DENTRO DE MIM SEU INTEIRO
1
Detestávamos aquele lugar. Gente nojenta, barbies, carão. Mas alguma coisa havia ali que nos fazia circular o quarteirão, ver se pelo menos a safra era boa. De vez em quando, entrávamos. Sem pretensão, vestindo sempre a mesma roupa - jeans velho, camisa de algodão preta ou lisa, tênis surrado - e nos deparávamos com as mesmas pessoas, que fingiam ser outras. Enquanto nós continuávamos iguais...
Foi o que aconteceu naquela noite. Não tínhamos outra opção. Aliás, até tínhamos, mas fugíamos dos "ex", que eram como maldição: sempre ocupavam nossos lugares prediletos, para se vingarem de terem sido deixados. Ou de nos fazerem sofrer mais o pé na b***a.
E entramos para, pelo menos, beber um pouco (essa foi a desculpa). Em meia hora já tínhamos bebido muito. Duas horas depois, m*l conseguíamos andar, de tanta maconha, suor, música r**m, calor. E ninguém para pegar. Mas, como era a boate mais badalada da cidade - e também a mais cara -, precisávamos pelo menos torrar a consumação mínima da cartela. E nem sabíamos o quanto já tínhamos bebido.
Aqueles canhões de luzes agiam sobre nós como raios de exorcismo. Mas não queríamos isso. Queríamos os demônios. E Lily, com voz entortada de tão chapada, me disse que seria melhor que nos separássemos por uns minutos, pra pelo menos beijar um pouco nos corredores espremidos, em que os caras fingiam que não queriam, mas viviam passando de b***a virada pra quem queria.
Ela subiu para a pista menor, onde a galera dos hits se acotovelava de propósito para espantar gente chata. Eu fiquei no pancadão da pista de baixo. Não conseguia enxergar direito. A fumaça com cheiro de talco e o baseado haviam ressecado minhas lentes de contato. Dei um giro, dissimulando desinteresse. E eu só via vultos, que eram a melhor opção.
A drag hostess passou por mim. Eu sabia que era ela por causa da voz meio rouca, que ela tentava espremer para baixo. Disse que ia começar uma performance. "Você está bem?", perguntou. Balancei a cabeça: sim. "Mas você pode ficar melhor...", ela continuou. E me apresentou uma velhinha preta, que era a traficante e meio avó psicodélica de todo mundo.
"Não, já tô muito doido...", respondi. Ela e a velhinha riram, como se eu não soubesse o que era a loucura necessária. E saíram de perto.
***
Ele - quem? - me levou para a parte de cima. Onde estaria Lily? Aquela parede parecia viva. Os braços se engatam uns aos outros. E o escuro se mexia como se quisesse nos devorar. Perguntou meu nome. Respondi. "Mach?!... Nome diferente, forte... Nunca ouvi..." Nem eu tinha ouvido. Mas colou e ficou mais do que o meu próprio nome. Ele perguntou o que eu gostava de fazer, algo como "que tipo de música você curte?", essa conversa mole de quem não saber pegar direito. Eu devo ter respondido alguma coisa inútil. Mas fui mais ágil que o desconforto dele: levei a mão no meio de suas pernas, modelei sua dureza, subi um pouco, dedilhei seu abdome suado. Ele segurou a respiração. Aos poucos foi se soltando, como quem se acostuma com água fria. E se deixou esquentar. Tirou a camisa. "Quer ir pra outro lugar?", perguntou, meio incomodado de ser visto pelos outros. "Não agora", falei. E beijei seus m*****s meio salgados e duros. "Tem certeza de que quer ficar aqui?" Caminhei com a língua ao seu pescoço, dando pinceladas de saliva em seu gogó. Respirei em sua boca, que se tornava cada vez mais brilhante, vermelha e pulsante. "Vamos pra outro lugar, vamos?"
