Uma conversa difícil

577 Words
Capítulo 14 — Uma Conversa Difícil Alguns minutos depois, a mãe de Lucas respirou fundo. Olhou uma última vez para o filho. — Boa noite, Lucas. Ele apenas fez um pequeno aceno com a cabeça. — Boa noite. Ela saiu do quarto devagar. Antes de fechar a porta, lançou mais um olhar para o interior daquele quarto que agora lhe parecia tão diferente. A porta fechou-se. O silêncio voltou. Lucas permaneceu imóvel durante alguns segundos. Depois caminhou até à cama. Sentou-se na beira do colchão e olhou para uma pequena fotografia de Nina que estava dentro de uma moldura sobre a mesa de cabeceira. Pegou nela com cuidado. Passou o polegar pela moldura. Sorriu de forma quase impercetível. Em voz baixa, murmurou: — Ninguém vai afastar-nos... Nina. Ficou a olhar para a fotografia durante longos instantes. Na sua mente, as palavras da mãe repetiam-se sem parar. "Uma amizade precisa de respeito." "Não podes fazer de uma pessoa o teu mundo inteiro." Ele fechou os olhos por um instante. Parecia querer afastar aqueles pensamentos. Depois pousou cuidadosamente a fotografia sobre a mesa de cabeceira e deitou-se. Mesmo deitado, continuava a olhar para a moldura. O sono demorou a chegar. ... No andar de baixo... A mãe entrou lentamente na sala. O pai desligou a televisão ao ver a expressão preocupada da esposa. — O que aconteceu? Ela sentou-se ao lado dele. Demorou alguns segundos antes de responder. — Precisamos de conversar sobre o Lucas. O homem franziu a testa. — Ele fez alguma coisa? Ela abanou a cabeça. — Não... mas descobri uma coisa no quarto dele. O pai ficou atento. — O quê? A mulher respirou fundo. — O quarto inteiro está cheio de fotografias daquela rapariga de quem ele falou hoje... a Nina. O pai pareceu confuso. — Fotografias? — Muitas. Ela continuou, ainda abalada. — Há fotografias nas paredes, anotações sobre aquilo de que ela gosta, recordações da escola... tudo muito organizado. Parece que ele dedica uma parte enorme da vida dele a pensar nela. O homem permaneceu em silêncio. A mãe baixou os olhos. — Nunca o tinha visto assim. — Falaste com ele? — Sim. — E o que ele disse? — Disse apenas que ela é amiga dele. O pai cruzou os braços. — Mas tu achas que é mais do que isso? Ela assentiu lentamente. — Acho que ele está demasiado preso a essa ideia. Não me parece que perceba bem os próprios sentimentos. O pai ficou alguns segundos calado. Depois perguntou: — Ele pareceu zangado por teres descoberto? — Não. — Ficou na defensiva? — Também não. Ela respirou fundo. — Pareceu... perdido. O homem olhou para o chão. — Talvez ele nunca tenha aprendido a lidar com estes sentimentos. — Foi exatamente isso que pensei. A mãe segurou a mão do marido. — Não quero castigá-lo. — Nem eu. — Quero ajudá-lo antes que isto se torne um problema maior. O pai fez um pequeno aceno. — Amanhã vou conversar com ele com calma. — Sem gritos. — Claro. Ele olhou para a esposa. — O Lucas sempre foi muito fechado. Talvez agora seja a altura de o ouvirmos mais do que falarmos. Ela concordou. Os dois permaneceram em silêncio. Lá em cima, Lucas tentava adormecer. Lá em baixo, os pais começavam a perceber que o filho precisava de ajuda para aprender a construir relações saudáveis, antes que a intensidade dos seus sentimentos acabasse por o isolar ainda mais.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD