No silêncio luxuoso do escritório, o cheiro de tabaco se misturava ao do uísque, enquanto a família Vittore debatia sobre seus planos futuros.
Samael Vittore estava parado diante de uma janela ampla, com as mãos cruzadas atrás das costas. Ele observava a cidade ao longe, contemplando seu futuro reino. Sua postura era rígida, seus ombros largos projetavam uma sombra imponente sobre o carpete persa. O silêncio não o incomodava. Na verdade, era uma companhia bem-vinda. Naquele momento, o falatório de sua família o deixava estressado.
A porta do escritório foi aberta com um pequeno rangido. Samael não se virou imediatamente. Ele sabia quem havia chegado. A pessoa de maior autoridade entre sua família, Lorenzo Vittore, o patriarca da família, adentrou o espaço. Atrás dele vinham os outros dois herdeiros, Araciel e Ariela, irmãos de Samael. O contraste entre eles era marcante, Samael irradiava controle, Araciel exalava uma energia inquieta, quase explosiva. Ariela, por outro lado, era a personificação da sutileza perigosa, seus olhos brilhavam com inteligência e astúcia.
— Peço que todos nos dêem licença, esta é uma reunião particular. — Samael pediu e todos os presentes saíram, deixando apenas silêncio.
— Então, está decidido? — A voz de Lorenzo cortou o silêncio, grave e sem espaço para discussão.
Samael se virou lentamente, encarando o pai com seus olhos sombrios. Não havia emoção aparente em sua expressão, apenas uma calma inquietante que fez Lorenzo hesitar por um breve instante, às vezes até ele sentia medo de seu filho.
— A aliança com os Delucci será firmada pelo seu casamento com Amara Delucci. — Lorenzo caminhou até sua mesa, pegando um copo de uísque já servido. — É o único caminho para consolidarmos o controle sobre o território deles sem derramamento de sangue.
— Sem derramamento de sangue? — Araciel riu, um som seco e sarcástico. — Isso não parece com você, pai.
— Há momentos para a violência, Araciel, e momentos para estratégia — respondeu Lorenzo, cortando o comentário com um olhar severo. — E este é um momento para estratégia.
Araciel bufou, cruzando os braços e se jogando em uma das poltronas próximas. Ariela, que permanecia de pé ao lado da porta, observava tudo com um pequeno sorriso nos lábios, como se cada palavra fosse uma peça em um jogo que ela compreendia melhor do que ninguém.
— E o que nos diz o noivo? — Ariela perguntou, finalmente, quebrando o silêncio que mantinha. Seus olhos se voltaram para Samael, avaliando-o. — Está disposto a carregar essa aliança nas costas?
Samael deu um passo à frente, sua presença logo dominou a sala. Ele não respondeu imediatamente, deixando a expectativa crescer. Finalmente, ele falou, com sua costumeira voz baixa.
— Eu faço o que for necessário para a família. — Seus olhos se fixaram em Lorenzo, aborrecidos, mas respeitosos. — Mas não se engane. Amara Delucci não será uma peça no seu jogo. Ela é um risco.
— Risco? — Lorenzo arqueou uma sobrancelha. — Explique.
— Ela não é como as outras. Não é uma mulher moldada para obedecer sem questionar, soube até que saiu da sala de jantar sem permissão quando o noivado foi anunciado para sua família. — Samael caminhou lentamente pela sala, como um predador avaliando seu território. — Eu a observei antes de aceitar essa decisão. Ela tem uma vontade própria. Isso pode ser um trunfo ou... uma ameaça. Dependendo do lado que a garota escolher defender.
— E você tem medo de não controlá-la? — Araciel provocou, como um desafio.
Samael parou e lançou um olhar gelado para o irmão mais novo. O ar na sala pareceu ficar mais pesado, e até mesmo Araciel, conhecido por seu temperamento divertido, desviou os olhos, incapaz de sustentar o olhar de seu irmão mais velho.
— Eu não tenho medo de ninguém, Araciel — disse Samael, com sua voz baixa, cortante como uma lâmina. — Mas subestimar alguém é o caminho mais rápido para a derrota. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso.
Ariela sorriu, claramente se divertindo. Lorenzo permaneceu em silêncio, ponderando as palavras de Samael. Finalmente, ele concordou.
— Você está certo. Amara Delucci pode ser difícil de controlar, e é exatamente por isso que ela é perfeita para você. — Lorenzo deu um gole em seu uísque, seus olhos fixos em Samael. — Você precisa de alguém que o desafie e que o mantenha alerta. Ela será um equilíbrio para a sua força, assim como você será o limite para a impulsividade dela.
— Só recomendo que durma de olho aberto irmãozinho. — Araciel provocou.
Samael não respondeu, mas seu silêncio era tão falante quanto suas palavras. Isso não tornava a situação menos complicada. Amara era um enigma, e ele não gostava de enigmas que não pudesse resolver rápido.
— Então, o que vem a seguir? — Ariela perguntou, quebrando o silêncio novamente. — Vamos convidar os Delucci para um jantar, mostrar a eles que somos uma "família unida e confiável"? Ou vamos direto ao ponto de começar os preparativos para o casamento?
— Um jantar — Lorenzo respondeu, colocando o copo na mesa com um gesto decidido. — Quero que eles vejam que estamos comprometidos com essa aliança. Samael, você será o anfitrião principal. Preciso que você mostre para todos que podem confiar em você para negociar, não só para atirar na testa de alguém.
Samael concordou. Ele sabia que esse casamento era só uma aliança política.
Quando Lorenzo se retirou do escritório, Araciel e Ariela se aproximaram observando Samael com cuidado. Ariela foi a primeira a falar.
— Cuidado com ela, irmão. As mulheres podem ser tão mortais quanto qualquer inimigo, se não mais. — Seu tom era debochado e havia um aviso implícito em suas palavras. Mas Samael não precisava desse aviso, convivia com as duas mulheres mais perigosas da Itália todos os dias, sua mãe, Fiorella e a própria Ariela.
Araciel, ainda sentado na poltrona, apenas riu.
— Se alguém pode lidar com Amara Delucci, é o nosso querido Anjo Caído. Não é mesmo, Veneno?
Samael não respondeu. Ele apenas voltou para a janela, observando a cidade mais uma vez. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu algo próximo de incerteza.
Mas uma coisa era certa. Ele faria o que fosse necessário pela família. Porque era isso que se esperava de um Vittore.