***
Lily me puxou pelo braço: "Você percebeu que estão servindo água no lugar de Absolut?" E eu segurei a mão do cara, para garantir continuidade. Ela insistiu: "Isso é s*******m! Colocar água no lugar de Absolut!" E, da mesma forma que surgiu do nada, desapareceu com a fumaça de talco. Voltei para a parede. Agora não mais como dominador. E pude perceber um pouco de seu rosto moreno, de seu cavanhaque ralo, de seu bigode fino me chupando o hálito. Me prensou todo, se encaixando no meio das minhas pernas, como se eu fosse massa de modelar. E fez de mim sua pista de dança.
***
"Quem é esse cara no seu quarto?!", era Lily, aflita e com amnésia de vodka falsa. "Não sei...", respondi baixo, para não revelar meu esquecimento. "Vocês transaram?" Pensei mais do que devia, o que poderia ser bom sinal. E senti no corpo e na boca que sim. "Transamos..." Ela então me disse que a última coisa de que se lembrava era de que estávamos no carro, indo para a minha casa. Éramos só nos dois. Mas um pouco à frente, na rua da Josefine, demos carona a um cara, que do banco de trás ficou todo o trajeto me olhando no retrovisor, com a ponta da língua previamente apontada para dentro de mim.
2
Lily me disse que seria melhor a gente continuar a frequentar os lugares que já eram nossos, porque poderíamos perdê-los para quem já não era. A noite na Josefine tinha sido um desastre. E o cara que levei pra casa era péssimo de cama, além de ter falado m*l de "Friends". Foi difícil a gente se livrar dele. E só consegui quando, sabendo que ele tinha gastado tudo na noitada, o chamei para almoçar no self service. Ele tentou dar o golpe da carteira, falou que tinha esquecido o cartão, o dinheiro havia ido todo para a boate. "Que pena...", disse Lily. Mas o deixei no ponto de ônibus, pra provar a mim mesmo que eu não era uma pessoa r**m.
Não fomos a self service coisa nenhuma. Compramos frango de padaria, fizemos almoço. Fumamos maconha. Dormimos. E acordamos dentro da noite novamente. Parecia que tínhamos ficado presos nela, só levantando para desamarrotar a cara um pouco e comer. Os fins de semana em BH eram sempre os mesmos: se não íamos à balada, nos enfiávamos na casa um do outro, engordando de não fazer nada.
Mas decidimos voltar à Mary in Hell, que a gente evitava como em dieta diante de banquete. Lily estava tentando superar o término com uma falsa tilelê, que falava de astrologia e naturismo, mas gostava mesmo era de dar golpe da pirâmide nos outros. E eu queria me ver livre de um sociopata, que ela chamava de Caramujo, porque considerava uma praga. Não queríamos relacionamento com ninguém, porque todo mundo havia fodido com a gente.
Meu analista classificou meu comportamento como selfish, falou que era uma forma de autoproteção. Mas ele tinha cara de quem não trepava. Então, tudo o que me dizia eu interpretava como vontade de estar no meu lugar. A diferença era que eu pagava as sessões. E ele era uma espécie de michê freudiano para mim.
***
Na Mary in Hell, o pessoal da portaria sabia nossos nomes e já nos entregava cartela preenchida quando nos aproximávamos. Morríamos de vergonha, porque não sabíamos nome de ninguém. Até perguntávamos, mas esquecíamos e tínhamos receio de perguntar de novo. Esperávamos umas semanas. Voltávamos a sondar. Mas tudo se esvaía na bebedeira.
Subimos. Investigamos a parte de cima. Nenhum ex stalkeando. Descemos. A pista começava a bombar. Também não vimos ameaça. O DJ era nosso amigo e sempre tocava o que queríamos. Com aqueles fones enormes, apontou em nossa direção. Disse alguma coisa que foi abafada pelo batidão que nos deixava surdos por dois dias. Respondemos "blza", que ele também não deve ter ouvido.
