A mansão estava em silêncio, mas dentro de Camila havia um furacão.
As palavras de Beatriz ecoavam em sua mente como uma sentença c***l:
— Você não passa de um ventre alugado. Nunca se esqueça disso.
Aquela tarde tinha sido um desfile de humilhações. Durante um almoço formal, Beatriz fizera questão de expor Camila diante de convidados, insinuando que ela era apenas “um investimento temporário” da família Monteiro. Risos discretos percorreram a mesa, e Camila engoliu cada lágrima com o gosto amargo da impotência.
Agora, no quarto silencioso, ela se abraçava a si mesma. O bebê, ainda pequeno, já era alvo de disputas e veneno social.
Ricardo caminhava pelo corredor da mansão, inquieto. Já não conseguia suportar o espetáculo que Beatriz montava todos os dias às custas de Camila. Vira o olhar da jovem no jantar: um misto de dor, vergonha e solidão. Aquilo o consumia.
Quando percebeu, já estava diante da porta do quarto dela. Por um instante, hesitou. Mas o som abafado de um soluço o atravessou como uma lâmina. Bateu levemente.
— Camila? Posso entrar?
Ela limpou as lágrimas às pressas, mas sua voz saiu trêmula. — Sim…
Ricardo entrou, fechando a porta atrás de si. O quarto estava m*l iluminado, apenas o abajur projetava uma luz suave sobre o rosto dela. Camila parecia tão frágil que despertava nele uma urgência quase selvagem de protegê-la.
— Eu ouvi o que Beatriz disse hoje… — começou ele, a voz pesada de raiva contida. — Não deveria ter permitido aquilo.
Camila forçou um sorriso triste. — Não se culpe. Eu sabia desde o início o que me esperava. Não passo de uma peça em um jogo maior.
Ricardo se aproximou, ajoelhando-se diante dela. — Não fale assim. Você não é um objeto, Camila. Você é… — interrompeu-se, como se tivesse medo das próprias palavras.
— Sou o quê, Ricardo? — ela sussurrou, encarando-o.
Ele respirou fundo, e então a verdade escapou. — Você é a mulher mais incrível que já conheci.
O silêncio se tornou pesado. Os olhos de Camila se encheram de lágrimas, mas dessa vez não eram de dor, e sim de algo que ardia e a assustava: desejo.
— Ricardo… — ela murmurou, mas não conseguiu terminar.
Ele ergueu a mão e tocou seu rosto, delicadamente, como se temesse quebrá-la. — Eu não consigo mais fingir, Camila.
Ela deveria se afastar. Deveria lembrá-lo do contrato, de Beatriz, de todas as consequências. Mas quando sentiu o calor da mão dele contra sua pele, todo o resto desapareceu.
O beijo aconteceu como um acidente inevitável. Lento, primeiro hesitante, depois profundo, faminto, carregado de tudo o que haviam reprimido.
Camila sentiu o coração explodir no peito. A culpa se misturava ao prazer, mas nada era mais forte do que a forma como ele a fazia se sentir: viva, desejada, amada.
Quando se separaram, ambos respiravam com dificuldade.
— Isso é errado… — ela sussurrou, ainda ofegante.
— Talvez. — respondeu Ricardo, com os olhos em chamas. — Mas é a única coisa que faz sentido pra mim agora.
Aquela noite, o quarto de Camila se tornou um refúgio proibido. Ricardo a segurava como se ela fosse seu bem mais precioso, como se pudesse protegê-la de todo o veneno que cercava a mansão.
Camila, por sua vez, se entregava com medo e êxtase. Sabia que cruzavam uma linha sem volta, mas pela primeira vez em muito tempo, sentia que não era apenas um corpo alugado. Era uma mulher desejada, tocada com ternura e paixão.
Enquanto os minutos se transformavam em horas, o mundo fora daquele quarto deixava de existir. Não havia Beatriz, não havia contratos. Apenas dois corações batendo no mesmo compasso.
Quando o silêncio voltou, Camila permaneceu deitada, olhando para o teto, tentando acalmar a respiração. Ricardo estava ao seu lado, os olhos fixos nela, como se temesse que fosse apenas um sonho.
— Você vai se arrepender de ter feito isso? — perguntou ela, baixinho.
Ricardo segurou sua mão. — Nunca.
Camila fechou os olhos, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Não sabia o que o futuro lhes reservava, mas tinha certeza de uma coisa: a partir daquela noite, nada mais seria igual.
No corredor, uma sombra se movia silenciosa.
Beatriz.
Ela havia visto Ricardo entrar no quarto de Camila, e seu coração ardia em fúria. Não precisava de provas do que acontecia lá dentro. O instinto de mulher traída não falhava.
Um sorriso gelado curvou seus lábios. Se Camila achava que já conhecia a crueldade dela, estava enganada. O jogo apenas começava.