16
O dono da pousada preparou uma mesinha próxima à piscina, nos serviu um drink suíço de ano novo. E depois nos expulsou.
Sim. Esperava convidados para a ceia. Fez um cercadinho na mesa. E não falou mais com a gente.
Lily e eu resolvemos descer para a praia de Tambaú. Malone fez cara de cansado. Disse que precisava dormir. Mas sabíamos que ele já estava acorrentado a Bosetto.
No caminho, recebi mensagem de uma professora. Ela dizia que alguém pendurara uma calcinha gg no portão das freiras, com um "f**k New Year!" Mostrei a mensagem a Lily, que revelou: "Eu sei quem foi!"
E me contou.
***
Sentados na areia, começamos a passar a limpo a noite em Recife. Eu estava enlouquecido de cio por Ralph. Mas ele andava fazendo tipo, esticando demais o t***o, bancando moço pra casar.
Perguntei a Lily sobre a dica do rebuceteio... se tinha rendido alguma coisa... Ela fez mão francesa com os cotovelos na areia, aonde caminhou com os cabelos. Falou: "Ah, meu filho, vi de cara que não rolava..." E abriu um verdadeiro dicionário sapatônico para me explicar.
"Ela tinha unhas feitas e compridas... Que sapatão vai querer isso?!..."
Eu nunca tinha atentado para o lance das unhas (só as minhas e as que me entravam).
"Ela não joga futebol com sapatão..."
Ressaltei que toda bicha tem vontade de trepar com jogador de futebol, mesmo não assumindo. Mesmo com aquela coisa de "antro homofóbico e machista". Falei pra ela que eu ainda faria um ménage com um atleticano e um cruzeirense. De preferência héteros.
"Mas você curte hétero?", ela perguntou.
"Eles me curtem também...", respondi, vibrando linguinha.
***
Um grupo se aproximou e puxou papo. Eles tinham haxixe. Fomos muito receptivos... Enquanto se ajeitavam na areia, Lily cochichou:
"Tá vendo aquela ali? Tem cara de sapatão só ativa, isso é um problema..."
Eu achava que só na minha bolha havia núcleo duro de gay ativo.
"E outra... Vamo ouvir ela falar primeiro..."
Os caras – nenhum gostoso – emparelharam as cangas com a gente. A sapatona bolou o haxa. Perguntei como conseguira.
"Trouxe de Amsterdam", revelou, em tom grave, apontando o dedo para o meio das pernas.
Lily me olhou. Depois, disfarçando resto de assunto, definiu:
"Essa é a típica sapatona que gosta de falar com voz de homem hétero no telefone, puxando uma Ana Carolina... Olha a camisa polo..."
E emendou:
"Eu gosto de sapatão sapatona, tipo Lan Lan, que é fofa, delicada e p*u na mesa ao mesmo tempo..."
A sapa do haxa passou o baseado. Perguntou de onde éramos.
...
"A-MO BH!"
Eles eram de Brasília. Sondou o que fazíamos.
...
"Também sou professora! Trabalho com os pequenininhos..."
Já alucinada, Lily prosseguiu no sussurro:
"Não gosto de sapatão que faz churrasco... Tem sempre confusão, tem sempre uma que chora de saudades ou que briga..."
Rindo, com gotinhas de mijo:
"E sapatona que quer 'fazer amor'? Sangue de Cristo me guarde!"
Aproveitei pra matar uma curiosidade: "Cê tem atração por viado?"
...!
"Aprende uma coisa: TO-DA, mas TO-DA sapatona gosta de homem de rosto andrógino, gay ou hétero..."
E me contou que ela e Dimitri sempre se reuniam no escritório pra ver filme pornô de viado: "Porque filme de mulher transando é pra homem hetero..."
Ainda:
"Eu só me sinto segura com bicha... Se tô sozinha com homem hétero me sinto ameaçada..."
O haxa bateu mais. Senti as pernas mais pernas, os braços mais braços. E meu p*u: fisgando e subindo, fisgando e subindo... Mandei mensagem pro Ralph: "To latejando aqui..."
Ele respondeu: "Tô sentindo daqui..."
