POV’s Laura
Alojamento –
20:00 PM.
Samantha está sentada ao meu lado, pálida, com os ombros curvados pela ansiedade.
— Vocês três, preparadas? —a madame Pietra diz, sem sequer encarar ninguém. — O carro já está lá fora. Caprichem no charme, é noite de ouro.
Meu coração pulsa descompassado. Arthur, ele vai estar lá. Vai olhar para elas. Vai sorrir para elas. Vai, talvez, tocar nelas.
Me viro para Samantha, sussurrando:
— Me deixa ir no seu lugar.
Ela arregala os olhos.
— O quê? Ficou louca?
— Eu preciso ver ele. — minha voz falha. — Preciso falar com ele. É a única chance que eu tenho, Sam. Ele precisa saber da verdade.
— Laura, se eles descobrem que você trocou de lugar com alguém... vão te m***r.
— Eu já tô morta aqui dentro. — sussurro— Mas o meu bebê não merece nascer nesse inferno.
Ela olha pra mim, e um longo segundo se estende entre nós duas.
Minha amiga de alojamento então respira fundo, hesita e finalmente assente com um leve movimento de cabeça.
— Vem comigo.
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Camarim improvisado.
Samantha troca de lugar comigo, alegando estar passando m*l. A c******a bufa, mas está com pressa demais para discutir.
— Você! — aponta para mim, sem reconhecer quem sou. — Acha que dá conta?
— Dou sim. — respondo, com firmeza. — Dou tudo de mim.
— Veremos. O chefe vai estar lá, quero que sorria, seja dócil e, principalmente, obediente. Se ele gostar de você, pode ter acabado de ganhar uma vaga fixa no andar de cima.
Finjo um sorriso. Mas por dentro, sinto vontade de cuspir de tanto nojo dessa corja.
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Boate.
21:30 PM.
Aguardarmos irmos até local do evento, estou tão ansiosa para reencontrar Arthur. E dizer umas verdades na cara dele.
A c******a aparece com passos apressados, até acho que seja para nos levar. Atrás dela, Dominic caminha em silêncio, os olhos varrendo o ambiente até pararem em mim.
— Temos uma seleção especial. — ela anuncia com sua voz áspera. — Um desfile exclusivo em Paris, patrocinado por um grupo de investidores franceses.
O burburinho começa. Todas se ajeitam, tentando parecer desejáveis, impecáveis.
A c******a ergue uma folha, mas quem fala é Dominic.
— Laura.
Um silêncio gelado percorre o ambiente.
— O quê? — quase não reconheço minha própria voz.
— A escolhida é você. — repete ele. — A viagem será hoje à noite. Passaporte e roupas já estão providenciados.
Samantha vira o rosto para mim, com os olhos arregalados. As outras garotas cochicham entre si com inveja.
— Isso é sério? — pergunto. — Por que eu?
A c******a revira os olhos, impaciente.
— Os investidores querem um rosto novo, e você foi a privilegiada, queridinha.
Meus ombros enrijecem.
— Eu vou acompanhar você. — Dominic informa, calmo. — Serei o responsável pela sua segurança e agenda, cherry.
Meu coração dá um salto, e meu estômago afunda.
Todas as chances que eu tinha de ficar cara a cara com Arthur, desapareceu.
A madame Pietra se afasta, murmurando ordens para outras meninas. Fico ali, tentando digerir o que acabou de acontecer.
Samantha se aproxima e cochicha, segurando meu braço com força.
— Isso é estranho. Você precisa ter cuidado, talvez queiram te tirar do país e sumir com você de vez.
— Ou talvez… — respondo, olhando discretamente para Dominic — Seja uma chance de fugir.
Ela arregala os olhos.
— Você confia nele?
— Não. — digo, sincera. — Mas ele parece o menos pior dessa bandidagem.
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Aeroporto EUA.
01:00 Am.
O som das rodas da mala ecoa pelos corredores frios e silenciosos. As luzes artificiais lançam um brilho pálido sobre o piso de mármore.
Estou de salto alto, maquiagem impecável, vestido justo — mas por dentro, cada passo é um grito de socorro.
Dominic caminha ao meu lado, os olhos dele não relaxam um segundo. Observa tudo. Observa a mim.
Quando chenmos à fila do embarque, ele estende meu passaporte para a funcionária com um gesto seguro, quase ensaiado.
Ela confere os dados.
Por um momento, tudo parece parar. Sinto o suor escorrer pelas costas, apesar do ar-condicionado.
— Seu passaporte, senhorita.... — ela pronuncia, educada.— O rosto está diferente.
— Tô mais maquiada agora. — minto, forçando um sorriso.
A funcionária do aeroporto hesita. Dominic se inclina sobre o balcão, sutilmente. A expressão dele muda — não é ameaça, nem charme. É autoridade disfarçada de simpatia.
Ela não insiste. Carimba, deixa-nos passar.
Andamos em silêncio até o portão de embarque. Meus olhos buscam uma rota de fuga, mas é como estar em um labirinto de vidro.
— Seu vestido está um pouco largo, cherry, parece que engordou. — Dominic comenta, desconfiado.— O que tá acontecendo com você?
Me viro devagar para ele.
— Eu tô grávida. — admito, fazendo-o arregalar os olhos — Ninguém pode saber, senão vão tirar o meu bebê de dentro da minha barriga. Você é o menos pior daquela corja, por favor, me ajude.
Dominic me encara por um longo momento. Ele não parece surpreso — parece processar a informação com cuidado.
Ele abaixa a cabeça, pensativo. Depois me encara de novo.
— Isso complica as coisas.
— Por isso preciso fugir. — imploro. — Me deixa sair em Paris. Me ajuda a desaparecer! Eu sumo, ninguém nunca mais vai saber de mim.
— Não posso, cherry. Há pessoas acima de mim, pessoas que estão investindo muito no seu rosto.
— Você é um homem, não um cão deles! — minha voz insiste. — Você sabe o que eles fazem com meninas como eu! O que vão fazer com o meu bebê?
Ele suspira, longo. Olha para os lados. Depois volta os olhos para mim.
— Entra no avião, a gente conversa em Paris.
— Dominic...
— Se eu disser que sim, aqui... nós dois morremos antes de pousar na França.
Fico ali, sem chão. Sem saber se confio, se corro, se grito.
Mas não tenho escolha.
O alto-falante anuncia o embarque. Ele faz um gesto com a cabeça, indicando a entrada.
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HORAS DEPOIS DE VOO.
Paris, França.
A janela exibe uma Paris cinzenta, úmida, no qual destaca a Torre Eiffel.
Estou deitada numa cama larga, com lençóis caros demais, para alguém que nunca teve sequer um travesseiro de verdade.
Me sinto fora do corpo, como se observasse tudo por trás de um vidro.
Ouço a porta do quarto do hotel se abrir.
Dominic entra com passos silenciosos, segurando uma sacola de papel.
— Trouxe café. — diz, com a voz baixa. — E também marquei uma consulta particular pra você ir ver como tá o baby.
Me sento, cobrindo o corpo com o lençol. Não por pudor, mas por p******o. Estou exausta, em todos os níveis.
— Por que tá fazendo isso?
Ele larga as coisas sobre a mesa e só então me encara.
— Porque você tem o rosto certo pra ser a capa de revista da agência que trabalho — responde. — Um rosto que vende, que se destaca. E agora, com essa história de gravidez... se souberem, irão te tirar de circulação.
— E você vai me proteger?
— Até o bebê nascer, sim. — Dominic diz. — Depois, você decide o que faz da sua vida. Mas enquanto estiver grávida, vai ficar aqui. Trabalhar apenas como imagem, e nada mais. Nenhum toque, nenhuma vitrine, só fotos. Entendeu?
— Isso é uma prisão disfarçada. — sussurro.
— É uma pausa, cherry. — assegura. — Uma pausa pra você respirar, pra garantir que essa criança nasça viva.
