A mansão Monteiro estava mergulhada em silêncio, mas dentro de Beatriz o barulho era ensurdecedor. A cada passo que dava pelo corredor, lembrava-se da imagem que jamais conseguiria apagar: a porta do quarto de Camila fechando-se atrás de Ricardo.
Ela não precisava abrir para saber o que acontecia lá dentro. O instinto de mulher, de esposa, não a enganava. O cheiro da traição estava no ar, tão forte quanto perfume caro.
Parou diante da grande janela da sala de estar. A noite estava estrelada, mas seus olhos só refletiam tempestade. O copo de vinho tinto tremia em suas mãos, não de fragilidade, mas da fúria prestes a explodir.
“Camila pensa que pode roubar o que é meu… Mas ela vai aprender que comigo não se brinca.”
Na manhã seguinte, Camila acordou exausta. O corpo ainda trazia a lembrança da noite anterior: o toque de Ricardo, os beijos, a sensação de finalmente ser vista como mulher, não como objeto. Mas junto disso vinha a culpa, sufocante, latejante.
Ela se olhou no espelho e viu uma versão de si mesma que não reconhecia. “O que eu fiz? Como pude me deixar levar?”
A batida seca na porta a fez estremecer. Ao abrir, deparou-se com Beatriz, impecável como sempre, o rosto sereno demais para ser verdadeiro.
— Bom dia, querida — disse, com um sorriso afiado. — Precisamos conversar.
Camila hesitou. — Claro… sobre o bebê?
— Sobre muitas coisas — respondeu Beatriz, entrando sem esperar convite.
Na sala de chá, o ambiente parecia preparado para uma guerra silenciosa. A mesa estava posta com porcelanas finas, bolos e frutas frescas, mas havia algo no ar que fazia Camila perder o apetite.
Beatriz serviu-se de chá calmamente, como se fosse apenas mais uma manhã qualquer. Só depois ergueu os olhos para Camila.
— Quero que saiba que estou muito grata pelo que está fazendo por nós — começou, com falsa doçura. — É um ato de generosidade… embora também seja um contrato, claro.
Camila manteve o silêncio, sentindo a armadilha se aproximar.
— Mas devo lembrá-la de algo essencial — prosseguiu Beatriz. — Aqui dentro, você tem um lugar. E esse lugar é abaixo de mim.
As palavras caíram como pedras.
— Eu… nunca pensei em ocupar outro lugar — murmurou Camila, tentando manter a calma.
Beatriz se inclinou, sorrindo com frieza. — Espero que não. Porque se houver qualquer desvio… qualquer deslize… eu não hesitarei em destruir você.
Camila engoliu em seco, o coração disparado. Beatriz não precisava citar nomes. Ela sabia. De algum modo, sabia.
Naquela noite, Ricardo encontrou Camila no jardim, sentada sozinha, o olhar perdido. Ele se aproximou em silêncio, mas ela falou antes mesmo de ele dizer qualquer coisa.
— Beatriz sabe.
Ricardo parou, o corpo inteiro enrijecido. — O que ela disse?
— Que o meu lugar é abaixo dela… que me destruiria se eu cometesse algum deslize. — Os olhos de Camila se encheram de lágrimas. — Eu não aguento, Ricardo. Ela vai me esmagar.
Ele ajoelhou-se diante dela, segurando suas mãos. — Eu não vou deixar.
— Como pode prometer isso? — perguntou ela, com a voz embargada. — Ela tem tudo. O dinheiro, o poder, o nome. Eu sou só… eu.
Ricardo a encarou, firme. — Você é tudo o que importa.
O coração de Camila disparou, mas ela balançou a cabeça. — Não fale assim. Quanto mais você disser isso, mais perigoso se torna.
Ele a puxou para perto, o rosto a centímetros do dela. — Então que seja perigoso. Eu não vou perder você.
Beatriz observava tudo da varanda do andar de cima. Os dois lá embaixo, no jardim, achando que estavam escondidos. O sorriso dela era cortante.
“Perfeito”, pensou. “Deixem-se envolver… quanto maior for a queda, mais doce será para mim.”
Nos dias seguintes, Beatriz começou a movimentar suas peças com a frieza de uma estrategista.
Primeiro, passou a cercar Camila de pequenos agrados envenenados: roupas novas, joias discretas, convites para eventos da sociedade. Tudo sob o pretexto de “cuidar da gestante”, mas na prática era para expô-la ainda mais.
No primeiro evento, Camila sentiu todos os olhares cravados em si. As mulheres cochichavam, os homens a olhavam com curiosidade indecente. E Beatriz, ao lado dela, sorria como se estivesse orgulhosa.
— Vejam só como a nossa família é moderna — disse, rindo. — Enquanto algumas lutam para engravidar, nós encontramos uma solução prática.
As risadas ecoaram pelo salão, e Camila sentiu o chão sumir sob seus pés. Ricardo estava ao longe, tenso, mas preso em conversas de negócios.
Beatriz se aproximou do ouvido de Camila e sussurrou: — Está vendo? Você nunca será uma de nós. Você é apenas o espetáculo.
Naquela noite, de volta à mansão, Ricardo explodiu.
— Isso tem que parar, Beatriz! Você a humilhou diante de todos!
Beatriz fingiu inocência. — Humilhei? Só mostrei a verdade. Ou será que a verdade dói em você também?
Ele a encarou, furioso. — Eu não vou permitir que trate Camila assim.
Beatriz riu, um som frio e cortante. — Permitir? Ricardo, você esquece quem manda nesta casa? — Aproximou-se, os olhos faiscando. — Se acha que pode proteger aquela garota, está enganado. Quanto mais se aproximar dela, mais fraca ela ficará.
Ricardo sentiu a raiva subir, mas também o medo. Não por ele, mas por Camila.
Camila, sozinha em seu quarto, sentia o peso de tudo. Tocou o ventre suavemente, como se buscasse forças no bebê que ainda m*l podia sentir.
— Eu não sei se consigo… — sussurrou. — Mas preciso tentar. Por você.
As lágrimas escorreram silenciosas. Lá fora, a mansão parecia dormir, mas Camila sabia: o verdadeiro jogo só estava começando.
E ela era o prêmio.
Na penumbra da suíte, Beatriz escrevia algo em seu caderno de couro. Anotações frias, meticulosas. Nomes, datas, estratégias.
Levantou o olhar para o espelho e viu seu próprio reflexo: elegante, intocável, mas com uma fúria contida nos olhos.
— Quer brincar comigo, Camila? — murmurou, o sorriso curvando seus lábios. — Pois eu vou te ensinar que cada desejo tem um preço.
E, com a pena deslizando pelo papel, começou a traçar o plano que mudaria para sempre o destino dos três.