Capítulo 3

2401 Words
A casa que Jonas havia reservado para ela ficava a cerca de quinhentos metros da sede principal da fazenda, uma distância calculada com cuidado: o suficiente para garantir silêncio, paz e privacidade, mas perto o bastante para que Hanna pudesse chegar rapidamente ao trabalho, a pé ou de carro, quando fosse necessário — seja para uma emergência com os animais, seja para resolver alguma questão que surgisse fora do horário comercial. Ficava no alto de uma pequena elevação, de onde se avistava boa parte das pastagens e das áreas de cultivo, como um pequeno posto de observação privilegiado, cercada por um gramado bem cuidado e por árvores antigas que pareciam estar ali há séculos, oferecendo sombra fresca e proteção contra o vento forte que às vezes varria a região. Quando o carro parou diante dela, deslizando pela estrada de terra batida que levava até a porta, Hanna desligou o motor e permaneceu alguns segundos imóvel, apenas observando, absorvendo cada detalhe, como se quisesse gravar aquela imagem na memória para sempre. Era uma construção simples, sem luxos, sem adornos excessivos, com paredes de tijolos rebocados e pintados de branco, telhado de telhas avermelhadas que brilhavam sob o sol da tarde. Mas era bonita. Tinha um ar acolhedor, uma aparência de casa que foi feita para ser vivida, para receber pessoas, para guardar histórias. Tinha uma varanda ampla que contornava parte da frente e do lado, com colunas de madeira rústica e um banco comprido encostado na parede, e uma porta de madeira clara, de madeira maciça, que refletia a luz dourada do sol como se estivesse sorrindo. As janelas eram grandes, de caixilhos altos, todas abertas de par em par, deixando o vento circular livremente, entrando e saindo, levando embora o calor e trazendo o cheiro do mato, da terra e das flores silvestres que cresciam ao redor. Ao redor da casa, o verde se estendia em todas as direções, um verde vivo, intenso, que mudava de tom conforme a luz do sol, interrompido apenas por cercas de arame liso com estacas de madeira bem tratadas e por algumas árvores gigantescas — jequitibás, ipês, jatobás — que pareciam guardar segredos e histórias de gerações passadas. O horizonte era aberto, vasto, sem fim, e o céu ali parecia maior, mais alto, mais azul do que em qualquer lugar que ela já tivesse estado. Hanna respirou fundo, enchendo os pulmões com aquele ar puro, com aquele cheiro de vida, antes de sair do carro. Aquele seria o seu novo lar. A palavra ainda soava estranha dentro dela, uma palavra que ela não usava há muito tempo, uma palavra que parecia ter perdido o sentido depois de tudo o que aconteceu. Lar. Lugar de onde não se quer ir embora. Lugar onde se está seguro. Lugar onde se pertence. Pegou sua bolsa de ombro, pesada com objetos pessoais, fechou a porta do carro com cuidado para não fazer barulho excessivo e caminhou lentamente até a entrada. Cada passo que dava sobre a grama alta e macia parecia marcar mais do que distância percorrida — marcava uma decisão. Uma escolha. Um caminho novo que ela estava trilhando com todas as suas forças. Quando girou a chave na fechadura de ferro velho, ouvindo o clique suave da tranca abrindo-se, sentiu um leve aperto no peito, um misto de sentimentos que não saberia explicar direito. Não era medo exatamente. Não era insegurança. Era… consciência. Consciência plena de que estava começando de novo. Mais uma vez. De novo, depois de tudo, depois da dor, depois da perda, depois da reconstrução lenta e dolorosa. A porta se abriu com um rangido suave, quase um suspiro, e o silêncio a recebeu de braços abertos. Não um silêncio frio, nem vazio, mas um silêncio calmo, que esperava, que convidava. O interior da casa era ainda melhor do que ela esperava, muito mais aconchegante e bem cuidado do que imaginara. A sala era ampla, com piso de tábuas de madeira escura bem envernizada que brilhava sob a luz que entrava pelas janelas. Havia um sofá grande, de tecido forte e cor neutra, que parecia extremamente confortável, uma estante de madeira rústica encostada na parede, vazia esperando para receber coisas dela, e uma mesa de jantar também de madeira, de pernas fortes, que parecia ter sido feita à mão, com detalhes simples mas cheios de beleza. A cozinha era integrada ao espaço da sala, separada apenas por um balcão baixo, equipada com tudo o que era necessário: fogão, geladeira, armários, pia, tudo limpo, organizado, funcional, sem exageros, sem coisas desnecessárias, apenas o que era preciso para viver bem. As paredes eram pintadas de cores claras, bege e branco, que faziam a luz do sol refletir por todo lado, deixando tudo iluminado, alegre. Era um espaço pronto para ser vivido, pronto para receber a sua