Preocupação minha

725 Words
Acordei cedo naquela manhã, ainda com a memória da ligação do meu pai fresca na mente. O quarto cheirava à laranja, como sempre, e senti uma sensação boa de aconchego, de casa nova, mas ao mesmo tempo familiar. Levantei-me devagar, fui ao banheiro, fiz a minha higiene matinal, tomei banho e coloquei uma roupa confortável que já tinha separado na noite anterior. Depois disso, voltei ao quarto e comecei a arrumar minhas coisas, colocando algumas roupas no armário, ajeitando a cama e organizando o espaço. Olhei ao redor e senti que já estava começando a me adaptar àquela nova rotina, àquele novo espaço. Peguei no meu telefone para ligar para o meu pai. Sabia que, em Angola, já seriam cerca de seis ou sete da manhã, mas no Reino Unido ainda era noite. Mesmo assim, precisava ouvir a voz dele e saber que estava bem. — Papai? — falei, tentando soar calma, embora sentisse aquele cuidado habitual que sempre tenho com ele. — Como você está? Já tomou a medicação? Comeu direitinho? Não está a trabalhar demais, né? — Alicia… minha filha, está tudo bem. Já fiz a medicação, comi e não estou a trabalhar demais. — Ele respondeu com aquela voz calma, mas eu percebia a leve preocupação escondida. — Não precisa ficar a preocupar com isso, está tudo sob controlo. Sorri, sentindo o alívio de ouvir sua voz. — Eu sei, papai, eu sei… mas não consigo evitar. Desde que a mamãe nos deixou, sempre me preocupo com você. Preciso ter certeza de que está bem, que está descansado, que está se cuidando. — Eu sei, filha. — Ele riu baixinho. — Você sempre tão cuidadosa. Mas confia em mim, está tudo sob controlo. Desliguei, sentindo um misto de alívio e carinho. Em seguida, mandei uma mensagem para o Derek: “Bom dia, meu amor 😘, espero que esteja bem. Aqui já estou acordada e pronta para enfrentar o dia.” Recebi a resposta quase que imediatamente: “Boa noite, princesa 😍. Espero que tenha dormido bem e que seu dia comece incrível aí em Luanda.” Sorri sozinha, sentindo a saudade de ambos os lados do mundo, mas a alegria de poder partilhar cada pequeno momento, mesmo à distância. Depois disso, desci as escadas para saudar os meus tios, que já estavam preparando o pequeno-almoço. Clara, a tia, sorriu e disse: — Bom dia, querida! Hoje vamos preparar o seu pequeno-almoço favorito. Que tal um sanduíche de queijo, um pouco de fiambre, frutas frescas e um copo de leite? — Uau, sério? — Perguntei, surpresa e emocionada com o gesto. — Muito obrigada! Enquanto eles preparavam tudo, notei o Lucas, o filho deles e meu sobrinho, me observando de longe, como se ainda não estivesse completamente confortável comigo. Seus olhos eram atentos, meio desconfiados, e eu podia sentir aquela barreira invisível que ele ainda mantinha. — Ei, Lucas — disse, tentando quebrar o gelo, — não precisa me olhar assim. Eu prometo que não vou roubar o lugar de ninguém aqui. Ele apenas cruzou os braços, mantendo a expressão séria, mas percebi que era mais curiosidade do que raiva. Sentamo-nos à mesa e Clara colocou o sanduíche de queijo, o fiambre, frutas frescas e o leite. A decoração estava simples, mas bonita: uma toalha branca, flores naturais no centro da mesa e louças combinando. — Vamos fazer uma oração antes de comer — disse o tio, com o tom firme mas caloroso de costume. — Alicia, você gostaria de fazer a oração hoje? Assenti, respirei fundo e fechei os olhos: — Senhor, obrigado por esta nova manhã, por este lugar seguro e acolhedor. Obrigada pela minha família, pelos cuidados que recebo e por me proteger a cada momento. Que possamos ter um dia abençoado, com amor, saúde e alegria. Amém. — Amém! — responderam todos, e então começamos a comer. Enquanto saboreava o sanduíche quentinho, o fiambre e o leite, senti a presença calorosa da minha nova família. Mas o Lucas continuava a me observar, desconfiado, como se estivesse esperando um motivo para ficar irritado. Eu sorri para mim mesma, sabendo que com o tempo ele iria se acostumar. E naquele momento, senti que, apesar de estar longe do meu pai e do Derek, a nova rotina, os cuidados e a atenção da família do tio começavam a fazer-me sentir em casa.
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