Tudo pareceu muito real, incluindo a dor da queda. Ela bateu a cabeça em uma pedra e ficou desacordada por alguns instantes. Despertou confusa, com a vista embaçada, sentindo um peso quente e peludo sobre si, nas pernas e na barriga. Ao perceber o calor e a pelagem, preferiu não se mexer. O lobo estava deitado em cima dela. Lambeu-a sutilmente no braço, depois se levantou, esfregando a cabeça como quem dava e pedia carinho. Ficou nítido que não era um ataque.
Ainda com medo, vendo-o em pé sobre si, ela permaneceu imóvel, olhando-o fixamente, com o coração disparado e a respiração ofegante. Ele se deitou ao lado, lambendo a cabeça dela onde havia machucado, enfiou o focinho embaixo do pescoço, empurrando-a sutilmente para levantar.
Ainda confusa, mas consciente de que era apenas um sonho, ela foi se levantando, apreensiva.
— Já entendi, você não vai me morder.
Começou a tirar a sujeira da roupa, em pé ao lado dele.
— Até nos sonhos eu me machuco.
— Será que já sonhei com você? Eu acho que não.
Ele se sentou à sua frente, atento, como quem entendia. Ela tentou subir o barranco.
— Fazem anos… não. Era diferente! Mais escuro e com olhos diferentes.
— Por que eu não posso sonhar com coisas comuns?
— Festas, viagens, comidas, um rodízio de churrasco ou um banquete de bolos.
Ela escorregou e não conseguiu subir.
— Apesar que, se respondesse, aí sim seria bem estranho.
Ele se levantou e foi se afastando, olhando em sua direção. Latiu como quem a chamava, foi e voltou duas vezes, mostrando por onde ir. Ela o seguiu.
— Um cão-guia, ótimo.
— Tenho pena de você, ter que me ouvir e não falar nada.
— Não é muito de conversar?
— Bom, de modo geral, também não sou.
Ele se virou para trás, latiu abanando o r**o. Ela se aproximou, observando-o melhor à claridade da lua.
— Ok, gosta de conversar.
— Você é menino ou menina?
Ele latiu uma vez. Ela continuou andando, escolhendo o caminho sozinha, sentindo a terra úmida, lhe dando conforto, calmaria.
— Quem vê entende, né?
— Então tá, um latido é sim e dois são não.
— Você é uma menina?
Ele latiu duas vezes e foi andando ao lado dela, se encostando. Ela sorriu, acariciando-o sem jeito, passando a mão pelas costas peludas.
— É um menino? Tinha que ser!
— Eu sempre quis ter um cachorro, mas minha mãe nunca deixou.
Ele latiu duas vezes, se afastou rápido em direção a um rio e uivou. Depois se deitou, olhando para ela. Ela se sentou, não muito perto.
— Ataaa, é um lobo e não um cachorro, claro.
— Tão diferente! Só que não.
— Já sonhei várias vezes com lobos, mas não do tipo que me olhavam como se entendessem. Eram mais selvagens, frios.
— Sempre corri deles, na verdade. Você é o primeiro que não me faz acordar em cinco minutos.
— Sabe que geralmente sonhamos muito e só lembramos de uma fração deles no dia seguinte?
— Eu quase nunca lembro… porque tenho uns problemas.
Ela se deitou rindo, olhando para o céu, estrelado.
— Olha o meu nível de demência.
— Primeiro sonhando com um lobo, falando com ele e agora… envergonhada, pra ser sincera.
— Estou acostumada a ser julgada, então é um escudo. Sei que você, faz parte do meu subconsciente.
Ele se levantou e se deitou ao lado, encostado nela, colocando a cabeça sobre sua barriga. Ela silenciou, acariciando-o. Não se sentiu sozinha e só queria que aquele sonho não acabasse de forma r**m.
Quando parou com o carinho, perguntou se ele não tinha mais ninguém, uma matilha. Ele latiu duas vezes e esfregou a cabeça, “pedindo” mais carinho. Ela sorriu, pensativa.
— Um lobo sigma, como eu. Um rejeitado.
— Pra quem fala sozinha mentalmente e ouve vozes, falar com um lobo é fichinha.
— Gosto muito da lua e acho que essas fantasias estão relacionadas aos meus traumas.
— Quando eu era criança, podia jurar que vi um lobo, diferente de você. Preto.
— Já eram sinais dos meus problemas… vejo e ouço coisas que não existem.
— Ninguém acredita em nada do que digo há muito tempo.
— Me acostumei a não falar mais nada. Ninguém liga.
— Queria te dar um nome, pra deixar a minha criança interior feliz.
Ele latiu duas vezes, significando “não”. Ela parou com o carinho.
— Não quer um nome fofo?
— Porque eu sou toda fofa, embora não pareça.
Foi se levantando devagar, com cuidado.
— Com certeza daria aos meus pets nomes de doces ou carros.
— Bombocado, Trufa, Corcel, Opala. Mustang.
Saiu andando à beira do rio.
— É muito r**m viver em uma rotação diferente da grande maioria das pessoas.
— É como não existir. Como se não houvesse lugar pra mim.
— No mundo.
— Por que você não fede a cachorro molhado?
— Esse negócio de ser maluca é muito detalhista.
— Não vou negar que gosto de algumas coisas em ser assim.
Ele andava atrás e latiu uma vez. Ela continuou falando.
— Quer saber do que eu gosto em mim?
Ele latiu uma vez. Ela se virou, andando de costas, olhando para ele.
— Ahhh, eu sou observadora e destemida.
— As pessoas têm medinho de tudo, eu não tenho.
— Gosto de fazer qualquer coisa que me coloque na zona de desconforto, por isso amo esportes. Gosto de estar a beira, do precipício.
— Nunca sei se vou ganhar, só que ganho quase sempre.
— Pelo menos antigamente, né?
— Hoje estou proibida de praticar qualquer coisa.
— É que, sem querer, tipo acidentalmente, posso ter machucado algumas pessoas.
— Futebol, lutas, tudo o que envolve bolas minha mãe abomina.
— Devo ser um pouco forte e competitiva.
— De qualquer forma, eu não gosto de ferir ninguém, é claro. Era sem querer, pode acreditar.
— Por isso optei apenas por correr.
— É solitário e seguro.
— Não tenho chances com você, é claro.
Ele latiu várias vezes, rodeando-a como quem queria brincar e correr. Ela sorriu, pensativa.
— Ah claro, o não eu já tenho.
— Agora vou atrás da humilhação.
— Nem se eu fosse uma lobinha encardida poderia te vencer.
— Olha o seu tamanho. Você é tão lindo!
Ele se aproximou, encarando-a fixamente. Ela sorriu e o acariciou.
— Se um dia eu voltar a sonhar com você, te deixo me humilhar em uma corrida desumana e injusta.
— Obrigada por me ouvir e conversar comigo.
— Eu nem queria acordar.
— Não tem nada pra mim estando acordada.
— Tá aí uma coisa que eu gosto de fazer: dormir!
— Precisamos achar um meio para outras respostas.
— Tipo um “não sei” ou um “não concordo”.
— Porque como você vai ser sincero e me aconselhar só com sim e não?