Capítulo 2

2421 Words
O sol ainda era apenas uma sugestão de luz, uma faixa pálida e alaranjada que pintava a linha do horizonte, despontando devagar por trás das árvores altas que cercavam a propriedade, quando Jonas Azevedo já estava de pé, há muito tempo acordado e ativo. Era assim todos os dias, desde que ele era apenas um menino que corria pelos campos ao lado do pai, e que agora, como dono de tudo aquilo, mantinha como regra de vida: o trabalho no campo não esperava ninguém, e muito menos alguém como ele, homem de mão forte, visão ampla e responsável por extensas áreas de plantio de soja que se estendiam até onde os olhos podiam alcançar, além de ser um dos maiores criadores de gado de corte e de leite de toda a região. A fazenda era um verdadeiro império rural, um mar verde imenso que, na época certa, se transformava em ondas douradas prontas para a colheita, carregadas de riqueza, de história e de trabalho. Tudo ali tinha a marca dele: a organização, a estrutura, a qualidade. Mas, naquela manhã específica, havia algo que o incomodava profundamente, um desconforto que vinha crescendo há meses e que agora pesava mais do que qualquer outra coisa. Ele estava parado em um ponto alto, sob a sombra fresca de um jatobá centenário, braços cruzados sobre o peito largo, a expressão séria, os olhos atentos observando cada movimento dos funcionários que se espalhavam pelos currais e pelas áreas de manejo. Não era falta de gente. Tinha gente suficiente, mais do que suficiente, contratada, paga, treinada. O que faltava, e isso ele percebia com clareza dolorosa, era gente boa. Gente que entendesse o que fazia, que tivesse cuidado, que tivesse amor e compromisso com a terra, com os animais, com o trabalho. — Desse jeito não dá... — murmurou para si mesmo, balançando a cabeça devagar, a franja de cabelo escuro caindo sobre o olhar duro. Havia erros pequenos, coisas que pareciam bobagem para quem não entendia, mas que para ele eram inaceitáveis: manejo m*l feito que estressava o rebanho e baixava a produção, falta de atenção aos detalhes que poderiam causar doenças, má conservação dos equipamentos que custavam uma fortuna e que eram a alma do trabalho ali. Erros pequenos demais para serem ignorados, mas grandes o suficiente para causar prejuízo, desperdício e perda de qualidade. E Jonas não aceitava perder. Não aceitava fazer pela metade. Ele precisava de alguém diferente. Alguém que não apenas trabalhasse, cumprindo horário e tarefa, mas que entendesse o propósito de cada coisa. Alguém que pensasse, que observasse, que cuidasse como se fosse seu. Alguém completo. Sem pensar duas vezes, Jonas puxou o celular do bolso da calça de trabalho gasta, desbloqueou a tela e discou um número que não usava há algum tempo, mas que sabia de cor, gravado na memória como contato de confiança. Chamou uma vez. Duas. — Alô? — a voz do outro lado veio firme, calma, inconfundível. — Rodrigo? É o Jonas. — Jonas! Rapaz, quanto tempo, hein! — a surpresa era clara, misturada com uma alegria genuína. — Como você tá, meu amigo? Que milagre é esse? Jonas soltou um pequeno riso, curto e sem graça, coçando a barba por fazer. — Trabalhando como sempre… e, por incrível que pareça, precisando de ajuda. — Ih… lá vem história — brincou Rodrigo, rindo. — O que foi dessa vez? Problema com terra, com lei, com dinheiro? Ou é coisa de criação? Jonas caminhou devagar pela sombra da árvore, os olhos percorrendo o rebanho que se movia ao longe, pelagens brancas e pretas brilhando sob a luz que aumentava. — Preciso de um funcionário. Mas não é qualquer um, não. E não é para qualquer serviço. Rodrigo ficou em silêncio por um segundo, pensativo. Ele trabalhava havia anos como diretor de um centro de excelência agropecuária, uma instituição respeitada em todo o estado, conhecida por formar os profissionais mais qualificados, capacitados e preparados do ramo. Se alguém tinha indicação boa, nome limpo e competência de sobra, esse alguém com certeza passara pelas mãos dele. — Tá… então pode falar. Você ligou para a pessoa certa mesmo. Aqui é o banco de talentos do agro — respondeu ele, confiante. — Me diz exatamente o que você quer, que eu vejo se tenho na prateleira. Jonas respirou fundo, organizando os pensamentos que já eram claros dentro de si. — Preciso de alguém que entenda de gado de ponta a ponta. Manejo nutricional, sanitário, comportamento… e principalmente reprodução. Inseminação, transferência de embriões, acompanhamento de gestação, nascimento… essas coisas que fazem o rebanho crescer com qualidade. — Certo. Até aí é o básico de quem é bom — concordou Rodrigo. — Mas também — continuou Jonas, enfatizando cada palavra — preciso de alguém que não tenha medo de meter a mão na graxa, sujar a roupa, se