Vi um cara alto e gostoso escorado nas grades da escada. Ele tinha cara de hétero curioso. Mas muita bicha fazia essa pose pra atrair gay submisso. Falei pra Lily que queria dar uma esfregada nele. E, reparando melhor, saquei que ele estava mesmo procurando mulher. E uma específica: ela.
"Quer que eu fique com ele pra você?", ela perguntou, em tom de proposta. Notei que queria pegá-lo pra me excitar. E com isso fantasiar que era p**a de alguém que eu desejava. E claro que a ideia me agradou. "Quero!", respondi antes mesmo de pensar no que escrevi acima. Ela virou a vodka. Caminhou até ele, meio rebolando. Foi quando percebeu que sua cabeça m*l alcançava aquele peitoral explosivo. Ele a pescou com um braço só, erguendo-a e já com a boca massageando-a onde quer que tocasse. Lily fez das pernas dois arcos, que se fecharam naquela cintura galopante. E o cara, com uma das mãos em suas costas, se transformou em cadeira erótica.
Eu bebia, assistia, queria. E em determinado momento passei a ser visto por outros dois caras que acompanhavam nosso plano e queriam sentar na cadeira também. Eu ri com os olhos e espremi a boca no canudinho. Pisquei para eles. Se aproximaram com lábios sacanas. Olhei de novo para Lily. Parecia que o cara a partiria ao meio a qualquer momento. Vi quando ela enfiou a mão na calça dele. E senti um hálito morno em minha nuca, me arrepiando a vontade de beijar. O outro veio pela frente. Eles se abraçaram, vestindo-se de mim. Nossas línguas formaram uma estrela úmida, que flutuava no calor. Fui alçado por baixo dos braços, minha cabeça repousou em um daqueles ombros, enquanto pela frente um rolo me invadia as pernas e dentes muito azulados de tão brancos mordiam meu queixo.
***
Subimos apressados para não ter crise de claustrofobia. A luz havia caído. Já acontecera outras vezes. Nem tínhamos como pagar. Um barman que eu já pegara aproveitou a confusão e nos deu mais bebida. Perguntei se eu poderia pagar em minha cama.
Ele aceitou.
3
Ele se deitou como mandei: de bruços, abraçando os cotovelos, formando um retângulo irregular no meio do qual repousou a cabeça, com a testa roçando o lençol. Usava uma cueca boxer branca bem justa. Com a b***a empinada e as pernas levemente separadas, esperou por mim.
Joguei o jeans e a camisa no chão. Mantive as meias. Em passos leves, caminhei ao redor da cama, dando pequenos chutes nas roupas que ele mesmo deixara cair. Ele respirava como se estivesse com falta de ar, que só eu poderia dar. Toda vez que eu me aproximava da cabeceira, me pressentindo sem nunca saber ao certo quando eu o tocaria, esfregava a testa para a frente e para trás e enfiava o nariz na maciez do colchão. Empinava um pouco mais a b***a, contraindo-a e enrijecendo as coxas. Depois se soltava novamente, como se estivesse exausto de espera. Circulei novamente a cama e, quando passei por seus pés, parei, deixei as mãos penderem, alisando seus calcanhares, subindo pelas panturrilhas grossas. Tirei finalmente minha cueca, enrolando-a em um dos punhos, como uma luva docemente azeda. Finquei os joelhos na cama, afastei mais suas pernas, fiz penitência entre elas.
Me estiquei sobre seu corpo. Queixo com nuca. Enfiei as mãos sob o seu cercadinho de braços, alisei os buraquinhos dos ouvidos. Ele soltou um "ah" grosso e feliz. Retirei a cueca do punho e, enquanto chupava o lóbulo de sua orelha, enrolei-a, fazendo dela um chumaço de vontades, que enfiei em sua boca. Ele gemeu pelo nariz.
Deslizei o queixo por suas costas, parando de vez em quando para dar uma mordidinha. Espalmei as mãos em sua lombar. Dei impulso, levantando o tronco, como seu eu fizesse yoga sobre ele. Expirei chiado e longo. E mergulhei com a boca em sua cueca, mordendo-a, puxando-a. Devorei o tecido suado. E puxei mais. Até que sua b***a brotou branquinha. Agora com as mãos, retirei sua cueca, esfreguei-a em meu rosto. E senti o cheiro de banho já curtido. Embolei-a, atirando-a em sua cabeça. Ele continuava gemendo pelo nariz.
Juntei dedo médio e indicador. Chupei, deixando um brilho de saliva que saiu em fio da minha boca e foi direto até ele, bem em seu miolo, que repuxou, repuxou, repuxou. E cedeu, com leves contraídas de desespero gostoso. Senti seu interior morno e liso. Rosqueei os dedos. Mais. Mais. Ele gemeu "hum!"
Retirei os dedos e os levei novamente à minha boca. Chupei.
Afastei suas nádegas e respirei entre elas. Seu miolo estava brilhando, liso, como flor querendo brotar. Mas se guardando para o sol. Lambi em círculos, que se tornaram mais intensos. Até que minha língua foi chupada por aquele pequeno redemoinho vivo. E entrou toda. E continuou a circular por dentro.
Ele empinou a b***a. E eu mergulhei mais.
Até que começou a rebolar de leve, com a minha língua toda dentro. Meti os indicadores, para abrir mais espaço e caber mais nele. E pude mordê-lo por dentro. Me servindo de sua umidade.
Depois, como que saído de uma longa travessia debaixo d'água, fui até seu ouvido, arfando.
E falei: "Vou te comer com a mão..."
4
Irmã Marlinda me esperava no alto da rampa de entrada. Estava de braços cruzados e mantinha os sapatos pretos emparelhados, como uma alma penada paralítica. Como sempre, não sorria. Acho que nunca a vira rindo. Se vira, era de deboche. Ela me recebia com frequência, às sete da manhã: "Precisamos conversar...", falou, seca e com satisfação. Perguntei o que era, pedi que me adiantasse o assunto. Eu teria seis aulas seguidas e havia ficado ansioso com aquela abordagem. "Me procura na sala da direção, depois da aula...", respondeu, com desprezo e lambendo os lábios finos e roxos de morte. Uma aluna passou por nós, deu bom dia. Irmã Marlinda retribuiu, olhando de canto de olho para a sua b***a.
Entrei, fui à sala dos professores, peguei os diários. Subi. Meu estômago roía de frio. O que será que ela queria? Seria aquela mãe de novo, me atormentando porque eu não ensinava classificações gramaticais? Aquela mãe que tinha uns cinco filhos na escola e ainda se intrometia na educação dos outros? Além disso, era novembro, mês da degola.
Cheguei à sala do segundo ano. Eu gostava muito dos alunos. E sabia que era recíproco. Tinha pena deles, por estudarem ali. Eram vigiados, soterrados de inutilidades pedagógicas. Mas sentia que eles também tinham pena de mim, por eu me prostituir com freiras. Eu precisava trabalhar naquele lugar... Olhei para os três meninos que ainda não sabiam que eram viados. Me deu dó. Estavam desperdiçando a adolescência agradando os pais.
E vi um grupo de meninas, em círculo, nos fundos da sala. Escondiam alguma coisa. Fui saber o que era. Elas se afastaram. E pude ver Roberta, com as mãos no rosto. Perguntei o que tinha acontecido. Ela pendeu os braços. Estava cheia de hematomas. Chorava pra dentro. Uma das alunas me contou, entredentes, que a família havia descoberta que ela tinha namorada. E todo mundo a espancara. O pai pegou um revólver, botou em sua mão. Disse que era preferível que ela se matasse. Ou que o matasse. Eu conhecia esse cara. Ele vivia na missa, na capela das freiras.
Irritado, falei com a turma que precisava sair, que continuasse a leitura de Crônica da Casa Assassinada, livro do vestibular da UFMG.
