Garrett
Sai do banheiro me sentindo inquieto, como se alguma estivesse borbulhando dentro de mim e prestes a sair pra fora. Uma vontade de sair batendo, xingando e quebrando tudo. Eu estava com raiva, muita raiva, ou melhor eu estava com ódio. De mim por ter falado todas aquelas asneiras para Ashlyn e dela por ter me acusado. Que bosta cara!
Eu sabia que a minha fama não era das melhoras e realmente ela me pegou numa situação totalmente acusadora, eu sabia que ela tinha razão em pensar algo errado, mas d***a e tudo o que eu fiz pra ela? Todas as coisas que eu contei, eu me abri pra ela, a única pessoa que sabe tanto assim da minha vida é o meu primo. Por que ela não priorizou isso?
- Por que ela é mulher Grahan. - respondi pra mim mesmo. - E as malditas garotas só acreditam naquilo que veem, não no que você fala pra elas! - bufei.
- Ta maluco cara? Falando sozinho! - um rapaz me olhou.
Olhei de cara f**a pra ele, e o cara se retraiu na hora, provavelmente me reconhecendo. De punhos cerrados continuei andando e resolvi ir embora daquela d***a de festa. Se eu ficasse ali com o mau humor que eu estava ia acabar explodindo com o primeiro que viesse falar comigo.
Aproveitei que ainda tinham pessoas chegando na festa e entrei em um dos táxis. Eu sabia que tinha uma coisa que ia me acalmar e estava indo atrás dela naquele momento.
Ashlyn
Cheguei ao alojamento da faculdade, subi e fui direto pro meu quarto. Assim que deitei na cama, comecei a chorar de novo. Abri a gaveta e peguei meu porta joias de lata, quando abri a tampa, vi os anéis de chaveiro e os bilhetes que os tinham acompanhado algumas vezes.
- Mentiroso! - fechei a lata e joguei no chão.
Fechando os olhos eu conseguia me lembrar dos nossos momentos juntos. A tentativa fracassada de Garrett de me ensinar a dar estrela, nosso primeiro beijo minutos depois. Ele me contando sobre Lucky e seu desafio pra eu fazer uma tatuagem, seu jogo das 21 perguntas, nossas provocações, os amassos.
- d***a! - gritei jogando o travesseiro longe, era coisa demais pra lembrar e quanto mais eu lembrava, mais doía. - Por que você estragou tudo? Eu acreditei que você mudou, era em você que eu estava pensando quando terminei com o Adam, no fundo fiz isso pra ficar com você. - confessei pra paredes.
Meu coração doía como se uma mão o estivesse apertando a ponto de me sufocar. Eu nunca pensei que sofrer por uma pessoa pudesse doer tanto. Só quando meus pais morreram eu senti uma coisa assim. O duro é que não tinha chances dessa dor diminuir, não estudando na mesma faculdade que ele, não trombando com Garrett o tempo todo. Eu ia morrer quando o visse aos beijos com outra, a segunda vez eu sabia que seria pior, porque não haveria a menor chance de ser um m*l-entendido.
Pela primeira vez desde que cheguei há um mês eu desejei ir embora.
Adam
Avistei o grupo onde Hilary e Scarlet estavam. Ver Benjaminn e aquele outro baitola se pegando me fez sentir repulsa. Por que eles não respeitavam às pessoas a volta deles? Ninguém era obrigado a presenciar dois machos se pegando, será que eles não percebiam o quanto isso era nojento?
E aquele professorzinho agarrado à Hilary era outro s*******o. Ele não via que aquilo era uma festa para os alunos? Que ali não era lugar pra professor? Na certa ele devia se aproveitar que estava comendo uma aluna pra espionar o restante dos estudantes. Eu estava curioso para saber quanto tempo esse romancezinho ia durar.
- E ai galera? - me aproximei mesmo detestando todo mundo daquele grupinho.
Scarlet foi a primeira a se virar, ela revirou os olhos ao me ver. Dane-se, internamente revirei os olhos pra ela também. Só tinha uma pessoa que me interessava e curiosamente ela não estava ali.
- Cadê a Ash?
- Foi pra casa. - Hilary respondeu de supetão e em seguida cobriu a boca com ambas as mãos, Scarlet na mesma hora a encarou de cara f**a. - Quer dizer...
- Já entendi, ela não está aqui, beleza. Se não está aqui eu não tenho que fazer aqui. - sorri e dei as costas.
Ignorando os olhares atravessados que recebi, fui embora. Então Ashlyn não estava na festa? E sim sozinha no apartamento?