Nem vimos direito os fogos: eram uns barquinhos mixurucos, soltando espoleta.
Lily apontou uma garota:
"Tá vendo aquela tatuada lá? É a típica sapatona skatista de São Paulo..."
...?
Ralph: "Tô de cueca branca pro ano novo..."
...!!!
Eu: "Também tô, mas quero ela babada..."
***
Nos perdemos no caminho de volta. Lily se sentou sobre um hidrante. Começou a rebolar. Me deitei na calçada. Eu queria os germes da vida.
Ela me disse que, tirando o rebuceteio, só tinha amigo viado.
Fez concha acústica com as mãos. Berrou:
"EU SOU UMA SAPATONA CRIADA POR BICHA!"
17
Segunda semana de aula. Ninguém aguentava mais.
Depois da oração matinal obrigatória, na sala dos professores, Irmã Marlinda nos repreendeu:
"A escala de orações está afixada no quadro... Tem professor que ainda não pôs o nome..."
Em giro cheio de paradinhas, olhou para mim e para outros três. Espremendo os lábios e de olhos desabados, balançamos a cabeça afirmativamente, como adolescentes de castigo.
A nova coordenadora pedagógica, que chamávamos em off de g***o Seco, abraçando uma pilha de apostilas, se destacou da roda. Irmã Marlinda, sempre de sapatinhos alinhados e colados um ao outro, revirou os olhos até a nuca. Explodiu uma bufada:
"Esse é o material extra que precisa ser refeito... RE-FEI-TO!"
O meu estava lá. Quis saber o motivo.
"Você usou atividades do ano passado..."
...!
"Mas, irmã, vou aplicar pra aluno diferente!"
Ela alisou minha apostila, folheou. Depois de um "hã...", sentenciou:
"Novos... quero novos..."
***
Na subida para as salas, conversei com Dione, a nova professora de Português. Ela gostava de "Chaves", "Friends" e Madonna. Eu, notando que já secava os professores menos feios, adverti: "Não confie em ninguém aqui..."
***
Entrei no terceiro ano. De novo, Roberta não fora. As meninas de seu grupo estavam murchas. Disseram que as agressões continuavam. Com vontade de dar na cara da tal família, falei que conversaria de novo com a direção.
Retirei aquele jaleco horroroso – que só servia pra disfarçar mancha de p***o m*l balançado e, segundo muitas meninas, para professor nojento que usava calça de moletom sem cueca – e o coloquei sobre a mesa, me desfazendo da fantasia de enfermeiro de almas, que uma professora de história adjetivara de "ascetismo calvinista".
Os alunos estavam escandalizados com "O Ovo e a Galinha", de Clarice Lispector.
"Não entendi nada!"
...
"Essa mulher é maluca..."
...
"Fumou o quê?!"
Eu também não entendia o conto. Não sabia o que fazer. Mas passei para eles a impressão de que sabia. Saí da sala. Desci até a cozinha. Pedi um ovo emprestado a uma irmã. Ela despejava café velho na máquina. A gente sempre tomava café vencido. Me olhou apavorada, como se eu estivesse em surto. Como ali rezava a lenda de que eu tinha algum distúrbio, acabou me atendendo. Passou o ovo, pretérita. Muito solícita e medrosa, pediu que eu não contasse à Irmã Marlinda. "Claro que não...", respondi, pensando não em contar, claro, mas jogar na maldita.
De volta, pedi à turma que fizesse um círculo. Fui zoado por causa do ovo. "Fessô vai chocar..."
Já sentados, sustentando expectativa no olhar, me viram passar o ovo para a aluna à minha esquerda.
"Cada um pega o ovo, lê um trecho do conto, e fala simplesmente o que sentiu, sem bloqueio... Vai falando, deixando a voz agir..."
Riram da galinha chocadeira dando aula.
A menina apalpou o segredo do ovo. Explodiu em riso cuspido. E leu aleatoriamente:
"O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser uma galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte."
Travou. Ficou vermelha. Desabou a chorar. Me desesperei:
"Quer sair pra conversar com alguém?..."
...
"Não... Não converso com freira..."
Mas admitiu que desabafaria com André Luiz, o disciplinário da portaria, de quem todos gostavam.