Procurei Suzana, a orientadora. Relatei o ocorrido, pedindo providências. Muda, horrorizada, com expressão de tragédia, me arrastou para um canto, sondou se havia alguém por perto. E disse, meio sussurrando: "Vo-cê es-tá fi-can-do lou-co?! Não se me-ta nis-so!"
Nem esperei que ela continuasse. Deixei-a plantada e inútil.
Fui à sala da direção. Estava trancada. Irmã Lorelay passou, de cabeça baixa, abatida. Perguntei por Irmã Marlinda. Ela despistou que não sabia. Mas eu senti que me omitia algo. Ela era boa, simples. E todo mundo falava que era maltratada por outras freiras, que tinham inveja de sua beleza interiorana ou vontade de tê-la no meio das pernas.
Perambulei por aqueles corredores infinitos. Eram como labirintos. De vez em quando uma freira muito velha passava como cadáver, à procura da própria cova. Elas flutuavam, porque fazer barulho era terminantemente proibido.
Resolvi verificar no pátio. Encontrei-a nas imediações do bosque, perto da imagem de Nossa Senhora não sei das quantas. Ela conversava com uma professora de português do Ensino Fundamental, que chorava. "Pelo amor de Deus, irmã... Onde vou achar outra escola pra trabalhar agora?" Irmã Marlinda alisou o crucifixo prateado que tinha pendurado ao peito, lambeu os lábios, dando um leve estalo, deixou a ponta da língua para fora e espremeu os olhos, enquanto via a coitada desesperada. Toda vez que a professora soltava um soluço profundo de angústia, ela lambia mais os lábios e repousava novamente a língua, como cachorro dormindo de boca aberta.
Me viu. E acordou daquela situação. Dispensou a professora, mandando-a procurar o departamento de pessoal para tratar da rescisão de contrato. E me disse: "Você não deveria estar dando aula?!" Respirei fundo. Expliquei-lhe o que acontecera a Roberta. Esperei que ela tomasse providências, que se mostrasse pelo menos incomodada, não com o fato em si, já que parecia não ter alma, mas com a repercussão negativa que poderia gerar para a escola. E ela...
Ela, como se já soubesse de tudo, me alertou: "Aqui a gente não se mete em problemas familiares. A gente só cuida do que acontece den-tro da es-co-la, entendeu?"
"Mas isso está acontecendo den-tro da es-co-la!", respondi, incomodado.
"Não, não está. Estamos entendidos?... A propósito, não precisa me procurar depois da aula. Falo aqui mesmo: a mãe da Patrícia não quer que ela leia Crônica da Casa Assassinada. Disse que vai fazer abaixo-assinado com outros pais, proibindo o livro..."
Fechei os olhos. Inspirei profundamente. Expirei pausadamente.
"Irmã, é livro do vestibular... Isso pode prejudicar a classificação da escola no ranking..."
"Não vai não, porque você vai trabalhar muito bem um resumo..."
"Eu pensei que a senhora queria conversar comigo pra me demitir..."
Ela emitiu uma bufada de nariz. E respondeu:
"Ainda não posso fazer isso, infelizmente. Porque os alunos gostam de você..."
E, quando começou a andar, dispensando-me, falei:
"Irmã, sobre o caso da Roberta... Eu vou procurar o Conselho Tutelar... Porque os alunos gostam de mim..."