Não sei porque ela desistiu de ficar, mas a ideia que eu tive me fez agradecer.
Garrett
Cheguei ao meu prédio e nem sequer entrei no apartamento, fui direto para o estacionamento. Suspirei aliviado quando vi minha Ducati ai me esperando.
- Pelo menos você eu ainda tenho. - acariciei o tanque.
Sem perder tempo subi, coloquei o capacete que estava apoiado em um dos guidões e liguei a moto. Sai acelerando do estacionamento, a adrenalina começando a correr pelas minhas veias me acalmando.
O vento gelado da noite pareceu provocar em mim o mesmo efeito. Enquanto eu cortava os carros e passava entre corredores estreitos, a raiva em mim começou a diminuir. O rosto dela veio à minha cabeça e acelerei a moto como se com isso eu estivesse esbravejando com ela, extraindo de dentro de mim toda a raiva que eu sentia.
Nós dois tínhamos feito m***a, eu por ter feito ela acreditar em uma mentira e ela por ter duvidado de mim. Eu não tinha ideia do que ia acontecer agora, mas sentia que alguma coisa tinha se quebrado e talvez nunca mais voltasse a ser como antes.
Ashlyn
Não sei por quanto tempo dormi, mas acordei com o som da campainha tocando. Suspirando, afastei os travesseiros - onde eu tinha me embolado - pra longe e me arrastando fui até a porta. Quem poderia ser àquela hora? Será que algum aluno tinha ficado em casa e batera ali em busca de companhia?
Quando cheguei na porta parei com medo de ser Garrett. Será que ele viera atrás de mim? Não, provavelmente não depois de me dizer aquelas coisas. Respirei fundo e a abri.
- O que ta fazendo aqui? - encarei Adam, ele era a última pessoa que eu esperava ver na minha frente.
- Eu trombei com suas amigas na festa e elas me disseram que você tinha vindo pra casa. Fiquei preocupado e resolvi passar aqui pra ver se tava tudo bem. - respondeu dando de ombros. - Posso entrar?
Encarei Adam sem saber se era uma boa ideia deixar ele entrar ou não.
- É melhor não, ta tarde e...
- Ash, por favor, só quero entrar e conversar um pouco. - ele sorriu.
Mordi o lábio inferior pensando se era uma boa ideia. Lembrei das palavras dele e não gostei de ter que assumir que ele tinha razão. Que mesmo sem saber que Garrett e eu estávamos juntos ele tinha acertado.
- Entra! - suspirei dando espaço pra ele. - Não se chateie, mas... Eu to cansada! - joguei a indireta.
- Dá pra ver que você não está bem, algum problema? - ele sorriu e entrou.
- Nada demais. Quer beber alguma coisa? - ofereci, meio que sem saber o que fazer.
- Na verdade eu já consegui o que queria, porque estou te vendo. - sorriu. - Fiquei com medo de encontrar você com alguém na festa da fraternidade. Na verdade ainda me surpreende ver você sozinha.
- Por que está dizendo isso? - cruzei os braços na defensiva.
- Porque você é muito linda Ash, é o tipo de garota que qualquer cara sonharia namorar e eu fui um e******o com você. Não sabe como me arrependo, se você me desse uma chance pra te mostrar que eu mudei... - ele se aproximou de mim.
Inconscientemente dei alguns passos pra trás, ele já tinha me dito as mesmas coisas outras vezes quando insistiu em voltar comigo.
- Você fala essas coisas ai, mas se esquece de como você me tratava quando a gente namorava.
- Eu sei que eu errei, mas eu to arrependido Ash, de verdade, acredita em mim, por favor.
- Olha eu to muito cansada, não acho que seja uma boa hora pra gente conversar ta legal?
- Eu só queria de verdade, que a gente desse certo. - ele se aproximou e segurou minhas mãos.
Afastei minhas mãos não querendo me deixar levar, sem contar que eu sabia que era o momento errado pra ter aquela conversa.
- Olha por que a gente não se fala outra hora? De verdade, eu to muito cansada.
Adam suspirou, assentindo e concordando comigo.
- Promete que se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, você me liga?
Assenti, mesmo sabendo que ele seria a última pessoa para quem eu ligaria.
Adam beijou meu rosto, fazendo eu me retrair toda e em seguida deu as costas. Abri a porta pra ele ir embora, forcei um sorriso e acenei antes de fechá-la. Assim que fiquei sozinha voltei para o quarto. Encarei a lata aberta jogada no chão e a peguei. O que Garrett estaria fazendo agora? Será que estava com aquela garota? Ou com outra?
