Ele me recebeu com o p*u.
Era alto, musculoso, com barba sertaneja. Exatamente como na foto. Me puxou, fechou a porta. Com dedos em garra, pousou a mão em meus cabelos, empurrando-me para baixo. Ajoelhei. Ele segurou o palmitão e espancou meu rosto. Enfiou metade em minha boca. Como não tenho amigdalas, socou fundo. Senti falta de ar. Ele retirou, socou de novo meu rosto, me enchendo de minha própria saliva.
Me colocou de pé como fantoche. Me deu tapinhas na b***a, indicando o caminho a seguir. Nada falou. Seu ap na Serra era enorme. O quarto, com paredes de vidro. Na cama, cabiam muitos.
Fui empurrado e quiquei no colchão. Ele retirou meus tênis numa rapidez de guerra, puxou meu jeans como quem descascava cana, retirou minha camisa, arregaçando a gola e me arranhando o rosto. Segurou meu pescoço, apertou, levantou, sugerindo que eu ficasse de quatro. Olhei de relance. Puxou do gavetão da cama uma cartela de camisinha e um vidro laranja de KY warming. Extra grande, ultrassensível. Me alisou a b***a, com cutucadas, como que bicando o invisível. Esguichou o KY em mim. Fechou o punho em soco e esfregou as falanges dobradas, enfiando algumas. Puxou meu cabelo com violência, cuspiu em meus olhos.
Senti que começava a me rasgar. Meus olhos lacrimejaram de prazer. Ele me estapeou. Eu, égua. Impôs seu peso sobre mim, me enterrando, se enterrando, me matando, se vivendo. Pensei que entrara até a metade. E, súbito, me perfurou por inteiro. Soltei um urro de horror delicioso. Ele...
Ele chegou ao meu ouvido. E, em nova estacada terrivelmente boa, gemeu: "Toma, viado, p**a, bicha do c*****o!"
E se pôs a desafiar a cama, que boiava, ruidosamente, levando meu cadáver satisfeito.
Desabou mais uma vez. E pude sentir seu caldo grosso, inflando dentro de mim.
Ele me deu uma gravata. E falou: "Não tá lembrado de mim, né, fessô?"
7
Chamei Lily e Dimitri para uma conversa. Eles ficaram preocupados com o meu tom na mensagem. Mas eu os tranquilizei. Disse que, por enquanto, minha voz era apenas de arrombado.
A verdade é que saí da Serra horrorizado. Depois de me deixar na cama todo do avesso, babado, melado, descabelado, como uma boneca jogada no lixo, o Palmitão foi tomar uma ducha. Eu me recompus, buscando um resto de dignidade. Catei a roupa, vesti. Me olhei nos vidros embaçados de Titanic do quarto: eu parecia uma espiga de milho depenada. Ajeitei os cabelos. Calcei os tênis. Andei pelo ap, procurando fotos, tentando identificar a raiz do Palmitão. Nada achei.
Saí correndo.
***
Narrei a história para os dois. Dimitri pedia que eu repetisse com detalhes o tamanho do Palmitão, sua envergadura, o trançado das veias. E o que eu senti. Fiquei impaciente. Porque o que me ficou daquele encontro, além de dois dias de almofada, foi o medo de que o sujeito fosse louco. Lily queria saber se no ap tinha Jacuzzi e se ele tinha fetiche com sapatão. "p**a merda, vocês não estão me levando a sério!"
Mas mudaram de expressão quando eu disse que, dias antes do encontro, o interfone lá de casa começou a tocar de madrugada. "Pronto? Quem é?..." E eu só ouvia um chiado rouco, uma respiração de meteção contida. Isso aconteceu até a véspera do encontro. Aí narrei o seguinte: Palmitão estava plantado dentro de mim, como seu eu fosse vidro de conserva, daqueles que a gente olha na prateleira do supermercado e parecem lente de aumento. Então, enquanto me dava uma gravata (o que me deixou terrivelmente desesperado, porque tenho pavor de asfixia erótica, tenho certeza de que vou morrer!), ele respirou EXATAMENTE DO MESMO JEITO! Era o meu interfone me comendo!
