capítulo 4

1654 Words
Beatriz ​A xícara de porcelana chinesa tremeu levemente em minhas mãos antes de tocar o pires. Na mesa do café da manhã, o silêncio da mansão Silva foi estilhaçado pelo som do tablet que Kareme arremessou contra a parede de mármore. ​— Aquela bastarda maldita! — o grito de Kareme ecoou pela sala de jantar, estridente, desprovido de qualquer a elegância que passei anos ensinando-a a cultivar. — Mães, olha o que ela fez! Olha o que aquela c****a fez! ​Aproximei-me da tela trincada no chão. A manchete principal do maior portal de notícias do país trazia a imagem de Aylane deixando a suíte de Gael com o cabelo desgrenhado, as roupas rasgadas e aquele olhar de vítima que sempre me causou náuseas. Logo abaixo, a foto de Gael saindo do mesmo quarto. ​A minha primeira reação não foi o choque, mas uma fúria gélida. O plano era simples: embebedar a garota, deixá-la desacordada no quarto com o gigolô que contratei e tirar as fotos para destruí-la de vez diante de Gael e da sociedade. Como aquela inútil conseguiu errar a porta e terminar na cama do homem mais poderoso do país? ​— Acalme-se, Kareme — ordenei, mantendo a voz firme enquanto me sentava novamente. — Descontrole só serve para os fracos. ​— Me acalmar?! — ela avançou para cima da mesa, os olhos injetados de raiva, as unhas bem feitas cravando na toalha de linho. — Ela dormiu com o meu noivo! O homem que é MEU por direito! Eu passei anos fingindo ser a salvadora daquele incêndio desgraçado, aturei o humor frio de Gael por anos para garantir esse casamento, e agora aquela garota de rua rouba a minha noite?! ​— Ela não roubou nada — disse, pausadamente. — Gael a odeia. Ele sabe a "peça" que a irmã é... ou pelo menos o que fizemos ele acreditar. Isso é apenas um tropeço temporário. ​Olhei de relance para o cabeceira da mesa. Ricardo, meu marido e pai daquela bastarda, mantinha os olhos fixos no café, as mãos trêmulas segurando o jornal impresso. A covardia dele sempre me deu desprezo. ​— E você, Ricardo? — perguntei, envenenando cada sílaba. — Não vai dizer nada sobre a sua filhinha imoral que se ofereceu para o noivo da própria irmã? ​Ricardo ​Apertei os olhos, sentindo o nó na garganta quase me sufocar. A foto de Aylane no jornal rasgava o meu peito. Eu conhecia o olhar da minha filha. Não era o olhar de uma mulher calculista que havia seduzido o noivo da irmã; era o olhar aterrorizado de uma menina que havia sido jogada em uma cova de leões. ​A mesma expressão que ela tinha quando a trouxesse para esta casa aos dez anos, logo após a morte da mãe dela — a única mulher que realmente amei na vida. ​— Beatriz... talvez tenha havido algum engano... — murmurei, a voz fraca, incapaz de sustentar o tom. — A Aylane nunca faria algo assim de propósito. Ela é uma menina quieta, ela... ​— Cale a boca, pai! — Kareme interrompeu, golpeando a mesa com a mão. — Você sempre defendendo o fruto do seu caso repugnante! Ela é uma cobra! Ela sabia exatamente o que estava fazendo! Ela sempre teve inveja de mim, desde o dia em que o Gael me escolheu por eu ter salvo a vida dele! ​Amassei o guardanapo no meu colo. Eu sabia a verdade sobre o incêndio. Eu sabia que fora Aylane quem saíra do colégio com os braços queimados e a pele em carne viva para salvar o rapaz, enquanto Kareme chorava no pátio sem um arranhão. Mas quando Beatriz me ameaçou com o divórcio, com a ruína financeira e com a perda da minha reputação se eu desmentisse a versão de Kareme, eu me calei. ​Vendi a alma e o destino da minha própria filha para manter a minha vida de luxo. ​— Ela vai pagar por isso — Beatriz decretou, os olhos brilhando com uma malevolência pura. — Quando aquela desgraçada cruzar aquela porta, ela vai aprender o lugar dela nesta casa. ​O som do portão principal se abrindo cortou a discussão. Os passos lentos e vacilantes de Aylane ecoaram pelo hall de entrada. ​Kareme ​Não esperei que ela chegasse à sala. Corri em direção ao hall como uma tempestade. ​Aylane estava parada perto da escadaria, abraçando o próprio corpo com o casaco comprido, o rosto pálido e com olheiras profundas. Ela parecia quebrada, destruída. Mas a visão daquela vulnerabilidade só fez meu ódio aumentar. Ela tinha estado nos braços do homem que eu desejava há anos. O homem que nunca havia me tocado com a ferocidade que as marcas no pescoço dela denunciavam. ​Antes que ela pudesse erguer os olhos, desferi um tapa violento em seu rosto. ​O