02. Coração de Pedra

2986 Words
A noite já havia caído, Dulce, eles estavam num ginásio de natação abandonado, esperando a chuva passar debaixo da sucata de um fusca velho. Daniel era uma ótima companhia para se passar o tempo, geralmente ele esperava a pessoa se abrir vem vez de perguntar o que acontecia. Mas aquele não foi um dos seus momentos reservados, talvez por se tratar de uma das suas amigas mais antigas. Ele havia levado algumas latas de cerveja para passar o tempo. E, como sempre, carregava no mínimo dois baseados. Acendeu um, tragou e passou para Dulce. — O que lhe perturba? Tinha um ar quase heroico na voz. Daniel odiava heróis. — O que faço para deixar de odiar uma pessoa na qual conheço pouco? — Ainda tendo problemas com aquele cara? Ela tragou, esperou alguns segundos e soltou a fumaça em seguida, deixando um pouco da tosse vir. Molhou a garganta com um pouco de cerveja. — Não tenho um problema com ele... quer dizer... hoje tivemos uma conversa tão estranha. — Talvez seja misandria. Dulce gargalhou, deu uma leve batida no braço de Daniel. — Pode ser o jeito dele. Você não deve levar isso como se ele tivesse um ódio mortal contra ti. Ele é só um cara velho, caras velhos são assim. — Um cara velho que vai morar em minha rua. Daniel levantou as sobrancelhas, os olhos já estavam caídos, mas dava para ver o espanto em sua face. — Como ele arrumou todo esse dinheiro? Até onde eu soube, o cara estava quebrado. Mas ninguém sabe dizer o real motivo da falência dele. — Ele pode estar vendendo drogas, quem sabe? — Acho que você está se preocupando demais com a vida dele. — Ele não comprou qualquer casa! Comprou a casa daquela mulher que sumiu. — É, realmente é interessante tentar descobrir como diabos ele teve dinheiro para isso... Somente as brigas não gerariam tanto dinheiro assim. —Tragou mais uma vez e passou para a garota. — Ele pode ganhar dinheiro com os livros ainda. — Ou ele pode ter matado alguém por dinheiro! Daniel olhou para Dulce, tinha uma feição engraçada, mas difícil se de explicar, as sobrancelhas estavam franzidas, os lábios tentavam conter o riso e ele a olhava de lado. — c****e, Dul... Você está oficialmente chapada! Passou a mão pela cabeça dela, a chuva começou a diminuir. Daniel se levantou, puxou Dulce pelo braço. — Vamos, vou te deixar em casa... Está ficando tarde. ... A noite de sábado chegou mais rápido do que Dulce desejava. Ela penteou seus cabelos e colocou o melhor vestido que tinha. Um vermelho. Que carregava uma f***a na coxa esquerda. Conversou um pouco com July pelo telefone, tentando fazer com que a amiga procurasse algo sobre o professor na capital, ela prometeu que o faria, desde que Dulce não se metesse em problemas. Carlos bateu na porta do quarto da filha enquanto terminava de ajeitar a grava. Ao vislumbrar Dulce, os seus olhos encheram-se de lágrimas. — O vestido está um pouco velho, mas ainda serve bem. — Se eu tivesse sido avisado antes passava em alguma loja para comprar um novo. — Não! — Ela passou a mão pelo vestido. — Gosto desse. — Ainda acho seu amigo muito suspeito. — Por favor, não diga isso quando estiver lá dentro. — Claro que não! Aquele puto é capaz de me envenenar! — Deixe de besteira, você é tão dramática quanto sua mãe! — Não diga isso enquanto estivermos lá dentro. — Retrucou. — Vamos, estou pronta. A pesar de estar segura com seu pai, Dulce se sentia nervosa. Tentava imaginar que tipo de pessoa encontraria naquela casa. Se as notícias fossem reais, provavelmente haveriam criminosos dentro da casa. Andaram pela rua de braços dados, Dulce desfilava, mesmo estando tremendo por dentro. Olhar aquela casa cheia de vida novamente era tão estranho. o que teria acontecido com a antiga Dona? Haviam carros caros estacionados pela rua. Na porta da casa havia um jovem que parecia ter no máximo 17 anos, ele recepcionava as pessoas na portaria, mesmo estando com a porta escancarada. — Sejam bem vindos a nossa humilde casa. — Disse o menino. — Me chamo Henry, sou o filho mais novo. ‘Humilde casa?’ — Pensou Dulce. ‘É literalmente a maior casa do quarteirão'. Por dentro a casa era ainda mais bonita. Conservava o piso de mármore branco, havia um lustre de cristais no centro da casa. Dulce conseguia ouvir o som de um piano tocando, haviam obras de arte espalhadas pelo local. Pessoas e mais pessoas riam, bebiam e conversavam em cada canto. — Carlos! — Aquela voz... maldita voz! O professor ia na direção deles. E para a surpresa de Dulce, seu pai e Alex se cumprimentaram com um caloroso abraço. Seu pai raramente abraçava as pessoas. Em seguida Alex inclinou-se para Dulce, puxou sua mão e com um gesto cavalheiresco deu um leve beijo nas costas. — Sua filha está muito bonita, Carlos. — Disse por fim, depois limpou a garganta. — Afinal de contas esse jantar é para apresentar sua família? — Perguntou Carlos. — Estamos fazendo um leilão, pensamos em fazer uma reforma com o dinheiro que levantarmos. — Mas por que? A casa é tão bonita! — Disse Dulce. Um garçom serviu para eles uma taça de champanhe. — A grama da frente precisa ser trocada. Alguns vidros das janelas estão fora da moldura, o mármore do chão precisa ser polido... entre outras coisas. — Sua esposa deve estar ansiosa para começar a reforma. — Dulce disse quase que ignorando a presença de seu pai. Alex sorriu, maldito sorriso. — Eu não tenho esposa. Só estamos os meninos e eu. Henrique o mais velho, pode ouvi-lo tocar piano no corredor, e Henry vocês devem ter encontrado na entrada. Alex notou os olhares da vizinhança, todos recriminavam Dulce. Pensara que faziam isso por ela ser uma mulher bonita, e quando se deu conto de que estava elogiando a garota em seus pensamentos limpou novamente a garganta. — Está acostumada com os olhares? — Perguntou, vendo que ela parecia ignorar os comentários alheios. — Deixem que falem. Ouvi esses comentários a vida toda. — Beijou o rosto do pai. — Vou olhar um pouco mais da casa, e deixar que falem o que bem entenderem de mim. Ela queria manter seus olhos em tudo e todos, observar cada pessoa, cada gesto, cada olhar. Um homem chamou sua atenção, ele estava sentado confortavelmente em um dos sofás da sala, conversava com outros dois homens sussurrando algo em seus ouvidos. ‘’Aquele deve ser o Mike.’’ — Pensou. Olhou para a escadaria que dava para o segundo andar e pensou que talvez ninguém notasse se ela subisse para procurar coisas nos quartos da família. Se Daniel estivesse ali, a recriminaria, se July estivesse ali subiria junto com ela. No segundo andar a casa não era tão bem iluminada. Dulce foi batendo de porta em porta na esperança de que encontrasse alguma aberta. E realmente encontrou. Julgou ser aquele o quarto principal, havia uma cama grande, decidiu não acender a luz e se guiar apenas com a lanterna do celular. Abriu as gavetas, olhou debaixo da cama, não havia nada de diferente. Achou alguns papeis escritos a mão debaixo da cama. Haviam coisas escritas como ‘’essas coisas não podem continuar, estou ficando cada vez mais sem dinheiro.’’ ou ‘’custear Safira foi sem dúvida a decisão mais i****a que tomei na vida.’’ Mas, uma anotação chamou a atenção de Dulce. ‘’Ontem à noite ela disse ia embora, tivemos uma discussão, mais uma vez, ela estava grávida quando caiu da escada, culpa a mim por ter perdido o bebe, talvez realmente seja minha culpa, tudo nessa casa costuma ser minha culpa. Não consigo passar um dia sem beber, e cada vez mais dividas estão chegando, penso seriamente em tirar minha vida.’’ Levantou-se guardando algumas das folhas dentro do seu vestido. Observou um pouco mais o quarto, abriu o guarda roupa, e dentro da primeira gaveta, escondida embaixo de inúmeras camisas estava uma pistola. Seu coração gelou. A luz do quarto se acendeu. — Não deveria estar aqui! — Alex estava parado na porta do quarto. A quanto tempo deveria estar ali, parado? — Eu estava procurando o banheiro. — Dentro da gaveta? Caminhou para perto dela, estava usando um terno preto que deixava seus ombros ainda mais largos, sentiu a mão firme e fria o professor tocar seu braço, notou que os dedos dele subiam gradativamente. A mão dele ia diretamente para seu decote, não para tocar seus s***s, sim para arrancar a anotação que Dulce