Capítulo 20 — Uma Noite de Reflexão
Enquanto Nina regressava a casa com os pensamentos confusos, Lucas já estava no seu quarto.
Os pais tinham-no ajudado a entrar quando ele voltou.
O pai levou-o até às escadas, enquanto a mãe permaneceu ao lado, pronta para o amparar caso perdesse o equilíbrio.
Nenhum dos dois levantou a voz.
Depois da discussão daquela tarde, aquele silêncio dizia muito mais do que qualquer palavra.
Ao chegar ao quarto, Lucas sentou-se lentamente na cama.
O quarto continuava vazio.
As paredes brancas pareciam estranhas.
A secretária estava limpa.
Já não havia fotografias, recortes ou lembranças espalhadas pelo quarto.
Ele olhou em volta durante alguns segundos.
Sentia que faltava uma parte da sua vida.
A mãe entrou devagar.
Trazia um copo de água.
— Toma.
Lucas pegou no copo sem dizer nada.
— Obrigado.
Ela permaneceu alguns instantes à porta.
— Ainda estás zangado connosco?
Lucas ficou calado.
Depois respondeu, sem a olhar.
— Não sei.
A mãe suspirou.
— O teu pai e eu não queríamos magoar-te.
Ele apertou o copo entre as mãos.
— Parecia que apagaram tudo o que era importante para mim.
A mãe aproximou-se.
— Não deitámos nada fora.
Lucas levantou a cabeça.
Ela continuou:
— Está tudo guardado numa caixa, na arrecadação.
Não destruímos as tuas coisas.
Só precisávamos de interromper um ciclo que nos estava a preocupar.
Lucas fechou os olhos.
Não respondeu.
A mãe pousou delicadamente a mão no ombro dele.
— Descansa.
— Amanhã podemos conversar melhor.
Ela saiu do quarto e fechou a porta.
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Lucas ficou sozinho.
Bebeu a água lentamente.
Depois deitou-se na cama.
Olhou para o teto.
As imagens da noite voltavam à sua cabeça.
A rua.
A voz de Nina.
O choque no rosto dela.
O pedido de desculpas.
Ele levou uma mão ao rosto.
— O que é que eu fiz...?
A memória surgia aos poucos.
Não se lembrava de tudo com clareza.
Mas lembrava-se do suficiente para sentir um aperto no peito.
— Ela ficou assustada...
Fechou os olhos com força.
Nunca tinha querido que ela tivesse medo dele.
Sentou-se novamente na cama.
Respirou fundo.
— Eu estraguei tudo...
A culpa começou a substituir a raiva.
Durante vários minutos permaneceu imóvel.
Depois ouviu alguém bater à porta.
— Posso entrar? — perguntou o pai.
— Sim.
O homem entrou calmamente.
Sentou-se na cadeira da secretária.
Ficou alguns segundos em silêncio antes de falar.
— A tua mãe contou-me que disseste que parecia que tínhamos apagado uma parte da tua vida.
Lucas baixou os olhos.
O pai continuou:
— Filho... quando vi aquele quarto, percebi que estavas a carregar tudo sozinho durante demasiado tempo.
Lucas permaneceu calado.
— Não estou aqui para te julgar.
— Estou aqui porque és meu filho.
O rapaz respirou fundo.
— Eu gosto dela.
O pai assentiu.
— Eu acredito.
Fez uma pequena pausa.
— Mas gostar de alguém também significa aceitar que essa pessoa tem os próprios sentimentos e as próprias escolhas.
Lucas apertou as mãos.
— Hoje... fiz uma coisa de que me arrependo.
O pai olhou para ele com atenção.
— Então aprende com isso.
Reconhecer um erro é o primeiro passo.
O importante é não o repetir.
Lucas ficou em silêncio.
O pai levantou-se.
Antes de sair, disse apenas:
— Amanhã é um novo dia.
Boa noite, filho.
— Boa noite...
A porta fechou-se.
Lucas voltou a deitar-se.
Pela primeira vez em muitos anos, não adormeceu a pensar apenas em Nina.
Adormeceu também a pensar nas consequências das suas próprias escolhas e na esperança de ainda conseguir pedir desculpa de forma sincera quando a encontrasse na escola.