O encontro inesperado bêbado

861 Words
📖 Capítulo 17 – O Encontro Inesperado O relógio do telemóvel marcava 20:57. A noite já tinha caído por completo, espalhando um manto escuro sobre a cidade, e o ar ficou mais frio, cortado por uma brisa húmida que restava da chuva que caíra ao fim da tarde. As ruas principais já estavam mais vazias, e naquele caminho mais afastado, perto do pequeno parque que raramente alguém usava a essa hora, o silêncio era quase total, quebrado apenas pelo som suave das folhas a mexerem ao vento. Numa zona isolada, longe das luzes mais fortes e do movimento, Lucas permanecia encostado a uma parede fria de pedra. O uniforme da escola estava amarrotado, as mangas da camisa arregaçadas até aos cotovelos, os cabelos desalinhados e despenteados como se tivesse passado as mãos neles uma e outra vez. Na sua mão, um cigarro aceso soltava espirais de fumo que subiam devagar e se perdiam na escuridão; ao seu lado, no chão, estavam duas garrafas vazias que ele tinha bebido para tentar afogar o peso que sentia no peito, mas que só o tinham deixado mais tonto e mais perdido. Os olhos dele estavam pesados, brilhantes e vidrados pelo álcool e pela frustração, e a discussão h******l que tinha tido com os pais repetia-se na sua cabeça como um eco que não parava, cada palavra dura, cada acusação, cada silêncio cortante. Ele respirou fundo, tragou o fumo e soltou-o lentamente, fechando os olhos por um instante, sentindo que pela primeira vez em muito tempo, não tinha chão debaixo dos pés, sentia-se completamente sozinho e perdido no mundo. Nesse momento, ouviu passos leves e calmos a aproximarem-se no passeio molhado. Abriu os olhos devagar, demorando a focar o olhar, e viu uma rapariga a caminhar na sua direção. Era Nina. Ela vinha com um pequeno saco de uma padaria próxima, provavelmente a voltar para casa depois de ajudar em alguma coisa ou de comprar algo para o jantar, e quando o reconheceu ali parado, naquela zona escura e isolada, parou imediatamente, o passo preso no ar. — Lucas? — chamou ela, com a voz cheia de surpresa e logo de seguida de preocupação. Ele ergueu lentamente a cabeça, os olhos demorando a encontrar os dela, e quando o fez, havia neles uma expressão que ela nunca tinha visto antes: uma mistura de dor, desespero e um d****o tão forte que quase doía ver. — És mesmo tu? — aproximou-se alguns passos, franzindo a testa ao ver o estado dele, o rosto abatido, o olhar perdido, o cigarro na mão e as garrafas vazias aos seus pés — Lucas, o que fazes aqui? Está tudo bem? Pareces… estranho. Lucas permaneceu em silêncio por uns segundos, olhando para ela como se ela fosse a única coisa real que existia naquele momento, a única luz no meio da escuridão que o cercava. Ele deixou cair o cigarro no chão e pisou-o devagar, sem tirar os olhos dela. Nina deu mais um passo na sua direção, preocupada. — Lucas… por favor, fala comigo. Aconteceu alguma coisa? Estás a beber? Ele desviou o olhar por um instante, depois voltou a olhar para ela, e antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, avançou um passo de um movimento rápido e desesperado. Pôs as duas mãos firmes na sua cintura, puxando-a contra si sem deixar espaço para que ela se afastasse, e baixou a cabeça para selar os lábios dela num beijo intenso, urgente, cheio de tudo o que ele não conseguia dizer: o medo, a necessidade, o amor que guardava em segredo, o pânico de a perder. Nina ficou parada de surpresa, o coração a disparar no peito, mas ele não a soltou; segurou-a com firmeza, as mãos a apertarem suavemente a sua cintura, aprofundando o beijo como se ela fosse o ar que ele precisava para respirar. Quando finalmente se separaram, ele não a deixou ir, baixou a cabeça e escondeu o rosto no ombro dela, os braços a rodearem-na com força, como se tivesse medo que ela desaparecesse se ele soltasse nem que fosse um segundo. A sua respiração estava ofegante, a voz saiu rouca e baixa, carregada de emoção e de uma fragilidade que ele nunca mostrara a ninguém. — Não me deixes, Nina… — sussurrou ele contra o tecido do casaco dela, quase a tremer — Por favor, não me deixes sozinho… eu preciso de ti… preciso tanto de ti… tu és a única coisa boa que eu tenho… não vás embora… Ele apertou-a mais contra si, fechando os olhos, sentindo o calor dela, o cheiro suave que ela tinha, e pela primeira vez naquela noite h******l, sentiu que podia se agarrar a alguma coisa. Nina ficou ali, parada, as mãos levantadas sem saber bem onde pôr, o coração apertado com a dor na voz dele, percebendo que o rapaz calmo e reservado que conhecia escondia um turbilhão de sentimentos muito maiores do que ela imaginava, e que naquele momento, ele precisava dela mais do que tudo. — Não me deixes… — repetiu ele, baixinho, como uma oração — Eu não sei o que faria se tu fosses embora… preciso de ti comigo… para sempre…
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