molhar, se cansar. Aqui a máquina não pode parar, e se tiver um defeito, não vou ficar esperando técnico vir de cidade vizinha. Quero quem resolva na hora. Manutenção básica, reparos, ajustes… tudo o que envolve os equipamentos. Rodrigo soltou uma risada alta e demorada do outro lado da linha. — Você quer um milagre, Jonas. Alguém que seja biólogo, veterinário, mecânico e ainda tenha disposição de peão? — Eu quero alguém bom — corrigiu ele, direto, sem rodeios, sério como sempre. — Alguém que veio para somar, não para ocupar espaço. Do outro lado da linha, Rodrigo ficou em silêncio por alguns segundos. Podia ouvir-se apenas o som suave da respiração e o barulho baixo de papéis sendo mexidos. Ele pensou em vários nomes, em vários alunos, em vários profissionais que conhecia. E então, um nome surgiu na sua mente, com uma força tão grande que ele mesmo se surpreendeu. Hanna Storn. Ele se endireitou na cadeira, afastando a mesa um pouco para frente, como se a lembrança daquela mulher tivesse trazido algo muito mais do que apenas um nome e um currículo. Trouxe memórias de dedicação, de força, de superação. — Tenho sim — disse ele, finalmente, com a voz mais baixa, mas carregada de convicção. — Tem? — Jonas arqueou a sobrancelha, interessado, parando de andar. — E por que essa demora? É pessoa boa mesmo? — Tenho. E não é qualquer uma, não, meu amigo. É a melhor que já passou por aqui em anos. — Fala, então. Me dá o nome, o contato, o que tiver. Rodrigo não hesitou um segundo sequer. — Hanna Storn. Foi minha melhor aluna, disparado. Nunca vi ninguém estudar, aprender e aplicar como ela. Jonas franziu levemente o cenho, processando o nome que não lhe era familiar. — Melhor? Disparado? Você não costuma falar assim de ninguém, Rodrigo. — E não falo mesmo. Mas ela merece cada palavra. Vou te contar: técnica em zootecnia, formou-se com a nota mais alta da turma. Depois fez especialização em reprodução animal, estágio nas melhores fazendas do país, publicou até artigos em revista científica. E, como se já não fosse o suficiente, ainda fez curso técnico de mecânica agrícola. Jonas ficou em silêncio por um momento, absorvendo cada informação. Aquilo era… mais do que ele esperava, mais do que ele imaginou que existisse no mercado. Uma combinação rara, quase impossível. — Mecânica também? De verdade? Não é só saber trocar pneu ou limpar filtro? — Sim. De verdade. Ela entende de motor, de sistema hidráulico, de transmissão, de ajuste de peças. Ela desmonta, entende o problema, conserta e monta de novo. E não é de brincadeira, não. Ela trabalhou muito tempo em oficina enquanto estudava. Jonas olhou novamente para os tratores grandes e brilhantes que estacionavam perto do galpão, as máquinas que custavam fortunas e que eram fundamentais para tudo ali. Aquilo começava a parecer não apenas interessante, mas sim a solução que ele esperava há tempos. — E experiência prática? Ela sabe como é o dia a dia na fazenda? Sabe como é o campo, o sol, a chuva, o cansaço? Rodrigo sorriu, mesmo sem o outro poder ver. — Tem. Muita. Ela trabalhou em várias propriedades grandes, fez consultoria, gerenciou equipes. E mais importante do que experiência… ela tem cabeça. — Como assim? Que história é essa de ter cabeça? Rodrigo ficou um instante em silêncio antes de responder, escolhendo as palavras com cuidado. — Ela passou por muita coisa na vida, Jonas. Coisas que quebram qualquer um. Coisas que fazem a gente desistir de tudo. Mas ela… ela usou tudo isso para ser mais forte. É o tipo de pessoa que não quebra fácil, não desiste na primeira dificuldade, não reclama da chuva. Ela encara, ela resolve, ela se adapta. Jonas absorveu aquelas palavras como se fossem ouro. Ele conhecia muito bem esse tipo de pessoa. Gente que já sofreu, já perdeu, já recomeçou. Gente que valoriza o trabalho, que entende o valor de cada coisa, que sabe que nada cai do céu. E ele sabia o quanto isso valia. Valia mais do que qualquer diploma, mais do que qualquer curso, mais do que qualquer indicação. — Me manda o contato dela agora. Telefone, endereço, o que tiver. — Pode deixar. Chega na sua tela em dois minutos. — E, Rodrigo… — Jonas chamou, antes que ele desligasse. — Fala, Jonas. — Se você tá indicando ela assim, com essa certeza toda… eu vou confiar. Vou contratar sem nem pensar duas vezes. Rodrigo respondeu com uma tranquilidade que acalmou o amigo: — Pode confiar. Você não vai se arrepender. Ela vai valer por três funcionários bons. Hanna estava agachada ao lado de um trator antigo, no galpão de uma propriedade onde fazia um trabalho de consultoria temporária, quando o celular vibrou no bolso da calça jeans gasta. Ela estava com as mãos cobertas de graxa, dedos ásperos, unhas escuras, o rosto um pouco sujo de