Lily e Dimitri arregalaram os olhos. Percebi que, por alguns instantes, suas testas enrugadas pareciam duvidar, como se fosse papo encenado de professor de Literatura. Mas um silêncio cinza tomou conta da sala, e o celular de Dimitri tocou aquela introdução de Bad Romance, que deixa a gente feliz e assustada ao mesmo tempo. Lily espirrou coca-cola pelo nariz. Dimitri gritou pra dentro e derrubou pão de queijo. Eu borrei a cueca.
***
Depois de um tempo sentados no tapete da sala, completamente mudos, enquanto um cachorro que Lily resgatara nas ruas nos farejava, o toque de Bad Romance fez meu celular caminhar, vibrando sobre o rack da TV. Nos olhamos, desesperados. Engatinhei bem devagar. O cachorro, mirando o traseiro para a parede, soltou um caldo escuro e fedido de vermes, que escorreu, formando uma figura sem olhos. Peguei o celular. E mostrei o visor: "Palmitão".
***
No dia seguinte, Dimitri, que frequentava o Centro Espírita do Padre Eustáquio, nos passou uma oração, que deveríamos entoar às dez da noite, com velas acesas. Disse que estava numa corrente de Arcanjos, que seria bom que fizéssemos parte dela, por proteção. E que os enviaria até nós. Cada um na sua casa. Mandei mensagem para Lily, com uma dúvida: "Como é que ele vai trazer os Arcanjos para as nossas casas ao mesmo tempo?" Ela respondeu que provavelmente ele pediria a Malone, seu irmão, para dividir essa tarefa com ele.
***
Dez da noite. Velas acesas. Fiz a oração. No nosso grupo, chegou um zap de Dimitri: "Abram as portas, eles vão entrar!" Assim fiz. Mas o interfone não tocou. Mandei zap: "Cadê você?" Ele respondeu que estava em casa, em oração. E que era para recebermos os Arcanjos com pensamentos positivos. Olhei as escadas escuras. Um vento encanado subia, rugindo. Fechei imediatamente a porta. Corri para o quarto. E me tranquei.
Bad Romance trincou as paredes da minha alma. Dei um pulo de horror. Era Lily: "Pelo amor de Deus, vem dormir aqui em casa!"
8
Aproximei a boca da porta do banheiro e falei que traria lanche e refri. Elas resmungaram que sim.
Olhei o corredor. Apenas alguns alunos transitavam, saindo da recuperação com cara de velório de si mesmos. Corri até a cantina. Encontrei alguns professores que vinham da sala de informática (terminavam o material didático extra que a escola exigia sem pagar pelo trabalho). Estavam exaustos, com olhos socados, como se me pedissem socorro das profundezas.
Subi. As irmãs cuidadoras do recreio faziam barreira para que as crianças pobres que estavam na escolinha, que as freiras mantinham para receberem isenção filantrópica, não se misturassem ao recreio dos alunos ricos.
Na cantina, pedi dois pacotes de pão de queijo e refrigerante.
Como se viesse de outra dimensão, Irmã Marlinda se materializou do meu lado. Segurava uma toalhinha que usava sempre para matar beija-flor. Perguntou se eu não havia visto as professoras de inglês. Claro que eu não tinha visto, imagina! Depois, juntando as mãos em prece demoníaca, disse: "O problema da Roberta já está resolvido... A família terá que fazer terapia se quiser que ela continue aqui."
"Só isso?!...", perguntei, com vontade de dar em cara de freira (quem nunca teve esse sonho de orgasmo que me julgue...).
"Só. E não se fala mais no assunto..."
Nem olhei de volta. Peguei os lances e o refri. Desci.
Irmã Lorelay vinha da capela. Tinha o rosto vermelho de choro. Chamei por ela.
...
"Oi, oi, professor..."
Perguntei se estava tudo bem, se eu podia ajudar. Ela se distanciou, movendo a cabeça em negativas.
"Não, não, professor..."
E se apressou. O grito de Irmã Marlinda a petrificou em meio passo, como uma estátua virgem.
"Lorelaaaayyy!"
Continuei a andar, fingindo não ter interesse. Um pouco mais à frente, recostei numa porta. Não ouvi nada. Mas espichei os olhos e vi Irmã Marlinda, de braços cruzados, olhando-a a meio metro. E assim ficou por segundos, um minuto, talvez três. nada falou. Irmã Lorelay mantinha a cabeça baixa.
Não fiquei para ver o resto. Já tinha visto tudo do resto.
Voltei ao banheiro. Dei toquinhos na porta. Ela se abriu. Entreguei o lanche e o refri. Elas falaram que, dando brecha, fugiriam. Sondei de novo Irmã Marlinda, que se arrastava, como a mulher da banheira de O Iluminado.
Entrei no banheiro masculino. Ouvi seus passos rondando. Olhei debaixo da porta. Os sapatos pretos estavam lá. Respirei devagar. Ela deu pancadinhas com a sola de um deles. E saiu, lenta e fatal.
Saí do banheiro. Pisei em ovos. Olhei. Nada. Bati no feminino. As duas abriram rapidamente. E correram.
Quase na portaria, interceptadas. Irmã Marlinda as congelou, com o aviso prévio esticado como muro.
Elas começaram a chorar. E ouviram: "Não adianta se esconderem no banheiro por três horas, vinte minutos e oito segundos."
***
Deixei em meu armário os diários preenchidos, com as notas da recuperação. Passei todo mundo. Dei até três pontos em um menino (o mesmo cuja cabeça o conselho de classe havia pedido, contra meu chilique, e que dois anos depois passaria em primeiro lugar em medicina). O mesmo cuja mãe me falou que a única coisa que ela esperava dele era que batesse punheta e cagasse para as freiras.
Peguei a chave do carro e me dirigi à portaria. Padre Rômulo me pegou: "Você está tão apetitoso hoje..." Era assim que falava, sempre que me encontrava de canto. Mas nunca dei bola. Achava um horror aquela abordagem, porque ele era broxante, com aquela roupa preta, o cabelo lambido e a boca recalcada.
Nunca tive a sorte de receber um olhar de raio fulminante do Padre André. Grisalho, com nariz italiano. Um sangue do bom, que eu faria em qualquer lugar. Ele, que quis em pegada sacra, de joelhos e boca cheia de Jesus.
Mas, naquele dia, me deu uma vontade estranha de provocar o cabelo lambido. E, apoiando os cotovelos no balcão, falei: "Dá um pulinho no Barro Preto de noite, atrás do Forum Lafayete..."
Ele riu, lambeu a boca, e falou: "Você vai estar lá?"
Abri a cancela, fiz que ia embora. Virei para ele. E disse:
"Pra você, não..."
9
Quatro e vinte. Chegamos a São Paulo. Queríamos finalizar o ano letivo arregaçados. Começamos os preparativos cedo. Um baseado emendado à brasa do outro. Compramos roupas na galeria do rock, curtimos o clima imprevisível da cidade, caminhando pela Paulista para ver as bichas do futuro . Eu pretendia dissolver visões demoníacas de freira e o palmito, que crescia em mim, para todos os lados.
***
A fila da Bubu se espichava. Fumamos mais. E começamos a ver o que tinha de bom de bundas, corpos de lamber, cuecas inchadas pra brincar. São Paulo é o melhor lugar pra ir com passagem de volta.
Entramos, com a certeza única de que só sairíamos dali varridos e melados.
Pegamos logo bebida, pra não ter que disputar espaço em balcão. E ali mesmo combinamos que um deveria carregar o corpo do outro, na volta. A pista de baixo era uma Josefine melhorada. Só tinha carão e música de britadeira. Subimos e nos enfiamos pelo corredor, que dava para a pista de hits, muito melhor, como se vestíssemos a roupa que dá certo sempre.
Malone começou a dar piti esclerosado: "A gente já fumou?... A gente não fumou ainda!" Dimitri respondeu que tínhamos fumado desde BH. Lily, como gostava de fazer, roçou os braços de grilinho malhado dele, enquanto, com a outra mão, alisava o próprio ouvido com um canudinho. Eu via tudo numa lentidão deliciosa, recebendo as explosões de luz como metidas na alma.
"A gen-te não fu-mou!", insistia ele, cada vez mais indignado, como se houvéssemos engolido toda a maconha. E foi ficando inflado de ódio. Encostou num pedaço de parede vago, deu tapas nas coxas, pulinhos de birra. "A gen-te não fu-mou!!!" E levou a mão ao rosto, com a boca meio aberta, expondo os dentes brancos, alinhados e com vontade de comer. Escorregou, desesperado, apoiando os cotovelos nos joelhos, balançando a cabeça de um lado ao outro, depois encostando-a na parede, de olhos fechados, falando sozinho. Começou a rir de desespero, embranquecendo, com pressão baixa.
Lily trouxe coca-cola pra ele. "Vira tudo!" Dimitri já havia detectado o alvo: um cara cabeludinho, gostoso, com rosto de modelo putinho. Foi até ele, e a fila da pista o engoliu.
Malone se pôs de pé. "Quero fumar!" Eu disse que faríamos isso depois, quando saíssemos pra um cigarro careta.
Ouvimos uma batida brega vinda da pista. Lily foi conferir. Voltou dando pulos: "É a Gretchen!" Corremos apavorados de alegria. Ela estava num palquinho, com uns dançarinos cafonas, como deveria ser. "Boom, boom... Freak le boom boom..." E nos jogamos numa rebolação cheia de cabelos batidos.
Vi um cara de braços talhados. Cor de praia. Mas de bronzeado natural de índio. Enfiei os olhos na expressão contida dele, indicando desde já: "Eu vou te pegar... Você sabe disso... Não tem saída..." Ele ficou hipnotizado, esperando ser abatido. Andei até ele, rebolando a cabeça com a música e com a ponta da língua alisando os dentes superiores. Senti seu perfume, um kenzo que me lambia. Apertei sua cintura, mostrando que já era, que já não tinha volta. Que era melhor ele ser bonzinho, passivo. Que abanando o r**o, de quatro, me agradaria. Eu daria petisco, faria carinho, colocaria no colo.
Meti a língua em seu queixo, subi, chupei seu lábio inferior, mordendo gostoso e esticando-o a ponto de arrebentar de volta para o seu lugar, que era a minha boca molhada. Ele era peruano, tinha b***a redondinha e firme, me convidando pra uma visita. Abri a mão e a encaixei no meio de suas pernas, sentindo aquele cilindro fisgando. Meu corpo todo teve arrepio de doce de leite. Depois de uma esfregação de boas vidas, abracei-o por trás, engatando meu p*u empinado na linha que desenhava, aprumadinha, a entrada que eu faria. Ele contraiu, acariciando meu p*u. Beijei seu pescoço e com as mãos à frente pincei seus m*****s.
Lily estava na parede próxima. Beijava uma menina gostosa, que enfiou a mão em sua calça. Beijava e acariciava. Lily esticou o pescoço para trás, de olhos fechados. E era lambida e alisada. Beijada e dedilhada.
Apertei mais o peruano. Eu queria sair dali, fazê-lo engatinhar, me chupando, eu caminhando de ré, trazendo meu cachorrinho com a coleira na boca. E depois engoliria meu saco, enquanto, com o pé esticando por baixo de suas patas, eu roçaria o dedão do pé no seu miolo fisgadinho.
