O jantar estava marcado para as oito da noite, e a propriedade Vittore parecia ainda mais imponente com a presença da família inteira. Os Delucci chegaram pontualmente, como era esperado de uma família que prezava pelo respeito e disciplina. Amara vinha entre os pais, sua postura ereta tentando disfarçar a tempestade de nervosismo que a consumia por dentro.
Ela usava um vestido preto de seda que caía suavemente sobre suas curvas, elegante e discreto, com um toque de sensualidade no decote em formato coração que deixava os ombros e parte do colo expostos. Seus cabelos, em ondas soltas, emolduravam o rosto delicado, e os olhos verdes estavam carregados de apreensão, embora sustentasse um olhar desafiador. O nervosismo era evidente para quem prestava atenção, as mãos que alisavam o vestido com frequência, a respiração tentava permanecer controlada. Amara sabia que parecia forte, mesmo que por dentro sentisse que estava prestes a enfrentar um julgamento.
Samael foi atraído no instante em que ela cruzou a porta.
Ele estava de pé ao lado da mesa principal, usava um terno prëto impecavelmente ajustado, uma gravata prëta e um relógio dourado. O rosto, severo e anguloso, trazia uma barba rala que formava uma sombra na mandíbula definida. Seus olhos eram escuros, quase insondáveis, mas carregavam uma intensidade que parecia pënetrar diretamente na alma de quem ousasse encará-lo. Ele a analisou como um predador avaliando sua presa.
Amara não era o que ele esperava.
Ela era mais jovem do que ele havia imaginado, mas havia um desafio na forma como caminhava. Isso intrigou Samael. O senhor Giovanni foi o primeiro a cumprimentá-lo, depois de cumprimentar ele e a esposa, virou-se para Amara.
— Senhor Vittore, é um prazer finalmente conhecê-lo. — Amara falou, com um leve tremor que apenas os mais atentos conseguiriam perceber. Ela estendeu a mão para ele, um gesto formal que parecia desproporcionalmente pequeno diante do homem imponente que estava à sua frente.
Samael aceitou a mão dela, seus dedos envolveram a mão pequena com um aperto firme, mas sem esmagar. O pequeno toque foi suficiente para transmitir um arrepio nos dois. Ele ignorou e inclinou a cabeça trazendo a mão dela até seus lábios.
— Senhorita Delucci. — Sua voz era grave, como um trovão distante, e Amara sentiu um novo arrepio subir pela espinha. — O prazer é todo meu.
O patriarca Vittore, Lorenzo, logo interveio, quebrando a hipnose com palavras cordiais, guiando os convidados para a mesa de jantar. O salão era amplo, decorado com lustres de cristal e uma mesa longa coberta por uma toalha branca. Louças de porcelana, talheres de prata e taças de cristal estavam distribuídos. Tudo estava preparado para impressionar.
Amara se sentou ao lado de Samael, um arranjo estratégico feito por seus pais, que esperavam que a proximidade ajudasse a quebrar o gelo. Ela sentiu o calor do corpo dele próximo ao seu, e isso só aumentou seu nervosismo. Samael, por outro lado, parecia absolutamente à vontade, o que só serviu para acentuar a sensação de desconforto dela. Ele era o oposto de tudo o que ela conhecia e era ridiculamente o homem mais bonito que ela já vira.
Os Delucci e os Vittore discutiram negócios e estratégias em um tom superficial, típico de reuniões entre famílias da máfia. Enquanto isso, Samael aproveitou a oportunidade para observar Amara mais de perto. Ele viu como ela desviava o olhar sempre que seus olhos se encontravam, mas também notou o sutil erguer de queixo dela, como se quisesse se reafirmar diante dele. Não era um problema, cada pequeno gesto era um mapa para ele decifrá-la e Samael era um mestre em decifrar pessoas.
— Parece nervosa, senhorita Delucci. — Sua voz foi baixa o suficiente para que apenas ela ouvisse.
Amara se virou para ele com surpresa.
— Nervosa? — Ela arqueou uma sobrancelha, tentando parecer despreocupada. — Não diria isso. Apenas... cautelosa.
Um sorriso discreto apareceu no canto dos lábios de Samael, um sorriso que parecia mais uma provocação do que uma demonstração de simpatia.
— Prudência é sempre bem-vinda — ele respondeu, se inclinando discretamente em sua direção. — Mas espero que, com o tempo, isso dê lugar a algo mais... confortável.
Amara sentiu um nó se formar na garganta, e por um instante sua compostura vacilou. Ele era intimidante. Ele parecia sério, quase frio, mas os olhos dele contavam uma história diferente. Havia algo ardente por trás daquela fachada impenetrável, algo que a fez questionar se estava realmente preparado para o que estava por vir. Isso a fez questionar se ele estava de acordo com essa união ou se também estava sendo imposto pelos pais.
O jantar foi servido logo. Amara tentou se concentrar na comida, mas seu olhar voltava constantemente para Samael.
— E você, senhor Vittore? — Amara disse de repente, sua voz alta cortou a conversa em andamento. Os pais dela se entreolharam, surpresos com a iniciativa da filha. — Você está satisfeito com esse acordo? Ou é apenas uma obrigação para você?
O silêncio que se alastrou foi desconfortável. Todos os olhares se voltaram para Samael, que colocou a taça de vinho na mesa deliberadamente. Ele olhou para Amara, seus olhos estreitamente se aproximando, como se estivessem avaliando a ousadia dela.
— Senhorita Delucci. Obrigações fazem parte da vida que escolhemos. Mas isso não significa que eu não veja valor no que podemos construir.
Ele se inclinou para ela, sua presença esmagadora a fez prender a respiração.
— E você? O que acha?
A pergunta a pegou de surpresa e Amara decidiu recuar. Ela levantou o queixo e o encarou diretamente nos olhos.
— Ainda estou avaliando senhor Vittore.
Samael sorriu novamente, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que mostrava que ele apreciaria o desafio.
O jantar continuou, Lorenzo e o pai de Amara estavam ocupados com seus próprios assuntos, e os outros presentes preferiam não interferir.
Quando o jantar chegou ao fim, Samael acompanhou os convidados até a saída. Ele ficou em silêncio enquanto Lorenzo e os Delucci trocavam despedidas formais, com seus olhos fixos em Amara. Quando chegou sua vez de se despedir, ele estendeu a mão novamente, mas dessa vez segurou a dela por um tempo mais longo do que o necessário.
— Boa noite, senhorita Delucci. — Sua voz era baixa, quase um sussurro. — Tenho certeza de que nos veremos novamente em breve.
Amara sentiu o arrepio novamente, mas desta vez não era nervosismo. Samael Vittore era atraente na mesma medida que assustador. Quando a porta se fechou atrás dela, Amara percebeu que sua vida nunca mais seria a mesma.