vida. Mas ainda… vazio. Aguardando a presença dela, a sua marca, os seus objetos, a sua história. Hanna entrou devagar, pisando com cuidado, deixando a bolsa sobre a mesa de jantar. Caminhou pela sala inteira, passando os dedos lentamente pela superfície dos móveis, tocando o tecido do sofá, a madeira da mesa, a parede, como se quisesse sentir a realidade daquilo tudo, como se precisasse confirmar que não era um sonho passageiro. — Nada m*l… — murmurou para si mesma, com um pequeno sorriso nos lábios, sentindo o coração mais leve. Havia dois quartos na casa, ambos com janelas grandes e armários embutidos. Ela escolheu imediatamente o que ficava nos fundos, de frente para o campo, para o horizonte aberto. Ao chegar perto, percebeu que a janela dava diretamente para uma vista incrível, onde o céu parecia se encontrar com a terra ao longe, sem obstáculos, sem muros, sem barreiras. Aquilo a fez parar por um momento mais longo, parada ali, apenas olhando, sentindo algo crescer dentro do peito. O vento entrou leve por entre as frestas da janela aberta, tocando seu rosto, bagunçando levemente os fios de cabelo, como um carinho de boas-vindas. Ela fechou os olhos por um instante, deixando-se levar pela sensação. E, pela primeira vez desde que chegara à fazenda, desde que saíra da cidade, desde que tudo mudara, sorriu de verdade. Um sorriso que veio de dentro, que chegou aos olhos, que iluminou todo o rosto cansado mas cheio de esperança. — Morfeu… chegamos. A voz dela, baixa e doce, quebrou o silêncio absoluto da casa. O gato respondeu com um miado baixo, rouco, arrastado, vindo de dentro da caixa de transporte que ela havia deixado perto da porta. Hanna se agachou devagar no chão, indo até ele, abrindo a porta da caixa com todo o cuidado do mundo. De dentro, surgiu uma criatura elegante, magra e curiosa, de pele lisa e macia, sem pelos, com olhos grandes, amendoados e atentos que pareciam observar tudo ao mesmo tempo, como se entendesse cada detalhe do mundo ao seu redor. Era um gato Sphynx, de cor acinzentada com manchas mais escuras, que ela tinha resgatado de uma rua escura numa noite muito difícil, há muitos anos. Morfeu saiu devagar, com passos lentos e calculados, esticando as patas dianteiras e depois as traseiras, espreguiçando-se todo, arqueando o corpo, como se estivesse avaliando o novo território, medindo o espaço, sentindo o ar, o cheiro, a energia do lugar. — Vai… pode explorar tudo. É nosso agora — disse Hanna, sentando-se no chão de madeira, deixando que ele fosse à vontade. O gato caminhou pela sala inteira com passos leves e silenciosos, cheirando cada canto, cada móvel, cada parede, cada mudança no ar. Parou no exato meio do espaço, parado, olhando ao redor com aquele ar quase sábio, quase humano, que sempre teve, como se aprovasse o que via. Hanna o observava em silêncio, com um olhar cheio de amor e gratidão. Morfeu não era apenas um animal de estimação, um bicho que morava com ela. Era companhia. Era presença constante. Era a coisa mais próxima de família que ela tinha sobrado. Nos dias mais difíceis, nos meses escuros, nas noites em que ela achou que não ia aguentar mais, foi ele quem ficou. Quem deitou ao lado. Quem fez carinho com o corpo quente e macio. Quem não pediu explicações, nem falou palavras difíceis, apenas esteve lá. Sempre. Depois de checar tudo, o gato caminhou de volta até ela, parou ao lado do seu joelho e encostou o corpo quente e enrugado em sua perna, num gesto simples, mas carregado de significado: estou aqui também, estou com você, está tudo bem. Hanna passou a mão suavemente sobre a pele macia e quente dele, sentindo o coraçãozinho bater forte debaixo dos dedos. — Eu sei… — murmurou, baixinho. — Também achei que esse lugar é diferente. É bom. As coisas de Hanna cabiam em poucas caixas de papelão, poucas malas, poucos volumes. Era o suficiente. Sempre foi. Ela nunca foi de acumular coisas, objetos, bens materiais. Ou talvez… talvez ela tivesse aprendido, da forma mais dolorosa possível, a não ser. Aprendera que tudo o que é realmente importante não cabe em caixas, não pode ser carregado nas mãos, não pode ser guardado em armários. Que o que vale a pena fica na memória, no coração, na alma. Ela colocou as caixas empilhadas no canto da sala e começou a abrir uma por uma, com calma, com cuidado, arrumando cada coisa no seu lugar. Roupas, poucas e simples, foram para os armários do quarto escolhido. Livros, muitos livros, técnicos, de estudo, alguns de histórias, foram para a estante da sala. Alguns utensílios de cozinha que ela gostava, que usava sempre, foram arrumados nos armários. Ferramentas, suas ferramentas pessoais, aquelas que ela usava para consertar, ajustar, trabalhar, foram colocadas num canto