A relação entre Dulce e a sua mãe não tinham a melhor relação do mundo. Por conta do trabalho como modelo, ela estava sempre viajando, Rebeca de Maria, era uma mulher com pouco mais de 40, não modelava como antes, mas havia uma presença especial em cada desfile. Ela era o que a agência chamava de Coach Model, importante demais para a nova geração de jovens cheias de sonhos, exceto para sua própria filha. Rebeca e Dulce não cansavam de se odiar.
Seus pais nunca haviam sido casados, eram dois jovens inconsequentes quando tiveram Dulce. Por mais que Rebeca tivesse tentado criar sua filha, a relação entre ambas não era a das melhores.
— O que eu estou tentando dizer-lhe, querida, é que você pode desistir de fazer esse curso e modelar junto comigo.
— Não era esse tipo de conselho que eu queria.
— o seu pai me falou que estava desapontada com o último semestre...
— Mãe, eu estou nesse curso desde os 17 anos! Já passei por coisas piores naquele lugar e mesmo assim não desisti.
Elas haviam marcado de se encontrar num bistrô, somente assim Rebeca aceitaria passar um tempo com Dulce.
— É, realmente, é impossível conversar com você!
— Eu separei um tempo precioso para estar com você, Dulce! Ao menos seja agradecida.
– O que? É você quem não consegue dizer uma frase sem trazer à tona seu egocentrismo!
– Egocentrismo? Eu estou aqui, ouvindo aquilo o que tem a dizer e tentando te ajudar!
– Não! Você está esperando o melhor momento para falar de si mesma!
A jovem se levantou, nem ao menos lembrava o real motivo para aquele encontro, apenas desistiu de tentar convence Rebeca de que ela estava errada.
— Quer saber, mãe, eu não deveria ter-lhe feito perder esse tempo precioso. Foi um ótimo encontro... esquece tudo o que conversamos está bem?
Jogou sobre o ombro a bolsa tiracolo, levantou-se e deixou o local, chateada consigo mesma e om todo o resto do mundo. Andou pela rua com os olhos marejados, por sorte o bistrô não ficava muito longe da universidade. Pensou em passar uma parte de seu dia escondida na biblioteca, mas sabia que havia um lugar melhor para chorar sozinha.
Dulce estava sentada na arquibancada. Ela chorava. Chorava por não ser compreendida. Chorava por não ter tido uma mãe de verdade. Chorava por sentir o gosto do desprezo. Chorava, pois, o único que a entendia era seu pai. Para boa parte das pessoas ela era frágil e mimada, e era. Mas sua cabeça estava desregulada, seus sentimentos balançados, e a suas lágrimas lavavam a sua alma. Ali, enquanto o time de futebol treinava, ela se isolava de tudo e todos.
— Gosta da própria companhia? — Aquela voz... aquela terrível voz que insistia em a perseguir. Era ele, Alexander Cabral, o misterioso e detestável professor. O que se passava na cabeça daquele homem para tentar se aproximar dela no pior dos momentos?
Ela o encarou, censurando cada gesto do homem.
— Às vezes a melhor estar sozinha, do que com alguém indesejado.
Ele sorriu, havia um corte em seu lábio inferior, estava quase cicatrizado. Pela primeira vez, Dulce o encarava de perto, pode velo de uma maneira diferente, se não o detestasse o julgaria como belo.
— Sou alguém indesejado?
– Talvez...
Ele teve a maior das ousadias, por sorte, estranhamente Dulce gostou daquela atitude. O professor se sentou do lado dela. tateou pelo bolso do paletó, jogou a mochila em seus pés, o que fazia levando aquilo para onde quer que fosse? Tirou do bolso interno, tirou um maço de cigarros e um isqueiro. Levou o cigarro ao lábio, Dulce observou mais de perto as mãos dele, estavam muito machucadas. Talvez aquilo que Daniel disse fosse verdade. Aqueles machucados só poderiam ter surgido de uma briga. Calada, ela observou mais de perto o rosto daquele homem detestável. o que ele fazia ali?
— Problemas? — Perguntou ela olhando para os machucados.
— Muitos. — Ele disse soltando a fumaça e voltando a imperar o sorriso inescrutável.
— Achei que passasse o tempo livre na sala dos professores.
— Não tente mudar de assunto, sei o que quer me perguntar. Todos sempre me perguntam a mesma coisa. Onde arrumou esses machucados? Como um escritor que um dia ganhava sessões gigantescas em livrarias acabou parando aqui desse jeito?
— Na verdade eu ia perguntar o que está fazendo aqui.
— O mesmo que você.
Ofereceu um dos seus cigarros a ela. Ela aceitou, levou um deles até a boca enquanto ele acendia o isqueiro para ela. Ale, longe da sala, ele era diferente. Inescrutável de verdade. era difícil perceber um homem que mudava sua forma de ser cada vez que o via. observou mais uma vez o homem, mas dessa vez analisou os detalhes, ele tinha uma aparência mais velha, os olhos eram levemente repuxados, o cabelo liso passava um pouco das orelhas, tinha alguns traços asiáticos. Era uma mistura interessante.
– Minha vida não tem sido das melhores, sabe? Pensava que quando estivesse perto de me formar as coisas seriam mais leves, mas não. O senhor sabe o que quero dizer... desde o final do ano passado. O cara morreu na minha frente! E o que todos sabiam dizer era que eu estava trepando com ele! Ficar falada desse jeito aqui é... sabe... terrível! Quando as aulas voltaram, achei que seria um recomeço, mas o senhor! O senhor parece me odiar!
– Eu? Mas eu só lhe vejo quatro vezes por semana.
— Mas desde a primeira vez que nos vimos não tem mostrado ser a pessoa mais agradável do mundo.
— Os últimos dias não tem sido agradáveis para ninguém.
— O que quer dizer com isso?
Ele apontou para o rosto, onde antes havia um enorme hematoma, mas agora havia apenas uma sombra marrom que mais se assemelhava a marcas de olheiras. Ela entendeu o que ele quis dizer. A vida não parecia ser fácil para ninguém naquela cidade. Alexander se levantou. Lançou a mochila por cima do ombro, ajeitou a postura e olhou para a saída lateral do campo. Dulce tentou decifrar o que o homem estava vendo, mas havia apenas um carro preto com os vidros fume parado, como se esperasse a chuva que estava para chegar cair.
— Professor Alexander! — Chamou a garota antes que o homem fosse embora.
– Alex. – Corrigiu.
– Por que fez isso? Se sentou aqui e conversou comigo, não trocou mais do que cinco palavras comigo desde que chegou e agora... bem agora faz isso. Tenta ser um amigo solitário?
– Só por que você se abriu comigo não significa que sou seu amigo, Dulce. É melhor entrar antes que chova.
Saiu sem olhar para trás. Que diabos aquele homem estava fazendo ali? Era um velho em fim de carreia, fumando cigarros baratos na arquibancada do campo. Dulce o observou descer as escadas e andar em direção ao carro preto. De longe ela não conseguia ver se havia alguém lá dentro, mas com certeza havia, já que o professor se sentou no banco de trás e o carro partiu o mais depressa possível.
Ele sai e a deixa mais confusa do que antes. Aquele homem era louco.
...
Quando a chuva caiu, Dulce correu para a parte coberta do campo, tateou pelo bolso a procura do celular. seus cabelos estavam ensopados, grudados na testa, mas mesmo com a chuva não havia frio, ela transpirava de ansiedade.
— Atende por favor. — Implorava enquanto discava o número.
— Dul? — Ouvir a voz de July havia sido extasiante. Antes que a amiga pudesse perguntar algo, Dulce desabafou, contou tudo o que havia acontecido na arquibancada, sobre o carro parado e o quão suspeito tudo isso era.
— Ele fez isso? — July gargalhava do outro lado da linha.
— O que há de tão engraçado nisso?
— O fato de você está incomodado com ele.
— July, ele pode ser um criminoso! Lembra o que o seu irmão disse? Só estou dizendo o quão suspeito ele é!
— Aí, não seja dramática! As pessoas fazem qualquer tipo de coisa para pagar suas dívidas... sabe-se lá que tipo de vida ele tem fora da universidade! E além do mais ele tem seu charme, não deixa de ser bonito mesmo com todos aqueles machucados. Acho que valeria a pena ser desprezada por ele para depois ser levada para a cama.
– Ai que nojo! Ele deve ter uns 50 anos!
— Um g**o-de-briga de 50 anos! — Ela respirou fundo. — Mas é sério, não se meta nisso! não sabe que tipo de vida esse cara leva. Ele realmente pode ser perigoso, o melhor a fazer é ignorar o que viu e seguir como se nada tivesse acontecido.
July sabia que seu conselho estava sendo em vão, conhecia o temperamento de sua amiga. Agora que havia colocado aquela odeia na cabeça, não haveria nada que pudesse tirar. Despediram-se. Era uma tarde de sexta-feira, July estava saindo da cidade para visitar a mãe, era um final de semana completamente reservado para suas conspirações. Esperou a chuva passar e seguiu para o ponto de ônibus, voltaria para casa com sede de pesquisar tudo o que pudesse sobre aquele inescrutável professor.
Ao chegar em seu bairro, passou na frente de uma das casas mais bonitas dali. Era um bairro de classe média, cheio de pessoas brancas de nariz empinado, e bem, mas Dulce era o que seus vizinhos chamavam de ‘’nata mexicana’’. Havia herdado a maior parte das características mexicanas de sua mãe, a pesar de seu pai ser branco feito leite. Ela via como as pessoas olhavam para ela, via uma beata se benzer e chama-la de vulgar. A garota já havia se acostumado com esses tipos de comentários. Aquela casa bonita, na qual Dulce sempre admirava, havia pertencido a uma mulher tão bela e vulgar quanto Dulce desejava ser. Ela se lembrava de ver a moça sempre de vestido vermelho, ela era uma criança quando a desconhecida acenou para ela. Mas... de repente... a dama de vermelho desapareceu.
