Mais perto

1833 Words
📖 Capítulo 4 — Mais Perto Na manhã seguinte, o despertador tocou exatamente às seis horas. Lucas abriu os olhos no mesmo instante, como se já estivesse acordado antes mesmo do som começar. Não precisou esperar nem um segundo toque, nem se virou na cama mais uma vez — abriu os olhos e já estava desperto, com a mente já a trabalhar no que ele mais queria: ver ela outra vez. Levantou-se devagar, arrumou os lençóis com uma perfeição que quase parecia obsessiva, alisando cada canto até que não houvesse nem uma única ruga no tecido. Foi até o banheiro, lavou o rosto com água fria, penteou o cabelo tantas vezes até que cada fio ficasse exatamente no lugar que ele queria, vestiu o uniforme com todo o cuidado e conferiu no espelho se estava tudo perfeito, como se estivesse se preparando para algo muito mais importante do que apenas ir às aulas. Depois de se trocar, desceu as escadas devagar, sem fazer barulho nenhum, e foi até a cozinha tomar café. Sua mãe já estava ali, mexendo no fogão, e virou-se quando ele entrou. — Dormiu bem, filho? — Sim. Muito bem. — Está animado para a escola hoje? — perguntou ela, notando como ele já estava sentado à mesa antes mesmo de ela terminar de colocar a comida. — Sim. Ela sorriu, colocando uma xícara de leite quente e um prato com pão na sua frente. — Faz tempo que não te vejo responder tão rápido assim. Geralmente você nem fala nada antes de tomar o primeiro gole. Lucas apenas pegou uma fatia de pão e passou devagar a manteiga, sem deixar transparecer nada do que sentia por dentro. Seu pai entrou na cozinha nesse momento, ajeitando a gravata no pescoço, com o ar de quem já estava com pressa. — Hoje vou chegar bem tarde do trabalho. Tem uma reunião que n******e esperar. — Certo. — respondeu Lucas, sem parar de mastigar. — E você? Ainda tirando aquelas notas todas boas? Nenhuma reclamação? — Sim. Continuam boas. — Ótimo. É assim que se faz. Não deixe nada atrapalhar os seus estudos. Ele apenas concordou com um movimento leve da cabeça, terminou o café rapidamente, lavou a sua própria xícara e guardou tudo no lugar, como sempre fazia. Poucos minutos depois, pegou a mochila que já estava pronta desde a noite anterior, conferiu se tinha tudo o que precisava e saiu de casa. Enquanto caminhava pela rua até a escola, com os passos calmos e certos, um único pensamento ocupava toda a sua mente, repetindo-se sem parar como uma canção que ele não queria esquecer: "Hoje vou conversar com ela de novo. Vou falar mais do que ontem. Talvez ela sorria para mim outra vez... talvez ela me olhe como olhou ontem." Cada passo que dava era um passo mais perto dela, e ele sentia o coração bater mais forte só de pensar nisso. Naquele mesmo horário, bem longe dali, na casa de Nina, a história era bem diferente. Ela descia as escadas correndo, uma das mãos a segurar a alça da mochila e a outra a tentar prender os cabelos que teimavam em cair na frente do rosto. — Mãe! Eu acordei atrasada! A aula já vai começar! — gritou ela, quase tropeçando no último degrau. A mãe dela estava na cozinha, rindo baixinho ao ver a filha toda agitada. — Eu percebi, minha filha. Já te chamei três vezes. — Cadê o meu lanche? Não posso chegar sem comer nada! — Está aqui em cima da mesa, embrulhado direitinho como você gosta. Nina pegou o sanduíche com uma mão, deu um beijo rápido na bochecha da mãe e saiu correndo porta fora. — Tchau mãe! Até a tarde! — Vai com cuidado! Não corra tanto na rua! — gritou a mãe, mas ela já tinha saído, acenou sem olhar para trás e seguiu caminho o mais rápido que podia. Quando chegou à escola, Lucas já estava sentado na sua carteira, como sempre, com as mãos pousadas sobre a mesa e o olhar fixo na porta da sala, esperando. Ele não olhava para ninguém, não falava com ninguém, só esperava por ela. Alguns segundos depois, a porta abriu-se e ela entrou. O sol vinha atrás dela, fazendo com que parecesse que ela brilhava um pouco mais do que todas as outras pessoas. — Bom dia para todos! — cumprimentou Nina com aquele sorriso que parecia iluminar todo o lugar. Ao passar perto da carteira de Lucas, ela parou de repente, virou-se para ele e sorriu outra vez. — Bom dia, Lucas! Você chegou cedo de novo, viu? Ele levantou os olhos devagar, encontrando os dela, e sentiu como se todo o resto do mundo tivesse desaparecido ali. — Bom dia. Sempre chego cedo. — Nossa... eu nunca consigo! Hoje quase fui atrasada de novo! — disse ela dando uma pequena risada, balançando a cabeça como se estivesse zangada consigo mesma por sempre se atrasar. Depois seguiu para a sua carteira, mas Lucas acompanhou cada passo dela com o olhar, até que ela se sentou e abriu o caderno. Um pensamento encheu a sua cabeça de alegria: "Ela falou comigo primeiro. Ela lembrou de mim antes de falar com qualquer outra pessoa." As aulas seguiram normalmente, mas para Lucas nada parecia normal — cada minuto que passava sem ele falar com ela parecia durar uma eternidade. Durante a explicação de matemática, ele olhou de vez em quando para ela e viu que ela franzia a testa, olhando para o quadro com uma expressão completamente perdida, como se as letras e os