E, enxugando o rosto, disse que a leitura a fizera se lembrar da mãe, que morrera de câncer há pouco. Todas as carteiras começaram a ranger e a fungar. E a sala inteira desaguou.
***
No primeiro ano, para explicar funções da linguagem, puxei uma carteira até o quadro.
Perguntei:
"Professor na carteira, se fingindo de aluno diante do aluno, é metalinguístico?"
A fodona da sala disse:
"Claro que não... Professor não é linguagem!..."
E, como meus alunos sempre foram muito melhores do que eu, um engraçadinho me salvou:
"É metaprofessor!".
Enviadei o máximo que pude, apoiei as mãos no suporte da carteira, que estava entre mim e o quadro. Ela escorregou. Me espatifei no chão, como galinha desossada.
***
Depois do último horário, corri para a sala dos professores, antes que Irmã Marlina ou g***o Seco me prendessem ou inventassem algum problema de última hora, só pra justificar suas existências.
Com ódio espumado, peguei em meu escaninho as apostilas que precisava refazer. Fiz lip sync: "Va-ga-ba..."
Um professor de Matemática, muito bonzinho e que trabalhava ali há duzentos anos, me disse:
"Calma, querido, eu sei o que elas estão fazendo com você... Mas tenta ficar calmo..."
Agradeci, sem falar.
Uma professora de biologia perguntou se alguém tinha rivotriol. Falei que tinha um resto e procurei no meio dos diários. Achei. Quando me virei, o professor de geografia já lhe abrira um estojo, com rivotril, lexotan, eutonis e sertralina. Ela escolheu o segundo. A professora de inglês pediu também. Aproveitei e filei um eutonis.
***
Saí a galope. Tinha aula à tarde na escola nova.
Na descida, digitei mensagem pro Ralph. Antes de enviar, um beija-flor despencou na minha frente. "Aiii!", gritei, dando tremidinha de braço. Me virei e olhei para cima.
De uma sacada, Irmã Marlinda sacudia a toalhinha. Sem baixar a cabeça, olhou-me. E entrou.
19
Não quebrei o pé. Infelizmente. Mas tive uma luxação que me fez brotar um "pé de cabeça", segundo Dimitri.
Eu não conseguiria o atestado longo. No máximo um ou dois dias.
Decidi curar o pé de cabeça enchendo a cara e dançando.
***
Ralph não me ligava. Por mais que eu quisesse, ele não era pra ser.
Os meninos não curtiam A Obra, o melhor menor lugar de BH, a cápsula da cena indie. Eu e minha amiga Gala tínhamos uma história de céu e inferno ali. Às vezes preferíamos o purgatório.
Chamei Dione também, mas ela estava pegando um dos professores menos feios da escola.
"Eu não presto mas eu te amo", com a Orquestra Mineira do Brega, estava de volta. Não, não era festa a caráter, mas de outro caráter.
***
Gala morava no Santo Antônio, pertinho. Resolvemos chegar cedo a fim de pegar o balcão vazio e virar shot de tequila. Mesmo assim, só consegui parar o carro numa ruazinha escura. A Savassi e suas artérias entupidas.
Seguramos o balcão para nós. E ali ficaríamos umas duas horas.
Gala estava vivendo um romance com um nerd cinquentão. Só falava de como ele a excitava de uma forma diferente, que só ela, que gostava de "homem fora do padrão", poderia entender. Eu queria mesmo conhecer o sujeito. E ver se ele poria fim ao seu discurso de autodepreciação, de mulher que atrai homem, mas não consegue manter.
Ela só usava preto, um luto eterno para não se achar gorda. E, já no segundo shot, puxou o drama:
"Não sei o que acontece comigo! Todo homem vem, fica um pouco, diz que sou especial, e vai embora..."
Virei o terceiro. Desceu fofo.
"Tem alguma coisa em mim que afasta as pessoas...", veio com voz já embrulhada.
...
"Tem, sim: você mesma, com essa fala decalcada..."
***
Se saíssemos do balcão, já era. A Obra já estava como caixinha de embalagem com aquelas bolinhas de isopor. Um bafo de secador de cabelo, irrespirável.
