Capítulo 3

1102 Words
Melinda Acordei de madrugada, o som do vento cortando a janela quebrando o silêncio quase absoluto do quarto. O lugar era sombrio, m*l iluminado por uma lâmpada que piscava de vez em quando, e o frio parecia tomar conta do meu corpo. Meu estômago roncou, mas eu não me atrevi a pedir comida. Isso seria uma fraqueza, algo que Damom usaria contra mim, como se precisasse de qualquer desculpa para me diminuir ainda mais. Quando o relógio bateu três horas, a porta se abriu. Damom entrou com a mesma expressão inquebrável, como se nada desse errado em sua vida. Ele estava vestido de forma simples, mas havia uma intensidade nele que transbordava de qualquer lugar. Ele não precisava de roupas caras ou ostentação, sua presença era suficiente para deixar qualquer um desconfortável, mas também atraído, de alguma forma, como um veneno disfarçado de remédio. Ele se aproximou, e eu senti o medo voltar. Medo do que ele faria, mas também, algo mais. Algo que eu não queria admitir para mim mesma. Ele me observava com aquele olhar de quem sabe de tudo, como se conhecesse cada pensamento, cada emoção que estava se passando pela minha cabeça. Eu queria odiá-lo, realmente queria. Ele era um monstro, alguém que me controlava com uma facilidade assustadora. Mas algo no fundo me fazia pensar que havia mais. Algo sombrio e torturante que ele não deixava transparecer. Damom não disse nada imediatamente. Ele apenas me observava, estudando minha reação. Eu sabia o que ele queria, e não estava disposta a dar-lhe o prazer de me ver quebrar. Mas a verdade é que ele não precisava de nada disso. Ele já tinha vencido. Ele sabia que eu estava enfraquecida, mesmo que tentasse lutar contra isso. E ele sentia isso no ar, como uma presa se debatendo na teia de um aranha, sem saber o que fazer para escapar. Eu tentei me manter firme, mas a sensação de estar à mercê dele me corroía por dentro. Toda a resistência que eu tentava construir desmoronava a cada olhar que ele lançava em minha direção, e o pior é que ele parecia aproveitar isso, como se se alimentasse de minha insegurança. — Melinda. — Ele disse meu nome com uma tranquilidade assustadora, sua voz suave, quase como se fosse um sussurro, mas ainda assim, cheia de autoridade. Eu olhei para ele, tentando controlar minha respiração, tentando manter uma fachada de calma. Mas eu sabia que ele podia ver através de mim, assim como todas as pessoas que já haviam manipulado minha vida antes. Eu sentia como se fosse uma marionete, e Damom fosse o mestre que controlava os fios. Ele deu um passo em minha direção, e o som de seus passos ecoou no vazio do quarto. A cada movimento, ele parecia se aproximar mais de uma linha tênue entre o desejo e o sofrimento. Eu queria sair dali, mas sabia que não podia. Ele havia criado uma prisão não apenas física, mas emocional. Eu estava presa a ele de maneiras que eu não entendia completamente ainda. — Não adianta fugir, Melinda. Você vai entender. — Ele disse, mais como uma afirmação do que uma pergunta. Eu senti um nó na garganta. Algo nele, na forma como ele falava, me deixava completamente perdida. Como se a cada palavra ele fosse deixando uma marca em minha mente, uma marca que eu não sabia se queria apagar ou se era incapaz de apagar. Damom parecia saber o que queria de mim, o que eu ainda não havia compreendido. Ele não era um homem de palavras vazias. Cada gesto, cada olhar, cada movimento seu tinha um propósito. E eu não sabia qual era. — O que você quer de mim? — Perguntei mais uma vez, minha voz saindo mais fraca do que eu gostaria, mas eu não conseguia evitar. Aquele homem estava me consumindo, me tornando uma versão de mim mesma que eu não reconhecia. Ele sorriu de forma enigmática, um sorriso que não alcançava seus olhos. Aquela expressão, aquela frieza, só aumentava o meu desconforto. — Quero que entenda que você não tem escolha, Melinda. — Ele falou, a voz mais baixa agora, quase como se fosse uma confissão, mas uma confissão de algo muito mais sombrio. — Você vai se submeter ao que for necessário para entender o jogo. E, por mais que você resista, vai acabar descobrindo que este jogo foi feito para você. Eu não conseguia compreender o que ele estava dizendo, mas uma sensação gelada se espalhou por meu corpo. Ele não estava falando de algo físico, não apenas de sequestro ou de prisão. Ele estava falando de algo mais profundo, algo psicológico, que eu ainda não conseguia entender completamente. Era como se ele estivesse me puxando para um buraco sem fundo, e eu não tivesse a menor ideia de como sair dele. Damom deu mais um passo em minha direção, e dessa vez, seu olhar se fixou no meu. Eu sabia que ele estava me analisando, que ele estava procurando uma reação. Algo em mim, talvez uma fraqueza, talvez uma hesitação. E eu sabia que ele não pararia até encontrar. — Você vai aprender a confiar em mim, Melinda. — Ele disse com uma firmeza que me fez prender a respiração. — E, quando você aprender, vai entender que eu não sou seu inimigo. Eu sou a única pessoa que pode te salvar. Salvar? Eu ri por dentro, porque tudo nele me dizia o contrário. Damom era o próprio inimigo, e ele não tinha intenção nenhuma de salvar ninguém. Mas, ao mesmo tempo, a forma como ele dizia aquelas palavras... Havia algo nelas que mexia comigo, algo que eu não queria admitir. Eu queria gritar, queria quebrar tudo, mas não havia mais força em mim. O medo, a confusão e o desejo de entender o que estava acontecendo me consumiam. Ele parecia perceber minha fraqueza, porque seus olhos se suavizaram um pouco, mas não de uma forma que eu achasse que ele estava sendo gentil. Não. Era mais como se ele estivesse dando uma pausa, permitindo que eu me acomodasse à situação, para que ele pudesse continuar o controle. — Agora, durma. — Ele disse, se afastando da minha cama. — Amanhã será um dia importante. Eu vou te ensinar como o jogo é jogado. Eu o vi sair, a porta se fechando atrás dele, e eu fiquei ali, sozinha com meus pensamentos. Não sabia se deveria me entregar ao medo ou lutar contra tudo o que estava acontecendo. Mas uma coisa era certa: Damom Moratti havia começado seu jogo, e eu estava mais presa do que nunca.
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