5
Me encontrei com Dimitri no BH Shopping. Queríamos comprar cuecas, que eram desculpa pra gente beber espumante de graça nas lojas mais caras. Aproveitando a disputa por clientes em dezembro, perambulávamos pelos corredores, à procura de estabelecimentos vazios. Quando achávamos um, entrávamos com semblante de esbanjadores. Dimitri empinava o queixo e metia um "Ããã..." antes de cada frase. "Ããã... o que vocês têm de clássico ousado?" Preferíamos lojas com vendedores gostosos. E, segundo o feeling bicha, quando as cuecas eram espalhadas pelo balcão, nós, com taças sempre cheias na mão, rompendo o pudor que fazia da loja um espaço desinteressante e higienizado, estampávamos, um na cintura do outro, os modelos mais chamativos. E paquerávamos os vendedores. Principalmente os pseudo-heteros: "Que barba com jeito de gostosa...", Dimitri falava e virava a taça na boca, sem tirar os olhos do cara que, lutando contra a própria masculinidade, ficava vermelho e se ocultava da cintura para baixo no balcão, decepado de vergonha.
Assim, sem que os próprios vendedores se dessem conta, clientes brotavam, atraídos por viados de bom gosto. Toda loja com viado consumindo fazia sucesso. E nós debochávamos da caretice dos heteros. Mas não deixávamos de relar nos tesudos que procuravam roupa pra impressionar mulher. Dávamos conselhos, como se fossem nossos homens. E por um instante eram. E perguntávamos se se depilavam. Só pra sentir o gosto que teriam dentro da gente. Dispensávamos as lojas com vendedores gays, por motivos óbvios.
Lá pela terceira ou quarta empreitada, já tontos e pendurados de sacolas, resolvemos ir direto para o Andaluz. Mandei mensagem para Lily: que nos encontrasse lá. E para o Palmitão da Serra, um sujeito disfarçado de macho que me descobriu em site de pegação e queria encontrar no dia seguinte: "Amanhã, na sua casa. Abre a porta com seu pau..."
***
No carro, contei pela milésima vez a Dimitri a história da Roberta. E de como Irmã Marlinda me odiava.
Os alunos haviam me chamado para um conversa durante o recreio. Me alertaram:
"Fessô, abre o olho, a irmã mandou a psicóloga perguntar pra gente se o senhor não tem comportamento estranho durante a aula..."
"Comportamento estranho?!..."
"É... Se o senhor não se insinua pra gente, sabe..."
Desci na mesma hora. Pedi reunião com direção e serviço de orientação educacional. Falei:
"Fiquei sabendo disso, disso e disso... Quero saber se é verdade, porque tem muito professor que pode ser, mas eu não sou bode expiatório. Faço um escândalo em Belo Horizonte inteira, chamo TV, jornal - tudo o que é dominado por gay... A-CA-BO com essa escola em dois dias..."
Irmã Marlinda se chupou toda de medo e, como se tivesse ética cristã, se esquivou de todas as formas, dizendo que era um m*l entendido, que eu não devia dar ouvido pra adolescente... A psicóloga, certamente assediada pelas freiras - e também temendo a degola de fim de ano -, assinou embaixo de cada palavra tremida da irmã.
Repousei as mãos em cima da mesa. E disse:
"Espero não ouvir nada do tipo novamente. E, sim, irmã, eu acredito mais nos adolescentes do que em freira."
Dimitri, sacando que a décima ou décima quinta taça de espumante estava batendo, deu o maior chilique:
"Ai, paraaa de falar desse de-mô-nio dessa irmã, essa garça de enxofre dos infernoooss!"
***
Escorei os cotovelos no balcão. Cruzei os pés. Segurei o copo de vodka com as pontas dos dedos. Lily já estava chapada de maconha. Dimitri estava lá fora, inventando alguma desculpa para um blasé de Porto Alegre que conhecera semanas antes.
"p**a que pariu... lá vem o Carrapicho...", ela disse, dissimulando com bebida.
Carrapicho era um sujeito que ficava de butuca: queria pegar quem interessava à gente, não admitia felicidade alheia, não gostava de ver os amigos namorando se estava solteiro, dava em cima dos nossos caras, ficava bêbado pra estragar noitada, filava maço de cigarro inteiro...
"Eu tô fora...", falei.
"Melhor mesmo... Ou vai querer perder outro temaki de nutella?", Lily sacaneou.
Carrapicho nos viu. Mas nós fingimos cegueira. E o deixamos no vácuo.
Vi um cara que seria meu homem nos próximos dez segundos. Foquei nele pra tentar multiplicar esses segundos por cem. Mas fui abordado por um sujeito que parecia bonito, mas era feio. Por que parecia bonito? Porque era fisicamente atraente: tinha os olhos que comem a gente e a boca bem desenhada, pra ser chupada com bala. Por que era feio? Porque se achava bonito demais. E me disse que minha noite seria um desperdício se eu o deixasse escapar. Tentei me desvencilhar, procurando o meu homem dos segundos eternos. Mas ele já estava com outro. O que aumentou o meu ódio.
O tal do bonito feio se chamava Filipe. E me seguiu. Na fuga, como se eu estivesse sob investigação da CIA, me perdi de Lily. Resolvi sair pra fumar um cigarro e ver se encontrava Dimitri. Furei a barreira de corpos. O ar condicionado era péssimo. A gente gostava do Andaluz de passagem. Depois, ele era esquecido. Até o ano seguinte.
Não vi Dimitri na calçada. Peguei o maço de Lucky Strike. Vi o Carrapicho. Escondi o maço. Ele sumiu. Retirei de novo o maço. Puxei um cigarro, levei à boca. Peguei o isqueiro. Mas uma chama súbita diante do meu nariz me fez pular para trás: "Aaaaaa!!!"
Era o Filipe, se oferecendo para acendê-lo. "p**a que pariu! Que viado escroto!", pensei.
"Não vai querer me beijar?", insistiu.
"Não..."
"Por quê? Você nunca vai saber se não experimentar..."
"Nunca vou saber o que não quero..." - saí de perto, fui fumar na esquina. Ele continuou lá, com expressão de que eu estava equivocado e que desistiria de bancar o durão. Parecia uma entidade estagnada. Nem piscava. Comecei a ficar com medo de ser estuprado, embora um dos meus desejos fosse exatamente esse.
Dimitri surgiu do asfalto. "Onde você estava?", perguntei, implorando para ser salvo.
Ele dera o fora no cara de Porto Alegre: "Fala com voz de fuinha..."
Eu não sabia o que era voz de fuinha. Sequer havia visto uma. E lhe disse:
"Mas você não é nenhum Pavarotti"
***
Encontramos Lily. Ela estava embolada com uma menina que era sósia da Lan Lan da Cássia Eller. Esperamos. Eu já havia perdido os caras que eu queria. Meu príncipe de dez segundos passou por mim. E pude, arrasado, ver que era princesa.
Lily e Lan Lan se beijaram por mais ou menos meia hora sem parar. Ela havia me dito que sapatão era assim mesmo, que a esfregação inicial ocupava quase todo o espaço da trepa.
***
No dia seguinte Lily me ligou. Ficamos horas no telefone. Depois de atualizá-la sobre Filipe (ele descobriu que eu era amigo de uma amiga dele, que trabalhava na UNA, para quem ligou às quatro da manhã, chorando de amor rejeitado), ela me contou a noitada.
Fora para a casa da Lan Lan. Começaram a se pegar na escada de incêndio. Se esfregando e fazendo balé de t***o, degrau por degrau. A subida durou uma hora. Segundo ela, era um beijo macio, que a fazia fisgar toda.
Quando entraram no ap, que Lan Lan dividia com a ex de uma ex (Lily me revelou que o rebuceteio entre sapatonas era muito comum), foram para a sala. A ex da ex dormia (depois soubemos que não).
Lan Lan deu uma pegada boa em Lily, retirou suas roupas e se despiu também. Depois, firme e decidida, segurou-a pelas axilas e a colocou sobre a mesa. E começou a comê-la com carinho de carne sofisticada. Beijou-a muito. Deitou-a de barriga pra cima. E desceu com a língua. Meteu-lhe o dedo na levemente envergado pra cima. E começou a lamber macio no ponto acima do dedo metido.