Virei o décimo. Queria mijar, fumar e respirar. Mas ainda não.
Gala queria fumar e respirar. Mas ainda não.
O tal do nerd cinquentão apareceu. Ficou perto do palco. Achei-o todo estragado. E estranhei por que ele não se aproximara da gente. Perguntei:
"Ele não vem te ver?!..."
Ela então, virando não sei que número de shot, espremeu a boca, alisou os cabelos. E despencou a chorar:
"Ele não sabe que eu existooooo!..."
Só aguentei aquilo porque já estávamos completamente chapados. Mulher bonita em autoflagelação.
...
"Tem um ano que você vive um romance delirante?!", perguntei, tendo que me segurar pra não espatifar no chão.
***
A Orquestra Mineira do Brega entrou com Sidney Magal. As doses cavalares de tequila haviam anestesiado o meu pé. Dançávamos como dois bêbados de rua. E, do fundo das minhas percepções embaçadas e da visão trançada, vi que a noite seria off road. O melhor de uma balada alternativa é exatamente isso: a alternância.
E, quando ficava chapado, eu virava o melhor de mim. Foi assim que uma morena deliciosa, com uma boca toda desenhada para mim começou a me secar. Não perdi meio segundo. Cheguei. Sem papo, sem palestra de medinho. Já que ela queria, eu me fiz querer mais. Já que ela pedia, eu dei. Enfiei a perna direita na sua dança, envolvi sua cintura, trançando os dedos em presa. Lambi sua boca, que abriu, esperando mais. Meu p*u pulsava em pulos. Senti seu cheiro de CK One tênue. O que me fez incontrolável.
Enfiei a língua em ponta, em ondas, e sua boca era morna, doce, minha. Cafunguei seu pescoço. Ela se abriu molhada. Chupei sua língua, dando a deixa pra ela mamar a minha.
Um cara se encaixou por trás, alisou minha b***a, mordeu minha nuca, fez redemoinho de língua em minha orelha.
***
Enquanto eu a comia pela frente, ele me socava por trás, mantendo um dos pés na porta. O povo já queria arrombar.
Mamei aqueles p****s de b***s pontudinhos. Entre um estalo e outro, deixava um fio de saliva mamada pingar no meu p*u, que enterrava logo naquela b****a que sabia apertar. E eu pedia: "Me morde!"
***
Na pista, procurei Gala. Vi-a com um dos seus lanchinhos da madrugada, os caras broncos que ela curtia levar pra motel fuleiro, pra se sentir p**a e ser comida com força de f**a animal.
A morena e o cara se despediram de mim. Meteram as mãos nos bolsos, tiraram suas alianças. Colocaram. E deram tchauzinhos como olhos de gato no escuro.
***
Eu não sabia onde deixara o carro. Nem o que estava fazendo ali. Gala havia partido com o lanchinho. Eram umas quatro da manhã. Catei cavaco várias vezes. Numa delas raspei a mão, que ficou raiadinha de sangue.
Apertei o controle, esperando algum pisca. Enfiei pelas ruas escuras. Apertei de novo. Acendeu.
Catei cavaco de novo. Me escorei no muro, trilhando subida por ele. Tudo girava. Meu estômago também. Me encostei, de olhos fechados. Respirei fundo.
Abri os olhos... Vi que a escuridão andava, ganhando corpo...
Palmitão estava à minha frente, de punhos trancados de tão duros, com boca de m******e e olhos de lava.
Eu sabia que morreria. Senti aquele desfiladeiro de imagens que dizem que os que parte veem.
Ele se aproximou. Ninguém na rua. Levou os dois punhos ao meu pescoço, apertou, subiu até os maxilares. Apertou mais. E mais. Senti o pescoço esticando, o ar sumindo, os pés em ponta, tentando sobreviver à forca.
Chegou a boca de chacina ao meu pescoço.
"Tá com cheiro de mulher, fessô...", raspou a voz grossa.
"Mas não é da minha..."
Eu tentava falar. Gemia socorro. E só eu ouvia.
Ele cedeu. Despenquei no chão, levei a mão à garganta, suguei ar de enterrado vivo.
Ele disse:
"Le-van-ta!"
