A manhã parecia calma na mansão Monteiro, mas Camila já sentia o coração pesado. O café fora servido com a mesma pompa de sempre, os empregados circulavam em silêncio, e Beatriz, impecável em um vestido azul-claro, folheava uma revista de moda como se nada no mundo pudesse abalar sua tranquilidade.
Ricardo, em contraste, estava tenso. Movia o jornal de um lado para outro sem ler uma linha sequer. Camila sabia: ele também pressentia algo.
— Hoje teremos uma recepção importante — anunciou Beatriz, rompendo o silêncio. — Alguns parceiros de negócios de Ricardo virão jantar conosco.
Ricardo ergueu os olhos. — Beatriz, não acha cedo demais para expor Camila em mais um evento?
Beatriz sorriu, doce como veneno. — Pelo contrário. Todos estão curiosos sobre nossa… solução criativa para a herança da família. Não podemos esconder isso. Transparência, querido, é o segredo.
Camila baixou o olhar para a xícara. Sentiu-se um animal em exposição, prestes a ser exibido para os curiosos.
Durante o dia, Beatriz pessoalmente supervisionou os preparativos. Ordenou flores frescas, velas de cristal, música ambiente. Mas havia algo no brilho de seus olhos que fazia Camila gelar: não era apenas um jantar. Era uma armadilha cuidadosamente montada.
Ao final da tarde, Beatriz levou Camila até seu quarto. Sobre a cama, repousava um vestido vermelho de seda, ousado demais para qualquer ocasião formal.
— Quero que use este — disse Beatriz, com naturalidade. — Vai realçar sua… condição.
Camila engoliu em seco. — Vermelho? Não é… um pouco chamativo?
— Exatamente. — Beatriz a encarou, o sorriso frio. — Afinal, você é a atração da noite.
Quando os convidados chegaram, Camila já estava sufocada no vestido. A cada olhar lançado em sua direção, sentia o peso do julgamento. Os homens a fitavam com curiosidade m*l disfarçada; as mulheres cochichavam, ora com desdém, ora com inveja.
Beatriz flutuava pelo salão, cumprimentando a todos, irradiando falsa generosidade.
— Esta é Camila — apresentava, com uma ênfase venenosa. — A jovem que carrega nosso tão sonhado herdeiro.
Camila sorria forçadamente, engolindo o nó na garganta.
No meio da recepção, um dos convidados — um empresário de meia-idade, amigo antigo de Ricardo — aproximou-se demais. Olhou para Camila de cima a baixo, o olhar demorando no vestido.
— Deve ser… uma experiência única, não é? — comentou, em tom sugestivo.
Camila se afastou, desconfortável. — Eu apenas… estou cumprindo um acordo.
Beatriz, que observava de longe, sorriu como quem assiste a um espetáculo perfeito.
Ricardo percebeu a cena e se aproximou imediatamente, colocando-se entre Camila e o homem. — Agradeço sua presença, Augusto, mas talvez devesse se lembrar de que minha esposa também está nesta sala.
O homem se retraiu, sem graça. Camila, aliviada, lançou um olhar de gratidão a Ricardo. Mas Beatriz apenas ergueu a taça de champanhe, satisfeita.
Após o jantar, quando os convidados já haviam partido, Beatriz fez questão de encerrar a noite com mais uma facada.
— Você se saiu bem, Camila — disse, com falsa ternura. — Embora, confesso, não imaginava que fosse atrair tantos olhares.
Camila apertou as mãos contra o vestido, envergonhada. — Eu não pedi por isso.
— Mas aproveitou, não foi? — rebateu Beatriz, a voz baixa e cortante. — Gosta da atenção masculina. Gosta de se sentir desejada.
Ricardo interveio. — Beatriz, já basta!
Ela se virou para ele, o sorriso intacto. — Estou apenas constatando. — E, voltando-se para Camila, completou: — Lembre-se, querida: o que carrega é meu. O resto… pode ser descartado.
As palavras ficaram pairando no ar como um veneno lento. Camila sentiu-se diminuída, esmagada, mas não respondeu. Apenas saiu dali, o coração em pedaços.
Horas mais tarde, sozinha em seu quarto, Camila chorava em silêncio. O peso do vestido ainda parecia grudar em sua pele. O olhar de Beatriz, os cochichos dos convidados, a insolência do empresário… tudo se misturava em uma dor sufocante.
Uma batida suave na porta a fez estremecer.
— Camila? — era Ricardo.
Ela hesitou, mas acabou permitindo a entrada. Ele fechou a porta atrás de si e se aproximou.
— Não devia ter deixado isso acontecer — disse ele, a voz carregada de culpa.
Camila balançou a cabeça, enxugando as lágrimas. — Não é culpa sua. Beatriz sabe jogar. Eu… eu não sei.
Ricardo segurou seu rosto com delicadeza. — Não devia ser assim. Você não merece isso.
Os olhos dela se encheram de lágrimas de novo, mas dessa vez havia também algo mais: desejo, medo, necessidade.
— Eu tenho medo, Ricardo — sussurrou. — Medo do que ela pode fazer. Medo do que estamos sentindo.
Ele a abraçou forte. — Eu vou te proteger. Não importa o preço.
Camila fechou os olhos, permitindo-se por um instante acreditar na promessa. Mas no fundo, sabia: Beatriz não era mulher de blefes.
Na suíte principal, Beatriz observava seu reflexo no espelho. Retirava os brincos com calma, mas o olhar frio denunciava a fúria.
“Eles pensam que podem me enganar. Que podem me desafiar.”
Colocou as joias na caixa, trancou-a e, diante do espelho, deixou escapar um sorriso sombrio.
— Que continuem acreditando nisso. Quanto maior a ilusão, maior será a queda.
Na madrugada, Camila sonhou com correntes. Correntes que a prendiam à mansão, ao contrato, ao ventre que já não parecia só seu. Acordou assustada, com o coração disparado.
Olhou pela janela e viu, na varanda da suíte principal, a sombra de Beatriz, imóvel, observando.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Beatriz estava sempre lá. Sempre vigiando. Sempre esperando o momento certo de puxar as correntes.