Capítulo 001
Rebeca | Beca 💅 - Dendê | Rj 🌞
Sentir o primeiro soco e o grito do Ruan mandando o pai parar, mas ele não parou, desferiu mais outro, depois outro, e mais outro, até minha vista ficar turva e eu quase desmaiar.
__ isso é pra tu se ligar, já falei que tu é minha, não falei? - falou enquanto apertava o meu maxilar. - não tem papo de liberdade não Rebeca, só quando eu morrer e se pá eu te levo junto.- soltou meu rosto com brutalidade e saiu de casa batendo a porta forte.
E Ali eu desabei, com o olhar duro do meu filho sobre mim, eu sabia o que ele estava pensando, sabia que estava me julgando, mas o que eu poderia fazer? Só tínhamos o pai dele e mais ninguém nessa vida, até tínhamos outra pessoa, mas jamais iria me rebaixar a esse nível, nunca.
Me recompondo, levanto o corpo e olho para ele tentando tirar essa idéia maluca da cabeça dele.
__ mãe, precisamos sair daqui, ou amanhã você amanhece morta e eu sozinho nesse mundo.- falou fazendo meu corpo arrepiar, ele tem apenas oito anos e já pensa dessa forma, me sinto tão culpada por fazer ele passar por tudo isso.
__ eu não posso abandonar seu pai filho.- vi o olhar de raiva nascer em seu rosto. - ele vai mudar, eu juro que vai. - tentei me convencer também sobre aquilo.
A verdade é que eu saí fugida de são Paulo, meu irmão dono da favela Paraisópolis, me privava de muita coisa, até de curtir um baile, m*l saia pra dar uns beijos.
__ não, não vai mãe. - falou amedrontado. - ele vai te matar e depois eu vou ficar aqui sozinho com ele, é isso que você quer? - jogou sujo e eu neguei desesperada. - então vamos mãe, vamos embora por favor, eu peguei a chave reversa, o celular reserva dele e sei a senha do cofre.- olhei pra ele indignada, o garoto tem apenas oito anos e já tem essa esperteza toda.
Também não é pra menos, o pai paga a melhor escola do rio de janeiro pra ele, investe nos melhores cursos, natação, judô, boxe, futebol, jiu-jitsu e os caralhos a quatro pra suprir a p***a da ausência que ele tem na vida do garoto.
__ filho, e suas coisinhas? Seus cursos, seus estudos, melhor não meu amor.- falei com medo.
__ mãe daqui a uma hora é meu futebol, os caras levam nós só até a frente, ficam de escolta na frente, mas atrás não, essa é nossa chance, me escuta, pelo amor de Deus, por favor. - vi os olhos dele encher de lágrimas e meu coração apertou. - daqui um tempo ele vai notar o que sumiu, só pega meus documentos, dar um jeito no rosto e pega todo o dinheiro do cofre, é a nossa chance mãe, pelo amor de Deus. - eu já estava chorando, existia medo em mim, mas deixar o Saulo me doía mais ainda, porque querendo ou não, eu ainda tinha esperança, esperança sobre a mudança dele.
Nem sempre foi assim, quando eu vim de Paraisópolis, com apenas dezessete anos, foi ele quem me acolheu, me ensinou tudo o que eu sei, sobre tudo, até um tempo atrás eu pensava que ele quem tinha me ensinado sobre o amor, mas me enganei, ele nunca me amou, só amou o poder que tinha sobre mim, o poder de mandar e desmandar em mim, e quando eu comecei a enxergar sobre isso, já era tarde.
A liberdade que eu almejava perto do meu irmão e vim em busca aqui, pensei que tinha achado, mas não, ele me fez achar e quando já não estava bom para mim e só para ele, se revelou a verdadeira pessoa que é, um manipulador, agressor, sujo que é, a única coisa boa que ele me deu na vida, foi o nosso filho, e é por ele que eu vou embora.
__ tá, vamos fazer assim, enquanto eu pego nossos documentos e dou um jeito no rosto, você vai até o cofre e pega tudo que estiver lá, tudo bem?- falei e ele assentiu enxugando o rosto, dei um beijo nele e subir até o meu quarto.
Fui em direção ao guarda roupa e abri pegando as pastas de documentos, dentro dessa pasta tava todos os meus e os do Ruan, talvez esperando por alguma oportunidade, e chegou.
Deixo a pasta sobre a cama e vou no banheiro vendo meu rosto inchado, um olho um pouco roxo, a sombrancelha com um corte e sangrando, o cantinho da boca do mesmo jeito e o nariz também, filho da p**a, dessa vez não teve pena nenhuma, bateu valendo.