Como isso era difícil para mim naquele momento, ele agarrou meus cabelos e, num golpe só, me socou na parede. Puxou a gola da minha camisa, esgarçou-a. Pouco abaixo da clavícula, seus dentes fincaram, um, dois, três segundos ou horas. Pedi que parasse, disse que dóia, que ficaria muito marcado.
Ele embolou por trás a gola da minha camisa. Fui sendo assim empurrado. Meu carro, para trás. Toda vez que eu catava cavaco, ele me erguia como bonequinho estragado.
Quando viu o ponto de táxi, acenou para o primeiro da fila.
Abriu a porta de trás. Falou com o motorista meu endereço. Pagou antecipado. "Fica com o troco, mano..."
Voltou-se de novo para mim, tão perto que o senti no cérebro:
"Você vai... Mas eu volto..."
20
Uma aluna do oitavo ano pôs um piercing no nariz. E assistia às aulas de mãos dadas com sua namorada subentendida. Irmã Marlinda se aplicou, pediu sua cabeça no Conselho de Classe, fez de sua vida uma travessia em barquinho de papel em alto mar. E convidou-a a se retirar da escola. "Por causa do piercing ."
***
Uma aluna do segundo fez uma tatuagem. Irmã Marlinda tentou tatuar-se nela, escavando cisma, esfregando implicância. A aluna fez um escândalo. "A senhora é ME-DI-E-VAAAL!" E convidou a si mesma a deixar a escola.
***
Uma professora de Inglês estava sob a mira dos pais. "Não sabe dar aula..." Irmã Marlinda pediu aula-teste. "Só uma demonstraçãozinha..." Na sala, formou-se uma banca: a própria Irmã, g***o Seco e outros professores. A professora deu início à aula. "Não entendi", atravancou Irmã Marlinda. A professora tentou prosseguir.
...
"Não entendi..."
...
"Não entendi..."
...
"Não entendi..."
...
Na parte da frente do janelo alargou-se uma mancha vermelha. Ela disse que não tinha como continuar a aula. Pediu licença. Saiu. Chegou à sala dos professores com desorientação mental, pressão baixa. Uma colega a levou ao banheiro e ajudou-a a se limpar da menstruação irregular.
***
Um professor de Literatura – por mera coincidência, eu – foi intimado pela direção a dar uma aula-teste para pais do sétimo ano. "É aquela mãe, a da gramática, ela disse para os outros pais que você não sabe Português...", me notificou Irmã Marlinda, sorridente, de boca fechada. "Precisamos comprovar, não é?..."
***
Prepararei uma aula sobre "A Continuidade dos Parques", de Cortázar. Eu já trabalhara esse conto com os meus alunos. Mas precisava provar que sabia gramática. E por isso resolvi dar aula apenas de leitura.
***
A maioria dos pais não sabia o que estava fazendo ali. "Fomos convocados..." Um casal se aproximou: "Pra que isso?" Respondi, com uma sinceridade esfaqueante: "Não sei..."
Dei a aula, fiz gracinhas etc. A mãe do sétimo ano me olhava com ódio distraído, fagulha falha. Ao final, riu, contrariada, foi embora. Os pais me cumprimentaram. "Acho que o motivo foi só pra te conhecer!..."
Irmã Marlinda me disse: "Você é muito inteligente... E esperto...". E desencarnou.
***
Entrei no carro. Trinquei os dentes. Gritei pra dentro. Soquei o volante, como quem queria a estrada fatal.
Minha boca formigava, meu coração explodiria.
Dirigi socado. De vez em quando, um muro me atraía.
Cheguei em casa. Joguei minha pasta do trabalho na parede. E vi o quadro de Clarice. Me aproximei dele, alisei. Entortei a boca e comecei a soluçar.
Peguei o quadro e o espatifei no chão, como faria em meu túmulo, se tivesse a chance de viver. Os estilhaços de vidro seriam achados por anos.
Deitei sobre os trincados. Jurei a mim mesmo que não passaria por aquilo novamente. Mas, no fundo, eu sabia que o ciclo maldito do mistério era imutável.
Toquei o rosto de Clarice.
E morri de não poder matar.