Pov's Laura.
Nova York.
Alojamento.
Sou jogada para dentro, praticamente jogada pelos brutamontes, depois de ter mordido a cara do cliente.
Olho em minha volta, e vejo outras mulheres presas, em situações precárias.
Este lugar parece uma prisão.
Uma das mulheres se aproxima, receosa, e avisto que em seu olho há um hematoma roxo.
— V-você também foi traficada?
Nego com a cabeça, assustada.
— Você não fala, girl?— outra loira, com maquiagem marcante, me questiona. — Vendeu sua alma pro d***o?
— Eu não sei como vim parar aqui.— encaro em torno, perdida.— Eu não sei quem são essas pessoas.
— Não sabe, eu te conto.— a outra se senta no chão frio.— Eles nos trazem para América, com a promessa de vai nos tornar modelos de sucesso e se aproveitam da nossa fragilidade, para nos tornar vadias.— relata a terceira, indignada, que se apresenta como Samantha.
— Ah meu Deus!—me encolho mais.
Nos levantamos com rangido da porta.
— Postura.— a c******a adentra.
Fico misturada com as demais garotas, a maioria delas possuem a minha idade e outra são até mais novas.
— Cherrys, terão aulas de etiquetas a partir de amanhã.
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Algumas semanas depois....
O tempo aqui dentro não passa.
As paredes são sempre as mesmas — descascadas, úmidas, cinzentas como a alma de quem comanda esse lugar.
Não sei mais quantos dias se passaram desde que fui sequestrada. Perdi o controle do calendário, do horário, de mim mesma.
No começo, resisti. Chorava todas as noites, me recusava a comer, tentei até fugir e fui castigada com dois dias no “quarto da disciplina”. Agora, aprendi a ficar quieta.
Aos poucos, entendi que qualquer sinal de rebeldia vira espetáculo para os olhos cruéis da c******a. Por isso, sigo as regras.
— Bom dia, bonecas! — entra Dominic, com um estalo nos dedos e os olhos brilhando como se estivesse entrando num palco. — Vamos, vamos! Aula de passarela em cinco minutos. Quero todas de salto e com atitude.
Dominic é o oposto de tudo aqui: extravagante, falante, e quase sempre gentil — mas nunca confiável.
Ele usa perfume demais, roupas que brilham como diamantes falsos e chama todas nós de “estrelinhas da perdição”. É nosso treinador de imagem.
— Laura, querida — ele toca no meu ombro. — Levanta esse queixo. Você tem um rosto de editorial francês, mas caminha como se estivesse carregando o mundo nas costas. Desapega, meu amor. Aqui dentro, ou você aprende a desfilar, ou você é descartada.
Meus passos ainda são hesitantes. Tento não olhar para os espelhos. Me recuso a ver quem estou me tornando, mas ando. Caminho como me mandam. Sorrio quando me dizem.
— Cuidado com a nova garota, viu Dominic? — avisa a c******a, surgindo com seu inseparável chicote decorativo. — Essa aí tem sangue nos olhos.
— Sangue nos olhos? Perfeita pro mercado russo — Dominic pisca para mim, como se isso fosse uma vantagem.
À noite, divido o colchão. Uma das garotas dorme de olhos abertos, como se esperasse acordar do pesadelo. A outra murmura o nome da mãe, repetidas vezes.
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Dia seguinte – Sala de Etiqueta.
Meus pés doem nos saltos apertados. A postura ereta, a respiração controlada. O enjoo lateja por dentro, como se o corpo gritasse por repouso — mas aqui, descansar é fraqueza.
Dominic anda entre nós com a postura de um diretor de teatro. Ele observa cada gesto, cada olhar, como se estivéssemos em um palco.
— Postura, Cherrys! — ele grita, estalando os dedos. — Não quero ver olhos baixos. Vocês são deusas, não mendigas!
Sinto o suor escorrer pela nuca. Um calor febril toma meu rosto, e o enjoo vem de novo, rasteiro, ameaçador.
Samantha me observa do canto da sala. Seus olhos me acompanham, atentos. Ela vê quando minhas mãos tremem. Vê quando minha testa brilha de suor frio.
— Laura — Dominic me chama, a voz azeda. — Caminhe até o fim da sala e volte. Elegância, não desmaio. Vai!
Meus joelhos parecem de papel. Caminho com esforço, cabeça erguida, barriga contraída. Sinto que a qualquer momento posso vomitar no chão imundo sob o tapete vermelho improvisado.
Quando chego ao fim do trajeto, minhas pernas cedem um pouco, mas seguro firme.
Quando a aula termina, Samantha me puxa pelos braços e me arrasta até os fundos do alojamento.
— O que foi aquilo? Você quase desmaiou!
— Estou enjoada.
— Já é a terceira vez só essa semana, não é?
— Deve ser o estresse, ou algo que comi. — tento justificar, mesmo sabendo que aqui nada muda, nem o cardápio miserável, nem a tensão permanente.
Samantha se senta ao meu lado e me observa por um tempo. Seus olhos, fundos e marcados por tudo que viu, são mais sábios que qualquer palavra.
— Laura… — ela começa, hesitante. — Teu corpo tá diferente. Tu tá mais pálida, mais sensível, teus seios... — faz um gesto breve com as mãos. — Você sente dor neles?
Engulo em seco. Olho para o chão.
— Sim, e eles estão mais inchados. Mas deve ser... sei lá, o frio, o estresse.
— Não é só isso, flor. Eu já vi isso antes, muitas vezes. Aqui, nenhuma de nós escapa de verdade. Nem sempre dá tempo de nos proteger. Algumas engravidam… mesmo sem saber, mesmo sem querer.
— Você acha que... — minha voz falha. — Que eu tô grávida?
A mulher loira não responde de imediato. Apenas me encara, e nesse olhar vejo a verdade que mais temo.
— Acho que sim. E precisa contar pra Dominic. Não que ele vá te ajudar, mas se a c******a descobrir antes, ela te arranca isso do corpo sem pensar duas vezes.
— Não! — dou um grito de desespero — Eu não vou abrir mão do meu bebê.
Samantha me abraça forte, como uma irmã.
— Então a gente vai esconder, até onde der. Mas você precisa fugir, Laura, o quanto antes.
Fecho os olhos, apertando os lábios, tentando conter o choro.
Dentro de mim, uma vida pode estar começando — no pior lugar possível.