som do estalo ressoou pelo teto alto do hall. A cabeça de Aylane pendeu para o lado e ela cambaleou, segurando a bochecha vermelha. ​— Sua c****a nojenta! — gritei, avançando e agarrando o cabelo dela com força, puxando sua cabeça para trás para obrigá-la a olhar para mim. — Como você teve a audácia?! Como você teve a coragem de se deitar com o meu noivo?! ​— Kareme... por favor... — a voz dela saiu rasgada, trêmula, lágrimas instantâneas cobrindo seu rosto. — Eu não fiz por mal... eu passei mal... a bebida que você me deu... ​— Não ouse jogar a culpa em mim! — dei outro tapa no rosto dela, fazendo-a cair de joelhos no chão de mármore. — Você planejou tudo! Você sempre quis roubar o que é meu! Roubou a atenção do papai quando chegou aqui, e agora quer roubar o homem mais rico do país! ​Beatriz e meu pai surgiram no hall. Minha mãe cruzou os braços, um sorriso gélido nos lábios ao ver a bastarda no chão. Meu pai deu um passo à frente, mas um único olhar de advertência da minha mãe o fez estancar, abaixando a cabeça como o cão adestrado que ele era. ​— Levanta daí, sua fingida! — minha mãe ordenou, caminhando até Aylane e chutando a bolsa dela para longe. — Você envergonhou esta família. O nome dos Silva está no lixo por causa da sua vulgaridade! Você não passa de uma vagabunda que se ofereceu no quarto de um homem noivo! ​— Mãe, não... — Aylane soluçou do chão, olhando para o meu pai com o olhar suplicante. — Pai... me escuta... eu juro por Deus que errei o quarto... eu estava tonta... eu nunca faria isso com vocês... Pai, me ajuda... ​Meu pai desviou o olhar. Ele não encarou a própria filha. ​— Você passou dos limites, Aylane — ele disse, a voz sem vida, rehearsada pelas ameaças da minha mãe. — Você destruiu o noivado da sua irmã. ​O choque no rosto de Aylane ao ouvir a rejeição do pai foi delicioso de ver. Ela percebeu que não tinha ninguém. Estava completamente sozinha no mundo. ​— Você vai para o seu quarto e não vai sair de lá para nada — minha mãe decretou, apontando para o andar superior. — Se o Gael não cancelar o contrato de negócios com a nossa família por causa da sua sujeira, considere-se com sorte de não ser jogada na rua hoje mesmo. ​Aylane se levantou do chão devagar, o corpo tremendo tanto que parecia prestes a desmoronar. Ela não disse mais nada. Com a mão na bochecha dolorida e a cabeça baixa, subiu os degraus da escada sob o olhar vitorioso da minha mãe e a minha raiva m*l contida. ​Mas o que nenhuma de nós esperava aconteceu menos de uma hora depois. ​O som da buzina de uma comitiva de carros pretos blindados ecoou pelo jardim da mansão. O mordomo abriu a porta principal com o rosto pálido, anunciando a chegada do homem que estava no centro de todo o escândalo. ​Gael Duarte entrou no hall da casa dos Silva. ​Ele vestia um terno preto impecável, a postura ereta e dominante, mas o rosto parecia esculpido em pedra. O olhar dele era uma tempestade de gelo e fogo. ​Aproximei-me dele imediatamente, colocando a minha melhor máscara de noiva devastada e inocente, os olhos cheios de lágrimas fingidas. ​— Gael... meu amor... — tentei me aproximar para abraçá-lo. — Eu vi as notícias... eu sei que aquela cobra se aproveitou de você, eu sei que ela armou tudo para nos separar... ​Gael ergueu a mão, parando-me antes que eu pudesse tocá-lo. A distância e o frio que emanavam dele me fizeram dar um passo para trás. ​— Onde ela está? — a voz dele ecoou pela sala, profunda e ameaçadora, ignorando completamente o meu drama. ​— A Aylane? — minha mãe se aproximou, adotando um tom de falsa indignação. — Ela está no quarto, Gael. Nós já a punimos pela vergonha que ela fez você e Kareme passarem. Se você quiser cancelar o noivado, nós entendemos... ​— Não vim cancelar nada — Gael disse, tirando um envelope de couro preto de dentro do paletó e jogando-o sobre a mesa do hall. — Vim comunicar a decisão do conselho das Indústrias Duarte. ​Todos nós olhamos para o envelope. ​— Para conter a queda das ações e o impacto na mídia, o casamento vai acontecer — Gael continuou, o olhar cravado em mim com uma intensidade que gelou a minha espinha. — Mas não com você, Kareme. ​O ar sumiu dos meus pulmões. ​— O quê...? — balbuciei. ​— O casamento de conveniência será com Aylane — ele declarou, a voz desprovida de qualquer emoção. — Um contrato de três anos. Mande-a descer. Ela vai embora comigo agora.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD