capítulo 11-A armadilha de Beatriz

922 Words
A manhã parecia calma na mansão Monteiro, mas Camila já sentia o coração pesado. O café fora servido com a mesma pompa de sempre, os empregados circulavam em silêncio, e Beatriz, impecável em um vestido azul-claro, folheava uma revista de moda como se nada no mundo pudesse abalar sua tranquilidade. Ricardo, em contraste, estava tenso. Movia o jornal de um lado para outro sem ler uma linha sequer. Camila sabia: ele também pressentia algo. — Hoje teremos uma recepção importante — anunciou Beatriz, rompendo o silêncio. — Alguns parceiros de negócios de Ricardo virão jantar conosco. Ricardo ergueu os olhos. — Beatriz, não acha cedo demais para expor Camila em mais um evento? Beatriz sorriu, doce como veneno. — Pelo contrário. Todos estão curiosos sobre nossa… solução criativa para a herança da família. Não podemos esconder isso. Transparência, querido, é o segredo. Camila baixou o olhar para a xícara. Sentiu-se um animal em exposição, prestes a ser exibido para os curiosos. Durante o dia, Beatriz pessoalmente supervisionou os preparativos. Ordenou flores frescas, velas de cristal, música ambiente. Mas havia algo no brilho de seus olhos que fazia Camila gelar: não era apenas um jantar. Era uma armadilha cuidadosamente montada. Ao final da tarde, Beatriz levou Camila até seu quarto. Sobre a cama, repousava um vestido vermelho de seda, ousado demais para qualquer ocasião formal. — Quero que use este — disse Beatriz, com naturalidade. — Vai realçar sua… condição. Camila engoliu em seco. — Vermelho? Não é… um pouco chamativo? — Exatamente. — Beatriz a encarou, o sorriso frio. — Afinal, você é a atração da noite. Quando os convidados chegaram, Camila já estava sufocada no vestido. A cada olhar lançado em sua direção, sentia o peso do julgamento. Os homens a fitavam com curiosidade m*l disfarçada; as mulheres cochichavam, ora com desdém, ora com inveja. Beatriz flutuava pelo salão, cumprimentando a todos, irradiando falsa generosidade. — Esta é Camila — apresentava, com uma ênfase venenosa. — A jovem que carrega nosso tão sonhado herdeiro. Camila sorria forçadamente, engolindo o nó na garganta. No meio da recepção, um dos convidados — um empresário de meia-idade, amigo antigo de Ricardo — aproximou-se demais. Olhou para Camila de cima a baixo, o olhar demorando no vestido. — Deve ser… uma experiência única, não é? — comentou, em tom sugestivo. Camila se afastou, desconfortável. — Eu apenas… estou cumprindo um acordo. Beatriz, que observava de longe, sorriu como quem assiste a um espetáculo perfeito. Ricardo percebeu a cena e se aproximou imediatamente, colocando-se entre Camila e o homem. — Agradeço sua presença, Augusto, mas talvez devesse se lembrar de que minha esposa também está nesta sala. O homem se retraiu, sem graça. Camila, aliviada, lançou um olhar de gratidão a Ricardo. Mas Beatriz apenas ergueu a taça de champanhe, satisfeita. Após o jantar, quando os convidados já haviam partido, Beatriz fez questão de encerrar a noite com mais uma facada. — Você se saiu bem, Camila — disse, com falsa ternura. — Embora, confesso, não imaginava que fosse atrair tantos olhares. Camila apertou as mãos contra o vestido, envergonhada. — Eu não pedi por isso. — Mas aproveitou, não foi? — rebateu Beatriz, a voz baixa e cortante. — Gosta da atenção masculina. Gosta de se sentir desejada. Ricardo interveio. — Beatriz, já basta! Ela se virou para ele, o sorriso intacto. — Estou apenas constatando. — E, voltando-se para Camila, completou: — Lembre-se, querida: o que carrega é meu. O resto… pode ser descartado. As palavras ficaram pairando no ar como um veneno lento. Camila sentiu-se diminuída, esmagada, mas não respondeu. Apenas saiu dali, o coração em pedaços. Horas mais tarde, sozinha em seu quarto, Camila chorava em silêncio. O peso do vestido ainda parecia grudar em sua pele. O olhar de Beatriz, os cochichos dos convidados, a insolência do empresário… tudo se misturava em uma dor sufocante. Uma batida suave na porta a fez estremecer. — Camila? — era Ricardo. Ela hesitou, mas acabou permitindo a entrada. Ele fechou a porta atrás de si e se aproximou. — Não devia ter deixado isso acontecer — disse ele, a voz carregada de culpa. Camila balançou a cabeça, enxugando as lágrimas. — Não é culpa sua. Beatriz sabe jogar. Eu… eu não sei. Ricardo segurou seu rosto com delicadeza. — Não devia ser assim. Você não merece isso. Os olhos dela se encheram de lágrimas de novo, mas dessa vez havia também algo mais: desejo, medo, necessidade. — Eu tenho medo, Ricardo — sussurrou. — Medo do que ela pode fazer. Medo do que estamos sentindo. Ele a abraçou forte. — Eu vou te proteger. Não importa o preço. Camila fechou os olhos, permitindo-se por um instante acreditar na promessa. Mas no fundo, sabia: Beatriz não era mulher de blefes. Na suíte principal, Beatriz observava seu reflexo no espelho. Retirava os brincos com calma, mas o olhar frio denunciava a fúria. “Eles pensam que podem me enganar. Que podem me desafiar.” Colocou as joias na caixa, trancou-a e, diante do espelho, deixou escapar um sorriso sombrio. — Que continuem acreditando nisso. Quanto maior a ilusão, maior será a queda. Na madrugada, Camila sonhou com correntes. Correntes que a prendiam à mansão, ao contrato, ao ventre que já não parecia só seu. Acordou assustada, com o coração disparado. Olhou pela janela e viu, na varanda da suíte principal, a sombra de Beatriz, imóvel, observando. Um arrepio percorreu sua espinha. Beatriz estava sempre lá. Sempre vigiando. Sempre esperando o momento certo de puxar as correntes.
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