números não fizessem sentido nenhum. Ela mordia levemente o lápis e mexia nos fios do cabelo, tão concentrada em tentar entender que nem percebia que ele a observava. A professora percebeu que ela não estava a entender nada e aproximou-se da sua carteira. — Nina, conseguiu entender o que expliquei até agora? Ela sorriu sem graça, baixando um pouco o olhar. — Mais ou menos... acho que me perdi na parte das contas. Alguns colegas riram baixinho, como se achassem que era fácil demais e que ela devia ser muito burra por não entender. Lucas sentiu uma raiva súbita crescer dentro de si, mas não deixou aparecer nada no rosto — levantou a mão devagar, com toda a calma do mundo. — Professora. Posso explicar para ela depois da aula? Eu já entendi tudo direitinho. A professora sorriu para ele, satisfeita. — Claro que pode, Lucas. Você costuma explicar muito bem, melhor do que muitos de nós. Nina virou o rosto imediatamente para ele, com os olhos arregalados de surpresa e alegria. — Sério? Você faria isso mesmo? Não vai dar trabalho nenhum? — Não. Vou explicar. — respondeu ele, com a voz calma como sempre. Ela abriu um sorriso enorme, tão brilhante que quase o deixou sem ar. — Muito obrigada! Você é muito bom! Quando o sinal tocou para o fim da aula, quase todos os alunos saíram correndo da sala, falando alto e empurrando-se uns aos outros, mas Lucas permaneceu sentado no seu lugar, esperando. Nina aproximou-se devagar, carregando o caderno aberto e o lápis na mão, um pouco envergonhada. — Então... essa parte aqui que eu não entendi de jeito nenhum. Colocou o caderno sobre a mesa dele, e Lucas puxou uma folha em branco e uma caneta. Começou a explicar cada passo da conta com uma calma e uma paciência que ele nunca tinha mostrado para ninguém, falando baixo para que só ela ouvisse, mostrando cada número, cada sinal, cada regra como se estivesse a ensinar algo muito simples. Nina prestava toda a atenção do mundo, às vezes inclinando a cabeça para o lado, franzindo a testa quando ainda não percebia, e ele repetia tudo outra vez devagar, sem nunca se impacientar nem uma única vez. — Ah... agora sim! — disse ela de repente, arregalando os olhos e batendo levemente na própria testa. — Agora fez todo o sentido! Eu não percebi que tinha que dividir primeiro! Lucas apenas acenou com a cabeça. — Era só dividir primeiro. O resto é fácil. — Eu pensei que era muito mais difícil! — riu ela, soltando o ar que tinha prendido. — Acho que às vezes complico as coisas sem perceber, né? Pela primeira vez em muito tempo, um pequeno sorriso quase apareceu no rosto de Lucas — foi tão discreto, tão rápido que desapareceu no mesmo instante, como se ele tivesse medo de deixar ela ver o quanto aquilo significava para ele. Nina não percebeu nem um pouco. — Obrigada mesmo, Lucas. Você salvou o meu dia! — Não foi nada. Ela fechou o caderno devagar, olhando para ele com gratidão. — Sério... você explica melhor do que alguns professores mesmo. Ele ficou calado, sem saber muito bem o que responder, mas sentiu o coração bater mais forte dentro do peito. — Se eu tiver dúvida de novo... posso perguntar para você a qualquer hora? Mesmo que não seja de matemática? Lucas respondeu sem hesitar nem um segundo, como se tivesse esperado a vida toda para ouvir aquela pergunta. — Pode. Sempre que precisar. Ela sorriu satisfeita, guardando o caderno na mochila. — Então está combinado! Muito obrigada outra vez! Os dois saíram da sala juntos, caminhando lado a lado pelo corredor cheio de gente. Mas antes que pudessem andar muito mais, uma colega de turma chamou Nina do outro lado do corredor. — Nina! Vem cá! Quero te contar uma coisa que aconteceu ontem! — Oi! Já vou aí! — gritou ela de volta, virando-se para Lucas rapidamente. — Já volto, tá? Espera um bocadinho? — Tudo bem. Ela correu até a amiga, e as duas começaram a conversar animadas, rindo alto e falando umas com as outras como se fossem amigas há anos. Lucas ficou parado alguns passos atrás, observando-a em silêncio, sem se mexer nem um milímetro. Ela ria tanto, sorria tanto... e fazia isso com tantas outras pessoas. Um pensamento frio e desconfortável surgiu na sua cabeça: "Ela sorri para muitas pessoas... sorri para todos como sorri para mim. Será que eu sou especial para ela? Ou sou só mais um entre tantos outros?" Aquele pensamento ficou ali, pesado e escuro, mas logo em seguida outro pensamento veio para acalmá-lo: "Mas hoje... ela sorriu para mim primeiro. Ela pediu para eu esperar. Ela quer falar comigo. Isso é diferente." Ele continuou ali parado, observando cada movimento dela, cada risada, cada gesto. Sem que ninguém percebesse, cada palavra que ela dizia, cada sorriso que ela dava, cada pequeno detalhe fazia com que ela ocupasse um espaço cada vez maior dentro dele, tornando cada vez mais difícil separar o que era apenas uma amizade do que era uma obsessão que crescia a cada segundo, a cada olhar, a cada vez que ela pronunciava o seu nome. E ele não queria que aquilo parasse nunca — pelo contrário: ele queria chegar cada vez mais perto, até que não houvesse mais espaço entre eles.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD