Ashlyn
Garrett me conduziu até a garagem do prédio. Desacelerei meus passos quando vi ele se dirigindo até sua Ducati. Cruzei os braços e fiquei encarando enquanto ele pegava os dois capacetes.
- O que foi? - ele me olhou.
- Achei que iriamos no seu carro.
- Meu carro? - ele estreitou as sobrancelhas. - Ah não, o carro que eu fui na festa ontem é da minha mãe, o que você acha que meu pai veio fazer aqui logo cedo? - sorriu.
- Ah ta, então a gente vai nela? - apontei a moto.
- É claro, deixa eu apresentar para você o amor da minha vida. - apontou a moto. - Ducati Super Leggera laranja, mil cilindradas, modelo esportivo com 205 cavalos de potência. Utilizando materiais como titânio, fibra de carbono e magnésio, ela pesa apenas 155 quilos. A melhor em peso-potência já fabricada.
Eu não estava entendendo metade do que ele estava falando, mas a forma como ele falava de sua moto, cheio de orgulho era o que estava me fazendo adorar escutá-lo.
- O amor da sua vida é uma moto? - sorri.
- Claro, sabe quantas belezinhas dessas existem no mundo? - acariciou o tanque. - Apenas 500. Tem ideia do quanto foi difícil conseguir um modelo desses para mim? Tem noção de quantos colecionadores iam querer uma dessas?
- Você venderia?
- De forma alguma! Foi meu presente de Natal na época em que meu pai estava me agradando pra me fazer mudar de curso. Por sorte a moto ta no meu nome e ele não pode vendê-la. - sorriu. - E ai, vamos?
- Claro! Depois dessa apresentação vou me sentir honrada em andar na sua moto, quer dizer, no amor da sua vida. - sorri provocando-o.
Garrett piscou pra mim e logo se escondeu com o capacete. Coloquei o que ele me estendeu e subi. Um tanto sem jeito e com vergonha de “agarrá-lo” segurei com firmeza no banco.
Garrett virou o rosto na minha direção, com a viseira escura eu não conseguia ver seus olhos.
- Anjo, se vai andar na minha Ducati, tem que ser do jeito certo. - sua voz saiu abafada.
Virando pra frente ele puxou meus punhos até que eu estivesse com os braços entrelaçados em volta dele.
- Assim que se faz! - soltou minhas mãos e ligou a moto.
Grahan acelerou e fui obrigada a segurá-lo com mais força. Subimos a rampa da garagem e saímos a toda. Ele acelerava a moto instigando-a a correr ainda mais, acima da velocidade permitida. Em vários momentos, quando Garrett passava por corredores entre os carros, eu fechava os olhos com medo que batêssemos em alguém. Comparado a passar voando em cima de rampas e decolar metros acima do chão sem nenhuma p******o, andar no trânsito da cidade não era nada pra ele.
Chegamos à uma praça e fiquei mais tranquila quando Garrett estacionou a Ducati. Percebi a olhada de alguns rapazes e moças que estavam ali. Os rapazes admiravam a máquina que ele dirigia, as moças com certeza admiravam o preço da máquina somada a beleza do cara que a dirigia.
Tirei o capacete e ajeitei meus cabelos que com certeza tinham se armado com o vento. Antes que eu tivesse tempo de me olhar no espelho retrovisor, Garrett me puxou pela mão.
- Vem anjo.
Percebi o olhar de inveja que elas dirigiram a mim, mas não me importei. Elas que se danassem e engolissem o fato de que aquele cara bonito, dirigindo uma máquina exclusiva estava comigo.
- Vamos sentar aqui! - ele me puxou.
Sentamos na grama e encaramos o lago à nossa frente. Ao longe algumas pessoas andavam de pedalinho.
- É um lugar muito bonito aqui.
Garrett sorriu ainda olhando pro lago, olhei pra ele e percebi que a cabeça dele estava longe.
- Antigamente, acho que quando eu tinha uns 12 anos costumávamos vir aqui. Meus pais, meus tios e o Oliver. Meu primo e eu fomos criados praticamente como irmãos. Agradeço por isso.
- Eu sei como é r**m ser filha única. - forcei um sorriso.
- Naquela época não tinha tantas cobranças, meu pai ainda não tinha se decepcionado comigo. - suspirou. - A gente vivia aqui, era nosso lugar sagrado, ou no sábado ou no domingo vínhamos fazer piquenique aqui, quantas vezes usamos esse campo de grama pra jogar bola. Meu pai e eu contra meu tio e o Oli?
- Quem ganhava?
- Infelizmente meu tio e meu primo. Herdei do meu pai a falta de talento no futebol. - suspirou.
- Em alguma coisa você tinha que ser r**m. - sorri. - Eu mesma sou péssima em Geografia e História.
- Eu também, na verdade não conheço ninguém que seja bom nisso, a não ser professores. - sorriu.
Sorri de volta feliz por ele estar mais animado. Eu nunca poderia imaginar que o garoto i****a que deu em cima de mim aquele dia, era só uma casca. Garrett escondia a melhor parte de si embaixo de uma postura de espertinho, pegador e marrento que não se importa com nada.
- Bons tempos, queria voltar a ter aquele relacionamento de antes com meu pai.
Garrett pegou uma pedrinha e jogou longe na lagoa. Não gostei de ver ele triste daquele jeito.
- Sabe quando eu era criança eu adorava fazer uma coisa.
- O que? - ele me olhou com curiosidade.
- Isso aqui!
Me levantei espantando a grama do short e subi na mureta. A mesma mureta que separava a grama da parte onde tinha o lago. Apenas pra desafiar a esperteza dele perguntei:
- Você está com seus anéis de chaveiro ai?
Garrett sorriu com malícia. Do bolso da calça ele tirou dois anéis.
- Você achou que eu ia começar a esquecer né? - segurou cada um em uma mão. - Pelo encontro de ontem na festa e por hoje. - mostrou os dois.
Aquilo me fez rir, provavelmente ele tinha trazido para me entregar depois, caso não voltássemos para o apartamento.
- Eu aposto meus dois chaveiros que consigo andar nessa mureta daquela árvore até aqui e você não.
- Anjo, você vai ver que apostar comigo é uma péssima ideia. - ele sorriu ficando de pé, comemorei por dentro. - Se eu cair você leva seus chaveiros que já são seus por direito e pode me pedir o que mais você quiser, mas... Se eu não cair eu vou poder pedir o que quiser pra você, combinado? - estendi a mão.
- Combinado! - apertei sua mão com firmeza, eu queria ganhar, mas também queria perder só pra saber o que ele iria me pedir.
Garrett
Ashlyn deu as costas e começou andar sobre aquela mureta estreita.
- Olha se você cair no lago eu não vou estragar minhas roupas novas salvando ninguém, ouviu?
Em resposta ela me encarou por sobre os ombros e mostrou a língua. Gargalhei encarando a forma como ela se equilibrava dividido entre a vontade de deixar ela ganhar ou ganhar e pedir meu prêmio.
Ashlyn chegou até a árvore e foi obrigada a se virar para voltar até onde eu estava. Pisou de mau jeito com o pé esquerdo e seu corpo tombou para frente. Corri para ajudá-la com medo de que caísse no lago, mas ela se endireitou e começou a rir da minha cara, apontando o dedo pra mim.
- Sabia que você ia tentar me salvar. - gritou.
- Ah sua filha da mãe! - sorri.
Ela quis bancar a espertinha, me enganando. Ela ia ver só, agora aquela aposta era pra valer. E eu ia ganhar.
Ash chegou e a ajudei a descer. Ela passou por mim de queixo erguido. Aquilo me fez adorá-la ainda mais, mas também me fez levar aquela brincadeira a sério. Eu era extremamente competitivo e ela havia despertado meu instinto e o colocado na potência máxima.
Só pra me exibir um pouco mais, subi a mureta e andei bem mais rápido que ela. Cheguei na árvore, fiz o retorno sem problema algum e voltei até onde ela estava.
Quando desci ela estava de braços cruzados, seus lindos olhos azuis estreitados. Me lembrei de apostar mais vezes com ela. Estava linda naquela postura de perdedora indignada.
- Você perdeu a aposta e eu ainda ganhei em relação ao tempo. Fui e voltei muito mais rápido que você.
- Isso não vale, você não me disse que tinha experiência, você roubou.
- Roubei nada, você também tinha experiência. O azar foi seu em querer apostar sem conhecer seu adversário antes. Primeiro ensinamento Grahan: nunca aposte sem conhecer seu oponente muito bem!
- Engraçadinho! - ela revirou os olhos. - Mas me diz, o que você quer como vencedor?
- Um beijo de língua!
- Que? - ela arregalou os olhos, em choque.
Gargalhei quase me dobrando em dois, diante da cara de espanto dela. Parecia que eu tinha pedido para ela arrancar a roupa e pular no lago. Não que seria má ideia vê-la completamente nua, mas ela me mataria se eu fizesse uma suposição dessas. Sem contar que ela tinha namorado. Um b****a por sinal.
- To brincando!
Ok, eu estava mentindo, a parte do beijo também não era brincadeira. Eu daria qualquer coisa para beijá-la naquele momento. A ideia me agradava muito mais do que eu gostaria de admitir, mas eu também não podia dizer isso à ela.
Primeiro eu teria que convencê-la a largar o i*****l do Adam, pois, Ash não era o tipo de garota que traia a pessoa com quem está. Por mais panaca e merecedor de chifres que essa pessoa fosse.
- O que você quer então? - a pergunta dela me trouxe de volta.
- Que você almoce comigo em um restaurante.
- Ok!
- E... Que me deixe chamá-la de Emily pelo o resto do dia. - sorri.
Eu tinha que me distrair de algum jeito para não ficar pensando em nós dois nus naquele lago trocando beijos. E que melhor forma de se distrair senão provocar a garota que fazia tais pensamentos inoportunos surgirem na minha mente?
- Não, a parte da Emily não!
- Você merece por ter me enganado aquele dia. O almoço e sua mudança de nome ou o beijo de língua. - pisquei provocando-a, era o único jeito de fazer ela aceitar, se bem que no fundo eu preferia o beijo.
Revirando os olhos, ela bufou antes de concordar comigo.
- Perfeito! Quer ir almoçar agora ou mais tarde Emily?
- Depois, ainda é cedo! - ela respondeu respirando fundo.
- Toma são seus, guarde com segurança. - sorri estendendo os anéis de chaveiro pra ela.
Ashlyn sorriu guardando-os no bolso do shorts. Suspirando ela sentou na grama.
- Você falou dos seus pais, que sente falta da relação com seu pai. Eu sinto falta dos meus.
Sentei ao lado dela e deixei a curiosidade me vencer.
- O que aconteceu com seus pais?
- Eles morreram. Acidente de carro. - respondeu abaixando a cabeça.
- Desculpa eu não queria ir longe demais. - a encarei arrependido.
- Tudo bem, é que não costumo falar muito deles. - ela deu de ombros.
Segurei as mãos dela. Olhei fundo em seus olhos sentindo uma coisa diferente que não consegui explicar.
- Se quiser falar deles, eu to aqui pra te ouvir. - sorri feliz por fazer ela sorrir.
- Não tem muito o que falar. Estava chovendo, um carro veio na direção deles na contramão. Meu pai tentou frear e jogar o carro no acostamento, ele não conseguiu. - ela encarou o parque, o olhar distante e triste. - O carro dos meus pais caiu no barranco, o outro motorista capotou na pista, ninguém sobreviveu.
- Eu sinto muito. - a encarei, não sabia direito o que fazer, o que ela sentia não era algo que eu já tivesse experimentado.
- Tudo bem, dói, mas com o tempo a dor diminui, o difícil mesmo foi o primeiro mês.
- Quando foi o acidente?
- Dezembro do ano passado, foi duro passar o Natal sozinha.
- Foi quando seus amigos viajaram né? Lembro que o Oliver foi com a Scar.
- Sim, eles vieram em novembro quando conheci o Adam. Ai em Dezembro eles voltaram para passar o Natal comigo, foi quando tentaram me convencer a me mudar pra cá. Demorou um pouquinho, mas acabei vindo. - forçou um sorriso.
- Ainda bem, do contrário não teria te conhecido.
- Sim! - assentiu. - Não parece que faz só uma semana que eu cheguei e te conheci.
- Realmente parece que faz mais tempo.
- Eu odiei você. - ela riu.
- Eu também, mas não odeio mais. Até que você é uma menina legal. - sorri.
- E você não é o i****a que eu pensei. - ela devolveu, me fazendo rir.
- Mas falando sério, você trata todas as garotas como me tratou aquele dia? - estreitou as sobrancelhas.
- Digamos que a minha abordagem não varia muito além daquilo que você viu. Me desculpe se eu fui um escroto, eu não tinha ideia que você ia se comportar daquele jeito e me dar um fora.
- Você merecia por ter sido tão exibido. - sorriu.
- Tenho que concordar de novo com você. - sorri.
- Você nunca namorou sério?
- Não ligo muito pra esses lances de namoro. E sinceramente eu não vou namorar uma garota que transou com metade da faculdade e já chega querendo abrir as pernas pra mim. Não é nem pelo lance dela ter tido outros caras. Se um dia eu me apaixonasse e descobrisse que essa garota não é virgem, que transou com dez ou cinco não ia fazer diferença pra mim. O negócio é que garotas como aquela da festa ou as que me olharam quando eu cheguei, só estão afim de diversão. Não encontrei uma que se aproximou de mim sem exibir seus p****s, ou suas belas pernas. Todas elas querem t*****r comigo e depois dizer as amigas. Elas ajudam na minha boa fama? Lógico que ajudam e vou ser hipócrita se disser que não gosto da fama que eu tenho. Mas elas e eu nunca daríamos certo pra namorar. - respondi sendo o mais sincero possível.
- Então uma garota para ser sua namorada não poderia querer se exibir um pouco pra você?
- Lógico que pode, vivemos em um mundo onde as aparências chamam a atenção. Mas eu sei que nenhuma das garotas com quem me envolvi quer namorar, somos um pro outro, como posso dizer... Preenchedores de vazio.
- Preenchedores de vazio?
- Isso, elas preenchem meu vazio e eu preencho o delas com diversão. Depois cada um segue a sua vida, se um dia aparecer alguém especial para eu ou pra elas, acabou.
- Você ficaria apenas com uma garota? - ela me encarou surpresa e não entendi por quê. - Você iria se contentar em t*****r com a mesma garota, talvez, por anos?
- Se estivesse apaixonado por ela e ela por mim, com toda a certeza. O Oliver vive me enchendo dizendo que um dia vai aparecer uma garota e que depois dela eu não vou querer mais ninguém. Se isso for verdade então não vou ter problema nenhum em ser fiel à ela. - dei de ombros.
- Entendi, quando essa garota aparecer quero conhecê-la. - Ash respondeu voltando sua atenção pro lago.
Sorri. Fiquei imaginando o que ela diria ou como reagiria se eu dissesse que haviam grandes chances dela ser essa garota.