Garrett
Não sei porque tinha ido parar ali, vai ver porque era minha lanchonete preferida, ou porque foi o primeiro lugar que trouxe a Asg ou porque eu precisava extravasar minhas frustrações de uma outra forma, que envolvia uma garota. No caso a Dani, uma das garotas na categoria “t*****r de vez em quando”.
Olhei o relógio no painel da moto, já passava da meia-noite, então provavelmente o turno dela estava acabando e ela estava saindo. Fiquei sentado no banco esperando a porta dos funcionários se abrir e ela sair. Quando isso aconteceu observei Dani se despedir dos amigos, ela estava distraída e não me viu.
Eu sabia o que ia acontecer, passo a passo. Como das outras vezes eu ia descer da moto e caminhar até ela. Ao me ver, ela iria sorrir toda derretida e sem pensar duas vezes subiria na minha garupa. Eu a levaria pro apartamento e transaríamos pelo restante da noite. No dia seguinte, assim como as outras, ela iria embora logo de manhã, talvez depois de beliscar alguma coisa como café da manhã.
Mas nessa noite foi diferente. Antes que ela me visse eu abaixei a viseira do capacete, liguei a moto e sai acelerando, sem olhar pra trás. Por que fiz isso?
Porque nada vai fazer Ashlyn sair da minha cabeça e pela primeira vez na vida eu me importei com uma garota. E a Dani não merecia que eu a usasse numa tentativa de esquecer Ash, uma tentativa que eu sabia que iria ser um fracasso. Nenhuma garota merecia ser tratada assim, como step, como distração.
Agora além de estar me sentindo m*l pela minha discussão com Ash, eu também estava m*l pelas inúmeras vezes em que usei as garotas, em que transei com elas apenas para me satisfazer. Talvez Deus estivesse me castigando, porque a única garota que eu queria de verdade, não só praquele momento, mas provavelmente pra sempre, estava me odiando.
Quando cheguei ao apartamento a frustração tinha ganhado a raiva e estava me dominando. O apartamento estava vazio, Oliver ainda estava na festa e naquele silêncio opressor lembrei de quando trouxe Ashlyn para conhecer meu apê. Olhei o sofá na minha frente, lembrando do jeito como ela me defendeu. Talvez nunca mais haveriam momentos assim entre a gente.
Fui pro quarto, com uma dor no peito muito esquisita, que eu nunca tinha sentido antes. Deitei na cama e encarei o teto. Lágrimas quentes começaram a escorrer pelo meu rosto ao mesmo tempo em que me dei conta de que aquela sensação, de que algo tinha se partido era real e eu sabia o que era.
Ashlyn e eu nunca mais seriamos amigos, nunca mais iriamos rir juntos, nos provocar ou fazer apostas. Nada de jogo das 21 perguntas, nada de presentear ela com anéis de chaveiro e pior ainda, nada de beijos, confidências, passeios, amassos e tantas outras coisas que eu ainda queria fazer com ela. A consciência de tudo isso era o que estava provocando aquela dor no meu peito e as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Pela primeira vez uma garota estava fazendo Garrett Grahan chorar.
Ashlyn
Acordei com a voz de Hilary xingando, olhei o celular e vi que passavam das três da manhã.
- O que aconteceu? - perguntei a abrir a porta e vê-las no corredor.
- Vários alunos tiraram sarro da Hilary com o Austin, alguns foram até hostis com ele, dizendo que ele não deveria estar em uma festa só pra alunos. - Scarlet respondeu.
- Isso é um absurdo, Hilary não fica brava por isso. - a encarei.
- Eu achei que depois de três meses o povo ia superar, mas pelo jeito essas frescuras não vão acabar nunca.
- Isso é inveja, acharam que você estava com ele por interesse e agora estão tendo que engolir um relacionamento sério. Basta olhar para vocês pra saberem que se gostam de verdade. - sorri.
- Olha sinceramente, eu acho bom esse povo começar a tomar conta da própria vida. - Hilary bufou.
- Daqui a pouco aparece outra coisa pra eles fofocarem e vão esquecer você e o Austin.
- Tomara porque isso já encheu. - ela reclamou e me senti m*l por não poder ajudar.
Quando voltei pro quarto, deitei na cama e fiquei pensando. A noite não tinha dado errado apenas pra mim, mas Hilary tinha sorte por poder resolver seu problema. O mesmo não ia acontecer comigo.