Uma noite de reflexão

605 Words
Capítulo 20 — Uma Noite de Reflexão Enquanto Nina regressava a casa com os pensamentos confusos, Lucas já estava no seu quarto. Os pais tinham-no ajudado a entrar quando ele voltou. O pai levou-o até às escadas, enquanto a mãe permaneceu ao lado, pronta para o amparar caso perdesse o equilíbrio. Nenhum dos dois levantou a voz. Depois da discussão daquela tarde, aquele silêncio dizia muito mais do que qualquer palavra. Ao chegar ao quarto, Lucas sentou-se lentamente na cama. O quarto continuava vazio. As paredes brancas pareciam estranhas. A secretária estava limpa. Já não havia fotografias, recortes ou lembranças espalhadas pelo quarto. Ele olhou em volta durante alguns segundos. Sentia que faltava uma parte da sua vida. A mãe entrou devagar. Trazia um copo de água. — Toma. Lucas pegou no copo sem dizer nada. — Obrigado. Ela permaneceu alguns instantes à porta. — Ainda estás zangado connosco? Lucas ficou calado. Depois respondeu, sem a olhar. — Não sei. A mãe suspirou. — O teu pai e eu não queríamos magoar-te. Ele apertou o copo entre as mãos. — Parecia que apagaram tudo o que era importante para mim. A mãe aproximou-se. — Não deitámos nada fora. Lucas levantou a cabeça. Ela continuou: — Está tudo guardado numa caixa, na arrecadação. Não destruímos as tuas coisas. Só precisávamos de interromper um ciclo que nos estava a preocupar. Lucas fechou os olhos. Não respondeu. A mãe pousou delicadamente a mão no ombro dele. — Descansa. — Amanhã podemos conversar melhor. Ela saiu do quarto e fechou a porta. --- Lucas ficou sozinho. Bebeu a água lentamente. Depois deitou-se na cama. Olhou para o teto. As imagens da noite voltavam à sua cabeça. A rua. A voz de Nina. O choque no rosto dela. O pedido de desculpas. Ele levou uma mão ao rosto. — O que é que eu fiz...? A memória surgia aos poucos. Não se lembrava de tudo com clareza. Mas lembrava-se do suficiente para sentir um aperto no peito. — Ela ficou assustada... Fechou os olhos com força. Nunca tinha querido que ela tivesse medo dele. Sentou-se novamente na cama. Respirou fundo. — Eu estraguei tudo... A culpa começou a substituir a raiva. Durante vários minutos permaneceu imóvel. Depois ouviu alguém bater à porta. — Posso entrar? — perguntou o pai. — Sim. O homem entrou calmamente. Sentou-se na cadeira da secretária. Ficou alguns segundos em silêncio antes de falar. — A tua mãe contou-me que disseste que parecia que tínhamos apagado uma parte da tua vida. Lucas baixou os olhos. O pai continuou: — Filho... quando vi aquele quarto, percebi que estavas a carregar tudo sozinho durante demasiado tempo. Lucas permaneceu calado. — Não estou aqui para te julgar. — Estou aqui porque és meu filho. O rapaz respirou fundo. — Eu gosto dela. O pai assentiu. — Eu acredito. Fez uma pequena pausa. — Mas gostar de alguém também significa aceitar que essa pessoa tem os próprios sentimentos e as próprias escolhas. Lucas apertou as mãos. — Hoje... fiz uma coisa de que me arrependo. O pai olhou para ele com atenção. — Então aprende com isso. Reconhecer um erro é o primeiro passo. O importante é não o repetir. Lucas ficou em silêncio. O pai levantou-se. Antes de sair, disse apenas: — Amanhã é um novo dia. Boa noite, filho. — Boa noite... A porta fechou-se. Lucas voltou a deitar-se. Pela primeira vez em muitos anos, não adormeceu a pensar apenas em Nina. Adormeceu também a pensar nas consequências das suas próprias escolhas e na esperança de ainda conseguir pedir desculpa de forma sincera quando a encontrasse na escola.
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