E naquele dia, ainda com as roupas molhadas da chuva, Dulce percebeu que a casa havia sido vendida. E de uma das suas janelas dava para ver uma luz acesa.
Correu para casa na esperança de que o seu pai conhecesse os novos donos. Por que aquela casa era tão importante para ela? Adentrou tirando os sapatos, quase caindo por cima dos moveis. Sentia um cheiro bom vindo da cozinha. Correu para avistar o pai. Que para sua surpresa estava devorando sozinho uma garrafa de vinho.
– Pai?
Ele virou-se para a filha, pegou em cima do balcão um pedaço de jornal e começou a ler a manchete.
— A Cabana é sem dúvida um dos lugares mais aconchegantes da cidade... Consigo ver vida nos seus pratos, o sabor é realmente delicioso. Mas, o ponto-chave do lugar é a lábia do chefe, nunca vi um homem tão pequeno se tornar tão grande diante de um prato! — Ao dizer aquela frase, um gigantesco sorriso surgiu no rosto de Carlos. De fato, era um homem pequeno, com pouco mais de 1,67. O crítico havia usado uma das suas maiores inseguranças para elogia-lo.
— Pai isso é incrível!
— Mesmo assim, devo salientar que ainda faltam muitos degraus para A Cabana conquistar a tão desejada quinta estrela. — Continuou a leitura, agora a garota compreendia a bebedeira inesperada de seu pai. — Belíssimo filho da p**a!
— Mas ele te elogiou!
– Claro! Isso antes de me apunhalar! Mas que diabos! Esperei duas semanas para isso!
Dulce se sentou no balcão da cozinha, tomando a garrafa de vinho de seu pai.
— Poderia ter sido pior. Pelo menos ele gostou da comida.
— O sabor é delicioso, mas não o suficiente! É o melhor lugar da cidade! — Tomou o vinho de volta para si. — Espero que o seu dia tenha sido melhor que o meu.
Dulce respiro fundo, tomou novamente a garrafa de vinho e bebeu tudo o que restava. Decidida a ignorar a refeição que tivera com a sua mãe.
— Aquela casa foi comprada. — Desconversou. — Acreditei que nunca seria vendida para ninguém! Os novos donos devem ter comprado bem abaixo do preço.
– O novo dono.
— O você o conheceu?
Carlos franziu as sobrancelhas enquanto soltava um sorriso de lado. Caminhou até a geladeira e tirou duas garrafas de cerveja.
– É o seu professor.
— O que? — Ela quase esse engasgou ao ouvir aquilo. — Isso é sério?
O pai assentiu. Dulce julgou que toda a simpatia que ele tivera naquele dia havia sido culpa da casa tão próxima a sua.
— Não pode ser tão r**m assim.
— Não pode ser tão r**m assim?! Pai o cara chega ora dar aula completamente desgraçado! Viu a aparência dele!
— Que problema tem nisso, Dulce? Você é muito dramática, sabia?
– Que problema tem nisso? Pai, o cara é um g**o de briga!
— Se soubesse o quanto devo a ele...
A expressão no rosto da jovem era a mais assombrosa que podia se ver. Ela havia respondido àquilo como se tivesse levado um tiro.
– Pai!
— Ele é um amigo de longa data...
– Quando ia me contar isso?
— Na verdade não pretendia contar.
Aquilo parecia impossível. Dentre todas as casas, Alex tinha que escolher justamente aquela!
— Ele nos convidou para a recepção que terá amanhã. É importante que você vá. Alex me ajudou a construir A Cabana... Vão ter pessoas importantes lá, por favor cause uma boa impressão.
— Já entendi! Pelo visto nada nesta droga de família é feio pensando em mim!
Saiu da cozinha batendo os pés, não se deu ao trabalho de trocar a roupa molhada. Não se importava, estava precisando aliviar sua cabeça de alguma forma. Voltou a pôr a bolsa em seu ombro, saiu batendo a porta com tanta força que doeu seus ouvidos. Mesmo assim, Carlos não moveu uma palha para impedir Dulce. Pensou que ela fazia suas próprias escolhas. Era assim que a relação entre ambos funcionava, pisando em ovo. Colhendo pelas beiradas com medo de encontrar uma briga.
E, entre eles, sempre haviam brigas.
Caminhando na rua, o sol começava a se por. Dulce sentia frio, sabia exatamente o que fazer. Tirou o celular do bolso, ligou para sua amiga, desejando que a mesma tivesse uma palavra de acalento.
– Oi, aqui é a July! Estou fazendo algo melhor agora, deixe seu recado! — Naquele momento ela se lembrou que a amiga deveria estar na estrada.
— Já sei! — Decidiu ligar para Daniel.
— Dulce? — Do outro lado da linha a voz chapada de Daniel era uma sinfonia para os ouvidos da garota.
– Preciso beber! Preciso esquecer da merda desse dia!