poeira. Limpou as mãos como pôde em um pano de estopa, deixando uma marca escura e brilhante nos dedos, e pegou o aparelho. Número desconhecido. Sem nome, sem identificação. Ela hesitou por um segundo. Não gostava de atender ligações de números que não conhecia, geralmente eram vendedores, cobranças, coisas sem importância. Mas havia algo naquela vibração que a fez atender. — Alô? — disse, com a voz calma, firme, profissional. — Hanna Storn? É com quem eu falo? — Sim, é ela mesma. Quem está falando? — Aqui é Jonas Azevedo. Dono da Fazenda Água Clara. Hanna franziu levemente o cenho, tentando reconhecer o nome. Já tinha ouvido falar, sim. Uma das maiores fazendas da região, referência em criação e produção. Um nome grande, respeitado, que sempre aparecia em matérias e eventos do ramo. — Pois não, senhor Azevedo. Em que posso ajudar? — Peguei seu contato com o Rodrigo, do centro de excelência. Ele falou muito bem de você. Disse coisas que me fizeram ligar na hora. Hanna ficou em silêncio por um instante. Rodrigo. Aquele nome mudava tudo. Rodrigo não falava bem de ninguém à toa. Ele só indicava quem realmente valia a pena, quem realmente era bom. E saber que ele tinha lembrado dela, e com tanta força, mexeu com algo dentro de si. — Entendo… — respondeu ela, mantendo a voz calma, sem deixar transparecer a emoção. — O Rodrigo sempre foi muito generoso comigo. Jonas foi direto ao ponto, como era seu costume, sem enrolação. — Tenho uma fazenda grande, como você já deve saber. Trabalho com gado de corte, gado de leite e plantio de soja em larga escala. Preciso de alguém competente, alguém que cuide da parte técnica, que organize, que resolva, que esteja lá. Ele disse que você é a pessoa certa para isso. Hanna se encostou levemente na roda grande do trator ao seu lado, cruzando os braços, analisando cada palavra. — E o que exatamente você espera de mim? — perguntou ela, firme, direta, profissional. — Quais seriam as minhas funções, os meus limites, as minhas responsabilidades? Jonas sorriu de leve do outro lado da linha. Gostou imediatamente da postura dela. Nenhuma pergunta sobre salário ainda, nenhuma pergunta sobre benefícios. Primeiro: o que vou fazer? Gostava de gente que pensava assim. — Quero alguém que cuide de toda a parte de reprodução do gado, desde a escolha dos reprodutores até o nascimento dos bezerros. Que acompanhe manejo, alimentação, saúde. Que organize tudo para aumentar a qualidade do rebanho. E também quero que ajude com a manutenção básica dos maquinários, ajustes, pequenos reparos, para não parar o trabalho. Hanna arqueou uma sobrancelha, um sorriso pequeno surgindo nos lábios. — Então você quer duas funções. Zootecnista e mecânica. — Quero alguém completo — corrigiu ele, firme. — Quero alguém que resolva tudo o que aparecer pela frente. Ela ficou em silêncio por um momento, pensando, avaliando. Não era a primeira proposta que recebia desde que começou a trabalhar sozinha, desde que se tornou conhecida pelo seu trabalho. Mas aquela… era diferente. Tinha um peso, uma seriedade, uma estrutura que as outras não tinham. — E as condições? — perguntou ela, finalmente. — Salário, carga horária, moradia, benefícios, estrutura que terei para trabalhar. Jonas explicou tudo com clareza, detalhe por detalhe. Valores altos, muito acima da média do mercado, moradia completa dentro da fazenda, veículo de trabalho, todos os equipamentos necessários, liberdade para organizar as coisas do seu jeito, desde que desse resultado. Cada detalhe que ele falava era melhor do que o último. Melhor do que ela imaginava que existia. Melhor do que ela ousava sonhar. Hanna sentiu algo se mexer dentro dela. Uma fagulha. Uma oportunidade. De verdade. Uma chance de crescer, de mostrar tudo o que sabia, de trabalhar com estrutura, com qualidade, com desafios grandes. — E por que eu? — ela perguntou, por fim, a pergunta que sempre fazia. — Por que me escolher, se não me conhece, se nunca me viu trabalhar? Do outro lado, Jonas respondeu sem hesitar, com uma sinceridade que tocou fundo nela: — Porque eu confio em quem me indicou. E porque o que ele me contou sobre você… é exatamente o que eu preciso. Aquilo a pegou de surpresa. Simples. Direto. Sincero. Nenhuma enrolação, nenhum julgamento, nenhuma desconfiança. Apenas confiança baseada na palavra de quem sabia. Ela respirou fundo, sentindo o coração bater mais forte. — Posso pensar? Preciso de um tempo para organizar as coisas que tenho hoje, para entender se é realmente o que eu quero. — Claro — respondeu Jonas, tranquilo. — Mas não demora muito. Eu preciso de alguém logo, e se você demorar muito, posso ter que chamar outra pessoa. Mas espero que não precise. — Entendi.
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