— E se eu quiser fugir antes?
Ele se aproxima. Não em ameaça — mas como quem está exausto de carregar escolhas que nunca quis fazer.
— Irá arcar com o peso das consequências, cherry. Porque não conseguirei te proteger, se tentar escapar.
Fico em silêncio.
Lá fora, Paris desperta — indiferente à minha história.
Dominic então pega um envelope branco da sacola e coloca sobre a mesa.
— Esse é o endereço da médica. E esses... — empurra um pequeno maço de euros — São pra você caso tenha uma emergência.
— Por que está fazendo tudo isso, Dominic?
Ele me olha nos olhos, pela primeira vez, sem armadura.
— Já paguei alto demais por não ter ajudado uma garota grávida quando devia.
E sai do quarto, fazendo eu ficar refletindo naquelas palavras.
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MESES DEPOIS.....
Fico os meses de gestação em Paris, até que dou à luz a um menino.

Dominic chega dos EUA, e entra sem pedir. Fecha a porta devagar. Os olhos escaneiam o ambiente: o berço improvisado, o fogareiro portátil, a mala sempre semiaberta no canto.
— Você está se escondendo m*l. — diz, sem rodeios.
— Eu tô tentando sobreviver.
Ele respira fundo, vai direto ao ponto:
— Não dá mais tempo, cherry. Eles estão perguntando de você. Sabem que você sumiu depois da viagem. E já suspeitam que havia uma grávida entre as meninas.
Congelo.
— Dominic... — minha voz estremece.— O que acontece se descobrirem?
Ele se aproxima, os olhos sérios, sem espaço para mentiras doces.
— Eles vão querer saber de quem é o bebê. Vão tentar calcular o valor. Vão cruzar datas e nomes.
— O quê? — praticamente grito— Não. Não. Isso não!
— Essa Máfia vende bebês, Laura. Pra casais milionários fora do radar, gente desesperada por um herdeiro "sem rastro". Já fizeram isso antes.
— Não. — meus olhos se enchem de lágrimas. — Eu já protegi o meu bebê até aqui.
— Por isso você tem que me ouvir.
— Você quer que eu entregue meu filho? — cuspo a frase, tremendo.
— Eu quero que o seu pequeno viva, cherry e pra isso terá que fazer uma escolha— Dominic fala. — Meu tio é bilionário, solitário, e está numa fase muito difícil e tá precisando de um motivo pra continuar vivendo. Ele pode criar essa criança como herdeiro dele, dar tudo do bom e do melhor. E seu bebê terá a vida dos sonhos, Laura.
— Eu não posso dar o meu bebê. — sussurro. — Não posso abrir mão dele.— as lágrimas se for.
— Cherry, você prefere que ele seja vendido? É isso que vai acontecer, se aquela cobra da minha irmã souber— ele solta, indignado.
O encaro surpresa.
– Você tem uma irmã, Dominic?— o pergunto.
— Infelizmente tenho, aquela filha da p**a! Ela sempre quer me derrubar e me passar a perna.— o próprio desaba, indignado.— E é por isso cherry, que não vai dar mais pra continuar enrolando-a, ela quer você nos Estados Unidos.
— Eu não quero voltar América
— Terá que voltar, ou então, eu estarei encrencado.
— O meu bebê é tudo pra mim— olho em direção ao berço.
— E um dia, o seu baby boy vai entender que a mãe dele o amou o suficiente pra deixá-lo ir.
As lágrimas caem ao ouvir as palavras.
— Me promete que esse seu tio vai saber que o nome do meu filho é Noah, Dominic.
— Prometo.
Pego meu bebê nos braços, carinhosamente. O recém-nascido suspira no sono, como se sentisse o adeus se formando no ar.
— Eu sou a mãe dele. — choro. — E isso ninguém nunca vai tirar de mim.
Beijo a testa do pequeno. Encosto meu rosto no seu pela última vez.
— A mamãe te ama muito, filho.— sussurro.
E o entrego nos braços de Dominic, tão arrasada, o vendo pela última vez.