Capítulo 1 - Maju
Maju
Hoje é o aniversário de 18 anos dos meus filhos, Maria Luiza e Phelipe. Parece que foi ontem que eu tomei um susto quando descobri que estava grávida de gêmeos. Também parece que foi ontem que o Pedro fez um acordo com o desgraçado do Aranha para não começar mais uma guerra. Ele prometeu a minha filha para o filho do Aranha, e hoje, quando Maria Luiza completa 18 anos, ela vai descobrir que o pai dela nunca deixou que ela se envolvesse com outros homens porque já está prometida para um traficante.
Eu respirei fundo quando entrei no escritório da minha casa. O Pedro ficou me encarando durante alguns minutos, só que eu estou cansada de brigar por causa disso, porque sei que ele estava tentando fazer o melhor pela nossa família.
— Você já pensou em como vai contar para Maria Luiza que prometeu ela para o filho do Aranha? Porque eu juro que estou curiosa para saber qual vai ser a reação dela. Se tem uma coisa que ela puxou de mim, foi o meu gênio r**m — falei, me aproximando.
Ele passou a mão no rosto, claramente cansado, porque essa história vem tirando o sono dele há anos. Só que, até o momento, era uma realidade distante. Agora está batendo na nossa porta.
— Eu ainda não sei como vou contar para ela. Eu já passei a visão para o Aranha de que vou precisar de tempo. Eu não sei muito bem o que vou fazer, Maju. Eu sei que você nunca gostou desse bagulho, mas tu sabe que eu fiz o melhor para nossa família, né?
— Eu sei que você se esforçou muito e também sei que a gente não precisava de outra guerra depois de tudo que passou. Só que eu sempre achei a maior maluquice da nossa vida você prometer a nossa filha para o filho do Aranha.
Ele passou a mão no rosto mais uma vez, e foi aí que escutei um barulho vindo da porta. Quando olhei para trás, vi Maria Luiza em pé, com os olhos arregalados.
— Você fez o quê, pai?
Pedro se levantou da cadeira, olhando para nossa filha.
— Maria Luiza, você estava escutando a nossa conversa atrás da porta?
— Eu vim chamar a mamãe porque todos já estão lá embaixo, perguntando por vocês dois, mas acho que eu errei. Como assim eu fui prometida para o filho do Aranha? Que p***a é essa?
— Calma, nós precisamos conversar.
— Conversar o quê? Me diz que é mentira! Que eu não vou ter que ficar com aquele desgraçado!
Ele passou a mão no rosto, claramente desconfortável, e eu me aproximei dela, pedi que entrasse e fechei a porta do escritório.
— Olha, nós somos adultos e, às vezes, fazemos coisas estranhas. Você tem 18 anos, então acho que precisamos conversar. Há muito tempo, estavam acontecendo várias guerras. Quando nós matamos o Carrasco, o Cascavel não conseguiu tomar tudo. Uma nova facção chegou e uma guerra começou. Só que o Aranha fez um acordo com seu pai. Ele disse que, para unir as famílias, seu pai tinha que prometer a filha dele ao filho do Aranha. Naquele momento, nós estávamos muito cansados, as coisas estavam muito feias, então seu pai acabou aceitando.
— Aceitou o quê? Me vender como se eu fosse uma vaca? Eu não vou aceitar esse acordo! Eu já estou avisando para vocês dois que não vou casar, namorar, sei lá que c*****o vocês prometeram para aquele arrombado! Eu só sei que não vou fazer! Dá um jeito de desfazer essa promessa ou faz outra filha!
— Maria Luiza! — Pedro chamou, aumentando o tom de voz.
— Não vem com essa de Maria Luiza para cima de mim! Eu tenho direito de escolher com quem vou me relacionar! E agora que eu sei o porquê de não poder ter um namorado, vou beijar bastante bocas no próximo baile! Aquele desgraçado que arrume outra vaca para colocar no pasto dele, porque eu não vou! E agora vou curtir a minha festa com os meus amigos e vou beijar a boca de quem eu quiser! E outra, pode avisar para ele que eu não vou! Que ele pode invadir a Rocinha, a Penha, o Complexo do Alemão ou o que ele quiser! Eu só sei que eu, Maria Luiza, não vou ficar com ele! O vulgo do cara é Garfield! Ele deve ser gordo, se bobear deve ser laranja! Deus que me perdoe! Até parece que vou perder meu tempo cumprindo uma promessa de quando eu era um bebê para um cara chamado Garfield! Eu, hein!
Ela saiu batendo a porta, e eu passei a mão no rosto antes de olhar para Pedro.
— Não era para ela descobrir desse jeito, Maju. Agora parece que eu vendi a minha filha. Ela vai ficar com raiva de mim, e eu conheço muito bem como ela é quando fica com raiva, porque puxou a mãe.
— Depois eu vou conversar com ela. Eu sei que ela me puxou, mas acho que não aceitaria isso de forma nenhuma. Vamos aproveitar a festa e amanhã a gente conversa com ela com calma.
— Tudo bem, nós temos tempo.