Mas um outro cara me pegou por trás e me fez sentir o que o peruano deveria estar levando. Gretchen saiu do palco. Os sintetizadores de "Get Together" entraram. Vi Malone catando um branquinho gostoso, com cara de passarinho com topete. Lily gozava, com aquela mão embarcando nela, indo da proa à popa.
O cara que me engatou por trás veio pra frente e se infiltrou entre mim e o peruano. Me dando a b***a e o cangote. Ficamos os três um tentando entrar no outro. Eu girava o pescoço, como que fazendo alongamento de t***o. Dimitri pegara o cabeludinho. Estava num beijo que parecia eterno.
Naquele engate, recebemos outros braços, que envolveram a nós três. Fizemos um quarteto espremido. Com nossas línguas formamos uma estrela viva. A mão do peruano já massageava meu p*u. E eu me vi dentro dele. Ele, dentro do outro. E o outro me fazendo sentar e levantar.
Caçamos uma parede. Estava difícil, mas conseguimos um canto. Me apertaram no concreto, me comeram todo o corpo, enquanto eu alisava a mão do cara que beijava outro, do lado. Esse outro viu e falou "eita!". Adoro "eita". Parece deita, peita, aceita: meta. E nós seis nos metemos, nos babamos, nos arranhamos. Até que senti uma represa rompida e meu caldo espeço jorrando morno. O peruano usou como lubrificante. Desceu mais a mão, contornou por baixo e me fecundou de mim mesmo.
***
Antes de começarem a varrer a gente, na fila de pagamento, topei com um moreno de olhos brilhantes e boca desenhada. Dessa vez foi ele quem mirou certeiro: "Vou te pegar, resistir é pior, mas se lutar é melhor..." Senti que eu poderia me casar com ele, que me disse o mesmo. Isso durou uns dez minutos. Ele era de Campinas. Combinamos que nos veríamos ainda naquele dia, pra uma trepada romântica. Porque entre nós éramos príncipes traindo o reino. Nos despedimos, já completamente casados.
Dimitri estava apaixonado. Lily, assada. Malone trocou telefone com o passarinho.
Fomos à padaria ali perto. Lily pegou uma coxinha enorme. Colocou-a na palma da mão, como se estivesse chocando o prazer. E, de tanto olhar sem saber o que fazer, deixou-a cair. Ficou consternada, velando a coxinha morta.
Um cara me pegou no balcão. Lambeu o fio de coca-cola que escorria do meu queixo. Me beijou fundo.
Meu marido de Campinas passou na calçada, viu. Abaixou a cabeça. E partiu para sempre.
10
Estávamos sem maconha. E éramos perebas para conseguir. Tínhamos receio de sermos presos ou vítimas do crime. Eu já alimentava, naquela época, o desejo de ser p**a de traficante. Mas não tinha coragem de dar o primeiro passo.
Lan Lan descobriu um esquema no JK. Mandava-se mensagem para um cara. A senha era "envelope preto". E ele nos levaria o bagulho. Passamos horas pensando no esquema. Eu me sentia envergonhado por ser tão inexperiente. Mas a vida de professor me deu dupla face: a bicha literata e a v***a das pistas. Entre uma e outra se formou um calo: a cagona.
Paramos o carro nas imediações da Praça Raul Soares. Essas coisas precisavam acontecer à noite pra gente se sentir mais vivo. Lan Lan pegou o celular e nos olhou. Ficamos em silêncio, fingindo tranquilidade. Ela digitou o destinatário e a mensagem. Mas não enviou. Dimitri riu, mas também se trancou. Eu disse que não poderia me arriscar a ver meu nome exposto: "professor de escola católica é preso por associação ao tráfico". Nem a velhinha traficante da Josefine sabíamos como abordar. Não tínhamos vocabulário para sermos maconheiros.
Em um impulso desesperado, Lily tomou o celular das mãos de Lan Lan. Enviou. Nos congelamos de expectativa: e agora? O que vem depois de um passo novo? Quem seria o cara? Teria volume piscando na calça? O que dizer a ele? Deveríamos usar óculos escuros?
Uns segundos depois chegou a resposta. Perguntava quem era, por que a mensagem estranha? Era uma época em que quase todo mundo tinha sido vítima do golpe do sequestro. Eu mesmo acordara de madrugada, com meu pai desesperado no telefone, porque eu estaria amarrado, e um barulho de serra elétrica me transformaria em picanha.
Lan Lan nos olhou com expressão de tola. Nós nada respondemos, porque nos identificávamos com sua cara. Dimitri disse que era pra falar aberto, sem muito rodeio. E, assim, nova mensagem foi digitada, com dedos trêmulos, estômago frio e boca seca. Algo do tipo: "baseado já". O celular circulou de mão em mão. Ninguém tinha nada a acrescentar. A mensagem foi enviada.
Eu disse que tinha aluno rico traficante. E que ele me olhava na aula, querendo estabelecer conexão. Enquanto eu fazia análises literárias, gracejos pedagógicos e todo tipo contorcionismo, ele, do fundo da sala, abria as pernas, levava a mão ao meio delas, dava uma bombada. Me olhando como se eu fosse uma c****a possível.
Mas isso não resolvia o nosso problema.
Chegou a resposta. Nossas cabeças pipocaram na direção do visor: "onde vocês estão?" Um alívio de fim de parto invadiu o carro. Ela digitou rapidamente o local em que havíamos estacionado. E começamos a planejar a larica. Eu queria panqueca de morango com nutella. Nova mensagem: "ok". Pulamos de euforia, como desenho animado.
Perguntei qual seria o valor. Lan Lan não sabia. E questionei com o olhar se tínhamos dinheiro suficiente para a sua resposta.
Ouvimos um toque no vidro. Era um policial. Um cheiro de peido de angústia invadiu o carro. O vidro foi aberto. Ele perguntou o que fazíamos ali. Olhou para o banco de trás, se detendo em Lily, que estava encapuzada, com os braços cruzados, a cabeça baixa, toda encolhida em invisibilidade de culpa.
Não sabíamos o que dizer. Ele continuou a nos olhar, engrossando o caldo do desespero. Como eu era o mais velho, supostamente deveria dar alguma explicação. E uma frase brotou, sem que eu menos tivesse pensado nela: "estamos caçando garoto de programa". Ele então desfez o semblante de patrulha. E nos alertou: "os daqui são perigosos..." E se afastou do carro, fazendo movimento de concha com a mão, para que seguíssemos.
Humilhados, derrotados, estúpidos e sem maconha, resolvemos parar em outro quarteirão e tentar traficante na Praça Raul Soares.
Lan Lan recebeu outra mensagem do envelope preto: "kd vocês?"
Respondeu o que havia acontecido. E, logo em seguida, lemos: "sim, eu sei, o policial era eu, vocês não me passaram confiança... não façam contato nunca mais..."
***
Rodamos pela Praça. Muita bicha nova em oferta. Nos sentamos. Um menino magro e com b***a passiva me olhou. Meu p*u subiu na hora. Fiz com o dedo que se aproximasse. E ele foi de imediato. Perguntei o nome. Laerte. Questionei a idade. 22. Dei tapinhas na coxa, convidando-o a sentar. Ele atendeu. Seu corpo era tão delicado que me senti hetero. Sua boca me fazia querer gozar em cada passagem de língua. Ele apoiou os joelhos no banco e desceu a bundinha, se acoplando. Passei a mão por trás e enfiei o dedo em seu rego, escorregando-o em uma pele lisa de golfinho. Eu certamente o aprisionaria no box do banheiro aquela noite, com a cara esfregada no azulejo, implorando pra que eu o partisse ao meio.
Malone, do outro banco, me chamou: "ma-mãããe..." (esse era meu apelido de grupo). Laerte descolou a boca da minha. Riu, murchando. Me disse que não queria dar pra um nome daqueles. Que estava procurando um paizão.
Levantou e saiu, me deixando sem filho.