A música das formigas título

1256 Words
Noah chegou ao aeroporto de Recife com a sensação de que aquela viagem tinha durado apenas alguns minutos, pensou nela. No jeito delicado com que Anne olhava para tudo o que ninguém mais via. Se lembrou de uma vez em que passaram horas observando uma trilha de formigas que parecia interminável. — O que estamos esperando, Anne. Ela parecia controlar a própria respiração para não atrapalhar aqueles insetos que para Noah não tinham nada de extraordinário. Respondeu baixinho. — Você não está escutando? É uma música sem som, elas são tão pequenas e nunca erram, não se perdem, sabem para onde estão indo. Igual você. Eles tinham entre treze e catorze anos e ele não entendeu, ficou ofendido. Noah era muito magro naquela época, pensou que fosse uma comparação maldosa. — Não devia falar essas coisas. Ela pegou um graveto e passou na terra. Ainda encantada com as formigas, quase como se não ouvisse o que o amigo estava dizendo. — Olha, elas seguem o invisível porque sabem quem são. É bom saber quem você? Um colega dele se aproximou chutando a terra no rosto da menina, pisando sobre os insetos. — O que está fazendo com essa retardada? Vamos, o Dylan está esperando você. Dylan era o responsável pelos treinamentos, um soldado duro, que não aceitava atrasos, nem perdoava deslizes. Ele sabia que pagaria caro, mas escolheu ficar. Limpou o rosto da amiga, passou a mão devagar a terra se misturou com uma lágrima. Ela estava olhando para as formigas, não estava chorando por si, era por elas. Mas Noah se perdeu na beleza dela, sentiu tanta vontade de beijar aquela menina. Abraçou a amiga e quando Anne se acalmou ele tentou levá-la para casa. — Solta! Eu não gosto dessa mania de ficar me abraçando! — Des... desculpa. Você tava chorando! Noah queria ter sido diferente, talvez se tivesse entendido o que a fascinava naquelas coisas pudesse ser para Anne a pessoa a quem ela procuraria quando estivesse perdida. Mas era o oposto, quando algo a feria era quando a menina o empurrava para mais longe. Lembrou de uma coisa que a mãe disse ainda no aeroporto. — Eu amei o seu pai, tanto que até me perdia, ainda assim eu neguei, machuquei, afastei, traí e tudo por medo. E foi aquele nerd que me ensinou a amar, e se tem uma coisa que eu sei ver é isso. Aquela menina te ama, Fedido. Endireitou a postura, e quase correu para o resort em que a namorada deveria estar. Passou por um caminho cheio de pedriscos e sorriu pensando que Anne devia estar amando aquele lugar, era repleto de coisas para olhar, músicas sem som para ouvir. Mas assim que levantou o rosto percebeu uma movimentação estranha, Tank segurava o braço das pessoas parecia desesperado. Nick o seguia de um lado para o outra tão perdido quanto o atual marido de Dállia. Nenhum homem faria aquilo na própria viagem de núpcias se algo não tivesse saído de controle. Engoliu seco, sentiu tanto medo abriu os dedos. A bolsa caiu junto com as esperanças. Ouviu de Nick o que tinha acontecido. — Como chegou tão rápido? Noah continuou em silêncio. — Acabamos de avisar o Endi que a Anne fugiu, ele te mandou certo? Vou conseguiu um computador para você! Nick correu para a recepção do resort. Arrancou um notebook na mesa sem pedir permissão, mas quando voltou. Noah estava sentado em um sofá do hall completamente focado nas imagens e códigos que apareciam na tela. — Aqui! Foi simples, Anne tinha saído arrastando uma mala de rodinhas pela areia da praia, o nariz vermelho os cabelos bagunçados e um boné. Como se aquilo o impedisse de reconhecer a menina. Era quase infantil, reconheceria a silhueta da namorada até pelo barulho que o vento fazia em torno daquele corpo. Saiu correndo, roubou uma motocicleta. Ligou a moto tão rápido que qualquer pessoa acharia que ele era o dono. Acelerou pelas vielas estreitas, as pessoas se afastavam assustadas, ninguém nunca estava com pressa naquele lugar. Mas ele estava. Os olhos queimavam por causa do sal que parecia pertencer ao ar daquele lugar. O peito doía. — Ah, corujinha! Não freou direito. Nem pensou em parar com calma. Saltou da moto com ela ainda em movimento. O metal raspou no chão soltando faíscas. Ele não se importou. Anne estava ali. Sentada num banco qualquer, perto de uma igreja. Sozinha. Com os joelhos ralados e os olhos perdidos no chão. Foi o que ele viu muito antes de se aproximar. Ela se encolheu com o barulho, mas quando o viu pareceu não acreditar que fosse real. Ele parou. Não falou nada. A primeira coisa que ele olhou foram nos lábios cortados, ela fazia aquilo quando estava nervosa, mordia sem perceber, aos poucos, no mesmo lugar, até que a pele cedia e o sangue brotava. Mesmo assim ela não parava. Quantas vezes já tinha sentido gosto de sangue naquela boca. E em todas ele se perdia sem ter ideia do que fazer. — Noah? Sentou no chão, de frente pra ela. Nem se importou com as pedras, com o joelho que começou a sangrar. Não importava. — Por que, corujinha? Quase me matou, sabia? Anne evitou o olhar do rapaz. Mordeu o canto da boca com mais força. Ele sentiu o corpo todo arrepiar, uma mistura de raiva e desespero que não podia colocar para fora sem acabar piorando tudo. — Porque eu não sei mais ficar, não aguento, mais. — Eu teria ido com você. — Eu não quero levar ninguém. Ele fechou os olhos. Tentou não explodir. — Você é uma droga, sabia? É perfeita, me leva para o céu e me quebra no meio logo em seguida. Mesmo assim que não sei mais ficar sem você. Por que você fica com essa cara linda fingindo que não enxerga que eu te amo, Anne? Ela demorou até conseguir responder, nunca tinham brigado, ele nunca tinha falado alto daquele jeito com ela. — Eu... eu não fingo. Eu só não sei o que fazer com alguém que fica. — Aprende! Porque eu não vou embora, Anne! Eu não vou entendeu? Ela baixou a cabeça. Colocou a unha do polegar entre os dentes. — Me desculpa. — Vem, vamos para casa? — E se eu cair de novo? — Eu caio com você. Mas pelo menos, cai comigo. — Não posso, Noah. Eu não quero a gente. Você quer promessas de futuro e eu não sei lidar nem com os meus joelhos. — Eu não quero promessas. Eu quero você! E a gente vai parar com essa besteira hoje. Vamos voltar para aquele hotel juntos e assim que o seu pai chegar eu vou dizer para ele que amo a filha dele, entendeu? O rapaz estava jogando todas as cartas na mesa. Acreditou no que Lis havia dito e se Anne realmente o amava ela cederia. — Chega Anne! Ou é assim ou não é mais. Não vou passar a vida inteira escondendo o que eu sinto como se fosse um erro. Você não é um erro! É a minha corujinha. Eu quero você, pra sempre. Ela também queria. Muito. Mesmo assim a resposta foi outra. — Então não é mais. A única coisa que nenhum dos dois sabia é que decisões tomadas no calor das emoções levam a arrependimentos terríveis, dores lastimáveis e consequências piores ainda. E não demorou, estavam no Texas a menos de três horas quando Noah pegou uma caixa de suco e entrou na mata.
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