar.
Nilufer ficou mais tranquila. Sorridente, despediu-se da mãe e entrou no carro super animada. Iriam primeiro à casa dela, ali perto, para se trocar.
Yesenia voltou para a fazenda. Kaya não quis voltar. Foi para os fundos da casa e ficou em cima do barranco observando os vizinhos. Viu a irmã chegando. Rick entrou com ela contando os planos, falando da viagem, quando sentiu o cheiro de Kaya, até se perdeu na conversa, ficando apreensivo.
Nilufer entrou para tomar banho. Ele ficou esperando no quarto dela, pensando em como seria reencontrar a cunhada depois de ter pedido para Zay apagar as memórias dos dois juntos.
Curioso, entrou no quarto de Kaya, olhou os desenhos dela, cheirou uma blusa e viu tudo o que fizeram quando se viram pela primeira vez, passando pela memória.
Ele já distinguia a diferença do cheiro delas e adorava o de Kaya, só não mais que o de Nilufer. Eram muito parecidos e ambos super atrativos para ele.
As emoções de Kaya estavam cada vez mais fortes, irritadas, ao vê-lo mexer em suas coisas, que ele pôde percebê-la de longe. Foi até a janela e não teve dúvidas de que ela estava por ali.
Nilufer saiu do banheiro enrolada na toalha e parou na porta do quarto.
— Odeio o cheiro que ficou aqui. O que está olhando? Curioso!
— Minha irmã odeia, que mexam nas coisas dela.
Ele se aproximou, abraçando-a, cheirou o pescoço e a encheu de beijinhos.
— Adoro o seu cheiro. É como uma droga viciante.
— Achei que não ia me querer no seu quarto. Por isso, vim mexer no dela.
Ela o abraçou forte, com o coração acelerado.
— Te quero mais do que deveria.
Ele sorriu, erguendo-a do chão.
— Acredite, é muito recíproco.
Beijou-a lentamente. Ela subiu em seu colo, de frente, com as pernas abertas, beijando-o cada vez mais, deixando-se levar pelo desejo. Ele foi para o quarto dela, sentou na cama e a manteve no colo. Nilufer riu, abrindo a toalha.
— Hummm, pervertido. Não disse nada sobre invadir meu quarto.
Ele se deitou e começou a acariciar os s.eios dela, olhando-a fixamente, vidrado.
— Quero invadir muito mais que isso. Seu corpo e a sua vida.
Do lado de fora, Kaya observava pela janela, cada vez mais incomodada. Sentia uma vontade crescente de impedir aquilo. Não parecia certo nem normal. Nunca tinha visto Nilufer agir daquela forma, tão livre.