Capítulo 14 — Uma Conversa Difícil
Alguns minutos depois, a mãe de Lucas respirou fundo.
Olhou uma última vez para o filho.
— Boa noite, Lucas.
Ele apenas fez um pequeno aceno com a cabeça.
— Boa noite.
Ela saiu do quarto devagar.
Antes de fechar a porta, lançou mais um olhar para o interior daquele quarto que agora lhe parecia tão diferente.
A porta fechou-se.
O silêncio voltou.
Lucas permaneceu imóvel durante alguns segundos.
Depois caminhou até à cama.
Sentou-se na beira do colchão e olhou para uma pequena fotografia de Nina que estava dentro de uma moldura sobre a mesa de cabeceira.
Pegou nela com cuidado.
Passou o polegar pela moldura.
Sorriu de forma quase impercetível.
Em voz baixa, murmurou:
— Ninguém vai afastar-nos... Nina.
Ficou a olhar para a fotografia durante longos instantes.
Na sua mente, as palavras da mãe repetiam-se sem parar.
"Uma amizade precisa de respeito."
"Não podes fazer de uma pessoa o teu mundo inteiro."
Ele fechou os olhos por um instante.
Parecia querer afastar aqueles pensamentos.
Depois pousou cuidadosamente a fotografia sobre a mesa de cabeceira e deitou-se.
Mesmo deitado, continuava a olhar para a moldura.
O sono demorou a chegar.
...
No andar de baixo...
A mãe entrou lentamente na sala.
O pai desligou a televisão ao ver a expressão preocupada da esposa.
— O que aconteceu?
Ela sentou-se ao lado dele.
Demorou alguns segundos antes de responder.
— Precisamos de conversar sobre o Lucas.
O homem franziu a testa.
— Ele fez alguma coisa?
Ela abanou a cabeça.
— Não... mas descobri uma coisa no quarto dele.
O pai ficou atento.
— O quê?
A mulher respirou fundo.
— O quarto inteiro está cheio de fotografias daquela rapariga de quem ele falou hoje... a Nina.
O pai pareceu confuso.
— Fotografias?
— Muitas.
Ela continuou, ainda abalada.
— Há fotografias nas paredes, anotações sobre aquilo de que ela gosta, recordações da escola... tudo muito organizado. Parece que ele dedica uma parte enorme da vida dele a pensar nela.
O homem permaneceu em silêncio.
A mãe baixou os olhos.
— Nunca o tinha visto assim.
— Falaste com ele?
— Sim.
— E o que ele disse?
— Disse apenas que ela é amiga dele.
O pai cruzou os braços.
— Mas tu achas que é mais do que isso?
Ela assentiu lentamente.
— Acho que ele está demasiado preso a essa ideia. Não me parece que perceba bem os próprios sentimentos.
O pai ficou alguns segundos calado.
Depois perguntou:
— Ele pareceu zangado por teres descoberto?
— Não.
— Ficou na defensiva?
— Também não.
Ela respirou fundo.
— Pareceu... perdido.
O homem olhou para o chão.
— Talvez ele nunca tenha aprendido a lidar com estes sentimentos.
— Foi exatamente isso que pensei.
A mãe segurou a mão do marido.
— Não quero castigá-lo.
— Nem eu.
— Quero ajudá-lo antes que isto se torne um problema maior.
O pai fez um pequeno aceno.
— Amanhã vou conversar com ele com calma.
— Sem gritos.
— Claro.
Ele olhou para a esposa.
— O Lucas sempre foi muito fechado. Talvez agora seja a altura de o ouvirmos mais do que falarmos.
Ela concordou.
Os dois permaneceram em silêncio.
Lá em cima, Lucas tentava adormecer.
Lá em baixo, os pais começavam a perceber que o filho precisava de ajuda para aprender a construir relações saudáveis, antes que a intensidade dos seus sentimentos acabasse por o isolar ainda mais.