Anatomia da Mentira
Ele me tomou ali mesmo. De pé. Contra a parede. Com uma mão no meu quadril e a outra no meu pescoço, os dedos apertando os lados da minha garganta com pressão suficiente para me lembrar que ele podia mais.
E eu, envergonhada, jorrei, suave, mas senti sair.
Jorrei, com o nome da minha irmã nos lábios dele, com o cheiro de almíscar e dinheiro e metal me sufocando, com as coxas tremendo e a testa pressionada contra o papel de parede que custava mais do que eu ganhava num mês.
Sabendo que era errado. Que era doentio. Que eu estava traindo algo em mim mesma — algo que sempre repudiou a ideia de submissão, de posse, de ser reduzida a um corpo que obedece.
Mas ali, naquele quarto, eu não era uma pessoa. Eu era um corpo.
A luz da manhã entrava impiedosa pelas frestas da cortina de linho cru.
Abri os olhos devagar. O lençol de seda escorregou pelo meu peito nu, revelando a marca roxa e desigual que Carlo havia deixado na minha clavícula. Meu corpo inteiro doía de uma forma que não era apenas física; era uma dor de alinhamento, como se meus ossos tivessem sido desencaixados e colocados de volta no lugar errado.
Sentei-me na beira da cama. Meus pés afundaram no tapete felpudo, e a vergonha subiu pela minha garganta, quente e ácida.
Eu sempre tive relacionamentos normais.
Sexo consensual, igualitário, sem essas coisas de dominar e ser dominada. Eu nunca entendi mulheres que gostavam de ir mais a fundo na busca de um prazer extremo... "Isso é perigoso", eu pensava. "É desnecessário."
Mas quando Carlo apertou meu pescoço, ontem — me fazendo inclinar a cabeça pra trás — quando eu senti que não podia respirar, meu corpo respondeu. Eu fiquei completamente encharcada de prazer, sentindo cada músculo pulsar. E eu fiquei horrorizada.
Foi só o medo, disse a mim mesma. Foi só a adrenalina. Eu não gosto disso. Isso não é normal.
Caminhei até o espelho do banheiro de mármore e encarei o reflexo.
O rosto de Vanessa me encarou de volta. A mesma boca cheia, o mesmo nariz delicado, os mesmos olhos azuis. Mas a alma por trás da íris estava errada. Eu estava muito... calma. Muito serena. Vanessa nunca olhava para o espelho com aquela paz passiva.
Respirei fundo, fechando os olhos por um segundo. Não reclame. Apenas ajuste.
Ergui o queixo um centímetro. Relaxei os ombros, forçando-me a não curvá-los para frente como eu fazia a vida toda para parecer menor. Vanessa ocupava o espaço. Vanessa exigia que o ar ao redor dela pedisse licença.
— Você está demorando.
A voz veio da porta. Não houve batida. Carlo nunca batia.
Meu coração deu um solavanco, mas meu rosto não mudou. Virei-me lentamente, apoiando os quadris na bancada de mármore frio, cruzando os braços sob os s***s.
Carlo estava encostado no batente. Vestia apenas uma calça de alfaiataria preta, sem cinto, a camisa branca aberta revelando o peito e cicatrizes que um bilionário de capa de revista não deveria ter. Ele segurava uma xícara de porcelana. O cheiro de almíscar e metal invadiu o banheiro, e meu ventre contraiu em uma memória involuntária da noite anterior.
Corpo traidor.
— O café esfriou — ele disse, a voz rouca, os olhos escuros varrendo meu corpo nu sem pressa, sem pudor.
— Eu não pedi café — respondi. Minha voz saiu suave, natural. Erro. Vanessa teria dito: Você acha que sou sua empregada? ou Traz logo essa porcaria.
Forcei um sorriso preguiçoso, inclinando a cabeça. — Mas já que você trouxe...
Caminhei até ele. Meus passos eram leves. Eu sempre andei como se pedisse desculpas por estar pisando no chão. Tive que me forçar a pisar com o calcanhar primeiro, com mais peso, com mais arrogância.
Peguei a xícara. Nossos dedos se roçaram. A mão dele era quente, calejada. A minha estava perfeitamente firme.
Carlo não tirou a mão. Ele deixou os dedos roçarem os meus, observando meu rosto.
Estou tremendo? Não. Eu estava calma. Minha passividade natural estava me entregando. Vanessa era ansiosa. Vanessa tinha a mão trêmula de quem bebe três taças de vinho antes do meio-dia.
Para disfarçar, dei um gole no café. Estava preto. Amargo. Forte. Vanessa tomava café com leite de amêndoas e três sachês de adoçante. Eu, acostumada com o café barato e queimado da copa do meu antigo escritório, não fiz careta. Engoli, deixando o líquido queimar minha garganta.
Carlo me observou. Apenas isso. Não disse nada sobre o café. Não disse nada sobre minha reação. Apenas observou, os olhos cor de mel brilhando com algo que não consegui decifrar.
— O Senador Alencar ligou de manhã — ele disse finalmente, o tom de conversa perfeitamente casual.
Meu cérebro travou. Senador Alencar. O nome não estava em nenhuma das revistas de fofoca que eu havia lido para me preparar.
Mas eu não podia gaguejar. Não podia perguntar "quem?".
— E? — murmurei, dando de ombros, mantendo o tom de tédio absoluto. — Ele quer que o quê? Te amolar como sempre?
Carlo soltou um riso baixo. Não foi um riso de diversão. Foi um som de avaliação.
— Ele quer que eu faça a amante dele desaparecer antes que a esposa legítima volte de Davos. — Carlo deu um passo à frente, encurralando-me contra a bancada. — Achei que você gostaria de ir comigo hoje. Ver como a mágica acontece.
O ar fugiu dos meus pulmões.
Desaparecer.
Ele não era um empresário de investimentos. Ele era um limpador. E ele estava convidando sua "esposa" para assistir a um crime.
Minha mente gritou para eu recuar, para eu chorar, para eu implorar. Mas a minha natureza passiva assumiu o controle. Eu não reclamei. Eu não entrei em pânico. Eu apenas processei.
— Que horas? — perguntei, a voz saindo mais fria do que eu pretendia.
Carlo me estudou. Havia uma curiosidade predadora ali. Ele estava esperando a histeria.
— Ao meio-dia — ele disse, desviando o olhar para o meu pescoço. Ele ergueu a mão e traçou a linha roxa que ele mesmo havia feito na noite anterior. — Sabe, amore... ontem à noite, quando eu te peguei contra a parede...
Ele inclinou-se, os lábios roçando a minha orelha. Eu parei de respirar.
— Você estava tão molhada. Tão submissa. — A voz dele era um sussurro rouco. — Você sempre é tão teimosa...
Ele apertou levemente a marca roxa. Um arrepio desceu pela minha espinha.
— Mas hoje... — ele sussurrou. — Você empurrou o quadril para trás. Você pediu mais...
Meu sangue gelou.
Ele recuou um passo, os olhos fixos nos meus. Deu um sorriso de canto e virou-se em direção à porta.
— Tome banho. O motorista espera às nove. E use o perfume novo. Aquele frasco de vidro preto que você comprou em Milão.
Ele saiu.
Fiquei sozinha, o coração batendo tão forte que doía nas costelas. Olhei para a penteadeira. Havia quatro frascos de vidro preto.
E eu não fazia a menor ideia de qual deles era o de Milão.