havia escondido ali. — Esqueça o que viu aqui! Agora desça e aja como se nada tivesse acontecido. — Havia um tom de ordem imperante em sua voz. A garota não teve outra alternativa senão correr para o andar de baixo. Por sorte as pessoas estavam reunidas prestando atenção no anunciante que começava o leilão. Dulce correu para a cozinha, arrancando de cima da bandeja dois copos de whisky e os bebendo em seguida. Por que ele teria uma arma dentro de casa? Andou até o lado de fora, pensou que o professor poderia dizer a seu pai que ela havia invadido um dos quartos. Foi até a parte de fora da casa, nos fundos, onde haviam alguns bancos de pedra, cruzou as pernas quando uma brisa gélida bateu. — Prefere a própria companhia? — Ela se assustou ao ouvir a voz que surgia das sombras, aos poucos o jovem ia subindo os degraus da escada. — Vi a hora que chegou. Roubou a atenção de muitos olhos na festa. — Desculpe, te conheço? — Sou Henrique, filho do dono. Ele tinha leves traços do pai, mas nem de longe tinha herdado os olhos puxados. — O que faz aqui fora? Pensei que estivesse tocando piano lá dentro. — O piano vai ser leiloado hoje à noite. Disse olhando para Dulce, mas em seguida correu os olhos para o decote em seu vestido. A jovem se sentiu envergonhada, como se estivesse despida diante daquele cara. Por impulso cobriu os s***s com ambas as mãos. Levantou uma das mãos e puxou Dulce pelo braço, fazendo-a levantar. — É verdade o que dizem sobre voce? Ou sobre sua mãe? — Que diabos voce está falando? — Bem, só quero saber se o que dizem é verdade. Dulce empurrou a mão de Henrique para longe de si, mas ele estava chegando perto demais. — Quer falar sobre o que acham de mim? E o seu pai? Sabe que tipo de coisas ele esconde lá em cima? Ou melhor! Como todos dizem, que seu pai é um g**o de briga! Endividado até o pescoço! — Se for levar em conta o que dizem, Nata Mexicana, seu pai é um veadinho frouxo! Que nem conseguir manter uma mulher conseguiu! É o que todos falam! Carlos Dias Campos é um veadinho enrustido e sua filha, Dulce, é uma p**a! Aquilo foi a gota d'água. Quem aquele garoto estava tentando impressionar? Dulce cerrou o punho e com uma mira certeira acertou um soco no meio do rosto de Henrique. O jovem acabou escorregando alguns degraus e caindo n chão molhado da chuva. Mesmo assim a garota não parou. Pariu para cima dele com fúria, disparando tapas, socos, e ganhando gritos de ajuda vindos de Henrique. — Seu filho da p**a! — Ela continuava batendo no jovem, nem ao menos e lembrava da força que tinha. Não notou que o show do leilão agora era a briga entre os dois do lado de fora. — Dulce! Seu pai berrou. Mas a raiva a ensurdeceu. — Já chega Dulce! — Bradou Carlos novamente, puxando a filha de cima de Henrique, que a essa altura estava com a roupa rasgada e sangue escorrendo pela face. — Que diabos voce tem na cabeça? Ela se soltou da mão do pai, ele deveria estar desapontado. Julgou que nada tinha a dizer. Apenas se virou voltou para dentro da casa, atravessando o salão em direção a porta, mas não antes de pegar uma última taça de champanhe e beber tudo em um só gole. Saiu da casa mais bela da rua, mas não tinha a intensão de voltar para sua casa. Qualquer lugar seria melhor do que aquele bairro. Na manhã seguinte todos estariam falando dela. Para onde poderia ir? Tomou uma decisão que se arrependeria depois e ligou para sua mãe. ... Ela se lembra de ter ligado, mas não se lembra de ter chegado à casa de sua mãe. Estava jogada na cama, a cabeça doía, e ainda usava o vestido vermelho da noite anterior. — Ela poderia ser mais controlada se você tivesse sido presente para educá-la! — Era a voz de seu pai, berrando na sala. — Eu tinha 17 anos! O que queria que eu fizesse? Voce era de maior! Voce era responsável! E o que isso tem a ver com o que está acontecendo? Ela chegou completamente bêbada! Suja! Ela chorou a noite toda dizendo que foi humilhada na frente de todo mundo! Onde voce estava Carlos? Onde voce estava? — Estava sendo o pai dela! Enquanto voce estava aqui, fingindo que ela não é parte de sua vida! Acha que ela não sente