da cozinha, prontas para o uso. Tudo tinha seu lugar. Tudo tinha sua função. Nada ali era excesso. Tudo era necessário, tudo tinha um porquê. A última caixa era menor, mais pesada, mais cuidadosamente fechada. Ela ficou parada diante dela por alguns segundos, respirando fundo, antes de levantar a tampa devagar, como se temesse o que iria encontrar ali dentro, ou talvez desejasse com toda a força. Quando finalmente abriu, o tempo pareceu desacelerar completamente. Fotos. Cartas antigas. Pequenos objetos que pareciam não ter valor para mais ninguém, mas que para ela valiam mais do que ouro. Lembranças. Memórias guardadas com zelo, com amor, com dor. Hanna sentou-se no chão mesmo, ao lado da caixa, puxando com muito cuidado uma das fotografias, a que estava em cima de todas. Era uma foto antiga, um pouco amarelada pelo tempo, mas com as imagens ainda nítidas e brilhantes. Três pessoas sorrindo. Um homem alto, de olhos doces, uma mulher jovem, de cabelos soltos, e um menino pequeno, de dentes brancos e risada solta. Todos inteiros. Todos felizes. Todos vivos. A dor veio imediatamente, como sempre vinha quando ela olhava para aquelas imagens, quando tocava aqueles objetos. Veio forte, veio fundo, veio com saudade. Mas não como antes. Antigamente, a dor era uma avalanche que a esmagava, que a fazia cair, que a deixava sem ar, sem chão, sem nada. Agora, ela vinha sim, mas vinha acompanhada de algo mais suave, mais bonito, mais tranquilo. Uma saudade que não destruía, não quebrava, não esmagava. Que apenas… existia. Que fazia parte dela, que era parte do amor que ela sentia e sempre sentiria. — Estamos em um lugar novo… — disse ela, olhando fixamente para o rosto de cada um na foto, falando baixo, como se eles pudessem ouvi-la de onde estivessem. — Acho que vocês iam gostar daqui. É bonito, é calmo, é cheio de vida. É do jeito que vocês gostavam. Morfeu se aproximou de novo, pulando suavemente para o lado dela, sentando-se ali, enroscando-se nas suas pernas, olhando também para a foto, como se entendesse a importância daquele momento, como se fizesse parte daquela conversa. Hanna respirou fundo, sentindo as lágrimas que vieram aos olhos, mas que não caíram, e guardou a fotografia com cuidado, devagar, colocando-a de volta na caixa, fechando novamente, guardando num lugar seguro, mas não escondido. — Eu vou ficar bem — acrescentou, mais para si mesma do que para qualquer outra coisa, mais para eles do que para ela. — Prometo que vou ficar bem. E, dessa vez, aquilo não era uma promessa vazia, nem uma esperança distante. Era uma verdade que ela finalmente podia dizer com convicção. O entardecer chegou sem pressa, devagar, pintando o céu de cores que mudavam a cada minuto. Hanna já havia organizado a maior parte da casa, arrumado tudo o que tinha trazido, deixado tudo do seu jeito, quando decidiu fazer uma pausa. Preparou um café forte e simples, do jeito que gostava, numa xícara antiga que tinha sido da sua mãe, e levou a bebida quente para a varanda. Sentou-se na cadeira de madeira que havia ali, apoiou os cotovelos na grade baixa e ficou observando o horizonte. O sol começava a descer devagar, desaparecendo por trás das árvores ao longe, tons de laranja, rosa, vermelho e dourado se misturando lentamente no céu imenso. Ao longe, era possível ver o movimento constante da fazenda: trabalhadores finalizando o dia, guardando ferramentas, fechando currais; máquinas sendo desligadas uma por uma; animais sendo conduzidos para os lugares de dormida. Era um mundo vivo, pulsante, cheio de trabalho, de rotina, de existência. E, agora, ela fazia parte daquele mundo. Morfeu pulou no seu colo sem pedir permissão, como sempre fazia, acomodando-se com todo o conforto do mundo, fazendo-se pesado e quente sobre as suas pernas. Hanna sorriu, um sorriso leve e verdadeiro, apoiando a mão sobre o corpo enrugado e macio dele, sentindo o calor passar para si. — Acho que a gente vai gostar daqui, companheiro — disse ela, em voz baixa, olhando para tudo aquilo. — Acho que aqui a gente consegue ficar em paz. O gato fechou os olhos imediatamente, começou a fazer um ronronar baixo e constante, como se concordasse plenamente com cada palavra dita. A noite caiu tranquila, calma, sem pressa. Diferente da cidade, onde o barulho nunca acabava, onde havia sempre carros, vozes, luzes, buzinas, ali reinava o silêncio. Um silêncio bom, cheio de vida, que trazia apenas o som suave do vento balançando as folhas e, de vez em quando, o som distante de algum animal, um grito de ave, um mugido de vaca, um barulho de galho quebrando ao longe. Hanna terminou de arrumar o quarto, colocando lençóis limpos e macios na cama larga e confortável.
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