Passei uma água sentindo a ardência e a dor, mas ignorei, puxei a base e o pó, começando a dar um jeitinho, não foi tão difícil, terminei deixando as coisas por ali mesmo, quando sair do banheiro dei de cara com o Ruan com a bolsa do Naruto dele, me aproximo e vejo cheia de dinheiro, arregalei os olhos com medo.
__ é só jogar a chuteira e o uniforme do time por cima, se alguém desconfiar, quando abrir vai ver as roupas. - assenti nervosa, estava com muito medo.- tá pronta? - perguntou e eu não respondi de imediato, a vontade de voltar atrás, de desistir de tudo e aguentar mais um pouco veio forte.- Mãe.- ele falou firme e eu sair dos meus pensamentos.
__ tô filho, tô pronta.- sentir minha garganta falhar, mas peguei a bolsa dele e ele saiu quase que correndo do quarto.
Descemos rápido e na mesma rapidez saímos de casa, dando de cara com um dos caras que acompanha a gente para a quadra de futebol que o Ruan treina com o time dele, lá no Leblon.
Meu coração tá despedaçado, só de imaginar meu filho sem fazer nada, mais fica muito pior lembrando tudo que ele teve que aturar, todos esses anos.
__ bom dia dona, patrão disse que hoje só vai o loiro.- me desesperei na hora, que filho da p**a, covarde.
__ minha mãe tem que ir tio, ela precisa assinar uns papéis lá, fala com meu pai aí, diz que se ela não for, ele vai ter que vim pra ir assinar. - falou todo cheio de moral e o cara assentiu indo falar com o Saulo pelo rádio.
Olhei para o meu filho desesperada e ele apenas sussurrou "calma", como um garoto de oito anos tem toda essa audácia? Meu neném cresceu tão rápido.
Não deu cinco segundos e o cara voltou.
__ tá liberado. - falou e meu filho sorriu vitorioso, apenas voltei a ficar nervosa e entrei no banco de trás com ele e o cara na do motorista, o caminho até a quadra era longe, me deu tempo de pensar em tudo.
Meu irmão deve ter ficado louco atrás de mim, eu fui imatura confesso, mas eu só queria viver a vida, conhecer o mundo e se eu pudesse voltar atrás, nunca teria saído do lado dele, amo o meu filho, mas jamais sairia de Paraisópolis para viver tudo que vivi esses anos.
Meu medo maior é ele me rejeitar, não querer olhar para minha cara e me jogar no meio da rua, eu não podia tirar o meu filho do conforto dele pra viver a mingue por aí, mas também não podia voltar atrás, o meu filho tava determinado e eu não podia decepcionar ele, não de novo.
Vejo o carro parar e meu filho segurar forte em minha mão como se me passasse força, não sabia ele que ele era a minha força, meu alicerce.
__ obrigado tio, até daqui a pouco.- foi educado, mas pra mim soou um pouco debochado, apenas rir fraco e sair com ele do carro.
Minhas pernas tremiam, pareciam gelatinas, mas o meu filho andava rápido, tinha firmeza e eu gostava de ver que ele era diferente do pai dele, e já entendia que aquilo era errado.
Entramos na quadra e não tinha ninguém ainda, ele saiu me levando para o portão de trás e antes de sair, ele me entregou o celular reserva do Saulo.
__ chama o Uber mãe, pede para o aeroporto e no caminho compramos as passagens. - falou e pela primeira vez demostrou medo e nervosismo.
__ Tá, fica calmo, metade do caminho já foi. - ele assentiu, mas não obedeceu, começou a andar de um lado para o outro, chamei o Uber e rapidamente ele aceitou, o problema é o Saulo ver lá, se ele ver, estou muito fodida.
__ aceitou.- falei e ele respirou aliviado.- mas temos um problema, se seu pai ver? - ele arregalou os olhos.
__ meu Deus mãe, eu esqueci de desligar a vinculação, desliga agora, acho que ele ainda não viu.- fiz rápido e ele tava certo, o pai dele não viu, certamente estava usando droga por aí ou comendo alguma p**a, assim espero, porque só assim vamos ter tempo de fugir.
__ feito, agora vamos, o Uber chegou.- ele segurou novamente minha mãe e abriu o portão, entramos no carro logo evitando sermos vistos, dei bom dia e o motorista respondeu educado, logo começou o caminho para o aeroporto, que não era tão longe assim, entrei no aplicativo de passagem e comprei as duas para São Paulo, deixei pra pagar na hora para não correr o risco do Saulo ver, desliguei o celular e joguei longe pela janela do carro, meu filho me olhou apreensivo, mas parecia feliz, feliz por estar longe do pai.