falta da mãe? Acha que ela não sente Rebeca? — Se continuarem gritando assim vão acordar a garota. — Disse uma terceira voz na qual Dulce desconhecia. Ela julgou que seria um namorado de sua mãe. — CALE A BOCA! — Os pais disseram em uníssono. Dulce se levantou da cama, ouvindo uma dúzia de insultos e palavrões. Olhou para a poltrona ao lado da cama e viu um vestido a espera dela. Trocou de roupa, levou o rosto no banheiro do quarto e decidiu enfrentar os dois dragões na sala. Ao verem que a menina saiu do quarto, ambos pararam com a discussão. — Onde você estava com a cabeça, Dulce? — Carlos perguntou, com um grande desapontamento na voz. — É Verdade que você bateu no Henrique? O filho de seu professor? — Perguntou a mãe. — Bati sim! — O que deu em voce? — Carlos questionou, mas Dulce não queria responder aquela pergunta. — Você não pensa no que faz? — Não, mãe, não penso! — É um prazer te conhecer sobrea, Dulce! — Disse o homem sentado na poltrona da sala. Sim, a terceira voz era o namorado de sua mãe. — Desculpem por ontem... devem ter sido os hormônios. — Foi andando em direção aos pais, abraçou a mãe. — Obrigada pelo vestido. —Virou-se para o pai. — Vamos embora. No carro houve um silencio momentâneo, que Carlos decidiu quebrar. — Filha você está se sentindo bem? — Eu estou bem, pai. Ela não sabia se realmente estava bem. — Se quiser trancar o curso por um tempo, tirar umas férias na capital, visitar seus avos... — Eu estou bem pai! — Dul, eu marquei terapia com um psicólogo para você na quinta. - Carlos disse por fim. — Pai... — Ela pensou em questionar, mas desistiu no meio da frase. — Tudo bem. — É serio? — Sim. Desde que não me pergunte nada sobre ontem à noite. Só siga a vida como se aquilo não tivesse acontecido. — Eu te amo, Dulce. — Também te amo pai. Mais tarde ela havia ficado sozinha em casa, era domingo e Carlos já tinha ido para A Cabana. Dulce pensou que jamais conseguiria olhar para Alex novamente. O que havia dado nela? Por que tanta raiva habitava dentro de si? Afogou-se com suas próprias lagrimas deitada no sofá. Sua vida estava de ponta a cabeça. Sendo tirada de seus devaneios vespertinos, a campainha da casa tocou. A garota pensou alguma vezes se deveria atender ou não a porta. Mas decidiu que teria que pôr a cara na rua de alguma forma. Levantou-se a campainha ansiosa não parava de tocar. — Já vai! Disse atravessando o corredor em direção a porta. E para sua surpresa, era Alex ali. — Voce? — Posso entrar? Ela olhou para ele, o homem guardava as mãos no bolso da calça. Ela realmente deveria deixá-lo entrar? — Meu pai não está em casa. — Estou aqui para falar com você. — Comigo? — Decidiu deixa-lo entrar. — Professor, me desculpe por ontem... eu estava... — Eu sei o que ele te disse Dulce! — Sabe? — Sei. Henrique é um garoto problemático... quando quer ser... Estava chateado com o leilão, comigo e... soltou tudo em cima de você. Eu sou o culpado por tudo isso. Podes me odiar... eu me considero um homem ríspido. De fato, sou. Mas não posso, e nem devo permitir que um filho meu fale esse tipo de coisa, ainda mais para você. — Eu odeio sua família! Seus filhos! Seu jeito de ser! Por que faz isso? Fala com essa frieza na voz, depois vem aqui me pedir desculpas pela merda que seu filho fez! Você me odeia, Alex? Me odeia? Gosta de me torturar com essas mudanças de personalidade? Na escola me destrata, na frente de meu pai me trata feito criança, e quando estamos sozinhos você é indecifrável! Estou com raiva de você! Tenho tanta raiva que... — Que? Ele perguntou de uma forma tão bruta, sua voz saiu da garganta como um trovão. Dulce estremeceu, e por algum motivo sua reação fora de estapear o rosto do professor. Mas o homem fora mais rápido, segurou o seu braço, encaro-a de frente, estavam tão perto um do outro, ela conseguia sentir a respiração dele conduzindo a dela. Ficaram ali parados, por um momento ela pensou que ele a beijaria. Mas. Contra todas as vontades de seu corpo. Alex a soltou, deixando a jovem na sala. Pensou que teria sido um erro ter ido até ali.
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