Capítulo 20

1164 Words
Tudo pareceu muito real, incluindo a dor da queda. Ela bateu a cabeça em uma pedra e ficou desacordada por alguns instantes. Despertou confusa, com a vista embaçada, sentindo um peso quente e peludo sobre si, nas pernas e na barriga. Ao perceber o calor e a pelagem, preferiu não se mexer. O lobo estava deitado em cima dela. Lambeu-a sutilmente no braço, depois se levantou, esfregando a cabeça como quem dava e pedia carinho. Ficou nítido que não era um ataque. Ainda com medo, vendo-o em pé sobre si, ela permaneceu imóvel, olhando-o fixamente, com o coração disparado e a respiração ofegante. Ele se deitou ao lado, lambendo a cabeça dela onde havia machucado, enfiou o focinho embaixo do pescoço, empurrando-a sutilmente para levantar. Ainda confusa, mas consciente de que era apenas um sonho, ela foi se levantando, apreensiva. — Já entendi, você não vai me morder. Começou a tirar a sujeira da roupa, em pé ao lado dele. — Até nos sonhos eu me machuco. — Será que já sonhei com você? Eu acho que não. Ele se sentou à sua frente, atento, como quem entendia. Ela tentou subir o barranco. — Fazem anos… não. Era diferente! Mais escuro e com olhos diferentes. — Por que eu não posso sonhar com coisas comuns? — Festas, viagens, comidas, um rodízio de churrasco ou um banquete de bolos. Ela escorregou e não conseguiu subir. — Apesar que, se respondesse, aí sim seria bem estranho. Ele se levantou e foi se afastando, olhando em sua direção. Latiu como quem a chamava, foi e voltou duas vezes, mostrando por onde ir. Ela o seguiu. — Um cão-guia, ótimo. — Tenho pena de você, ter que me ouvir e não falar nada. — Não é muito de conversar? — Bom, de modo geral, também não sou. Ele se virou para trás, latiu abanando o r**o. Ela se aproximou, observando-o melhor à claridade da lua. — Ok, gosta de conversar. — Você é menino ou menina? Ele latiu uma vez. Ela continuou andando, escolhendo o caminho sozinha, sentindo a terra úmida, lhe dando conforto, calmaria. — Quem vê entende, né? — Então tá, um latido é sim e dois são não. — Você é uma menina? Ele latiu duas vezes e foi andando ao lado dela, se encostando. Ela sorriu, acariciando-o sem jeito, passando a mão pelas costas peludas. — É um menino? Tinha que ser! — Eu sempre quis ter um cachorro, mas minha mãe nunca deixou. Ele latiu duas vezes, se afastou rápido em direção a um rio e uivou. Depois se deitou, olhando para ela. Ela se sentou, não muito perto. — Ataaa, é um lobo e não um cachorro, claro. — Tão diferente! Só que não. — Já sonhei várias vezes com lobos, mas não do tipo que me olhavam como se entendessem. Eram mais selvagens, frios. — Sempre corri deles, na verdade. Você é o primeiro que não me faz acordar em cinco minutos. — Sabe que geralmente sonhamos muito e só lembramos de uma fração deles no dia seguinte? — Eu quase nunca lembro… porque tenho uns problemas. Ela se deitou rindo, olhando para o céu, estrelado. — Olha o meu nível de demência. — Primeiro sonhando com um lobo, falando com ele e agora… envergonhada, pra ser sincera. — Estou acostumada a ser julgada, então é um escudo. Sei que você, faz parte do meu subconsciente. Ele se levantou e se deitou ao lado, encostado nela, colocando a cabeça sobre sua barriga. Ela silenciou, acariciando-o. Não se sentiu sozinha e só queria que aquele sonho não acabasse de forma r**m. Quando parou com o carinho, perguntou se ele não tinha mais ninguém, uma matilha. Ele latiu duas vezes e esfregou a cabeça, “pedindo” mais carinho. Ela sorriu, pensativa. — Um lobo sigma, como eu. Um rejeitado. — Pra quem fala sozinha mentalmente e ouve vozes, falar com um lobo é fichinha. — Gosto muito da lua e acho que essas fantasias estão relacionadas aos meus traumas. — Quando eu era criança, podia jurar que vi um lobo, diferente de você. Preto. — Já eram sinais dos meus problemas… vejo e ouço coisas que não existem. — Ninguém acredita em nada do que digo há muito tempo. — Me acostumei a não falar mais nada. Ninguém liga. — Queria te dar um nome, pra deixar a minha criança interior feliz. Ele latiu duas vezes, significando “não”. Ela parou com o carinho. — Não quer um nome fofo? — Porque eu sou toda fofa, embora não pareça. Foi se levantando devagar, com cuidado. — Com certeza daria aos meus pets nomes de doces ou carros. — Bombocado, Trufa, Corcel, Opala. Mustang. Saiu andando à beira do rio. — É muito r**m viver em uma rotação diferente da grande maioria das pessoas. — É como não existir. Como se não houvesse lugar pra mim. — No mundo. — Por que você não fede a cachorro molhado? — Esse negócio de ser maluca é muito detalhista. — Não vou negar que gosto de algumas coisas em ser assim. Ele andava atrás e latiu uma vez. Ela continuou falando. — Quer saber do que eu gosto em mim? Ele latiu uma vez. Ela se virou, andando de costas, olhando para ele. — Ahhh, eu sou observadora e destemida. — As pessoas têm medinho de tudo, eu não tenho. — Gosto de fazer qualquer coisa que me coloque na zona de desconforto, por isso amo esportes. Gosto de estar a beira, do precipício. — Nunca sei se vou ganhar, só que ganho quase sempre. — Pelo menos antigamente, né? — Hoje estou proibida de praticar qualquer coisa. — É que, sem querer, tipo acidentalmente, posso ter machucado algumas pessoas. — Futebol, lutas, tudo o que envolve bolas minha mãe abomina. — Devo ser um pouco forte e competitiva. — De qualquer forma, eu não gosto de ferir ninguém, é claro. Era sem querer, pode acreditar. — Por isso optei apenas por correr. — É solitário e seguro. — Não tenho chances com você, é claro. Ele latiu várias vezes, rodeando-a como quem queria brincar e correr. Ela sorriu, pensativa. — Ah claro, o não eu já tenho. — Agora vou atrás da humilhação. — Nem se eu fosse uma lobinha encardida poderia te vencer. — Olha o seu tamanho. Você é tão lindo! Ele se aproximou, encarando-a fixamente. Ela sorriu e o acariciou. — Se um dia eu voltar a sonhar com você, te deixo me humilhar em uma corrida desumana e injusta. — Obrigada por me ouvir e conversar comigo. — Eu nem queria acordar. — Não tem nada pra mim estando acordada. — Tá aí uma coisa que eu gosto de fazer: dormir! — Precisamos achar um meio para outras respostas. — Tipo um “não sei” ou um “não concordo”. — Porque como você vai ser sincero e me aconselhar só com sim e não?
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