Ele pretende enfrentar Dante?

1268 Words
Isabela No dia seguinte, acordo assustada com as batidas na porta. Sonolenta, vou até ela e a abro. É Estela. — Bom dia. Rafael está de saída, ele pediu para chamá-la. — Que horas são? — Nove e meia. Passo a mão tentando arrumar meus cabelos longos, que estão completamente desalinhados. — Deus! Perdi a hora. Diga a ele que me troco em um minuto. Ela assente e some no corredor. Fecho a porta e passo a chave. Correndo, pego o celular. Ele escorrega das minhas mãos e quase cai no chão. Uma mensagem pisca no visor: Bom dia, saudades, se cuida, por favor. Beijos. Eu digito: Bom dia, estou me cuidando. Beijos. Escondo o celular e o carregador na mala. Agitada, coloco uma calça jeans e uma camiseta preta. Penteio os cabelos e faço um r**o de cavalo, calço o tênis. Quando entro na sala de jantar, Rafael está sentado à cabeceira, vestido com um terno cinza chumbo. Alice já está sentada ao lado dele na cadeira alta, nem sinal de Dante. — Bom dia, e me perdoe, perdi a hora. — Bom dia. Tudo bem. Acontece. Viro-me para Alice. — E você? Dormiu bem? Ela assente com a cabecinha enquanto come os cereais. Me sento ao lado dela. Rafael então se levanta. — Eu vou indo, estou atrasado. Antes dele sair, falo baixo, para que Alice não ouça: — Eu vi um parquinho no condomínio. Posso levá-la? — Claro. Seria muito bom para ela tomar sol. — Onde vamos tomar sol? — Alice pergunta, sagaz. — No parquinho. — Rafael diz com um sorriso. — Você seria um ótimo pai. — Digo sem querer. — Eu já me sinto pai. — Ele me disse com ar de tristeza. — Verdade. E me perdoe, foi um comentário infeliz. — Desvio meus olhos dos dele. — Tudo bem. Tenho fé que mudarei essa situação. Ainda terei a guarda dela. Meus músculos enrijecem. Ele pretende enfrentar Dante? O sangue some do meu rosto. Meu coração parece parar por um instante. Encaro Rafael, mas ele já se virou para sair. Quando saio do quarto meus olhos percorrem o ambiente, atentos, mas não há sinal de Dante. Um alívio breve me invade, misturado à tensão persistente. Leandro Heitor me pergunta: — Isabela? — Sim. Ela acabou de me responder. Ele assente, sem tirar os olhos da estrada. Ele é a única pessoa em quem realmente confio, talvez porque passamos a maior parte do dia juntos, lado a lado no campo de batalha. Logo ele estaciona em frente à casa de Zé Galinha. Desço do carro e pego uma das pistolas automáticas da bandoleira, ativando meus instintos. Os relatórios de inteligência confirmam que este local serve como ponto de distribuição de drogas. O perigo é iminente. Nos preparamos para a ação. Com as balaclavas no rosto e armados até os dentes, avançamos pelo quintal. Heitor lidera a incursão com precisão, enquanto eu o acompanho, atento a cada detalhe. Quando ele se aproxima da janela da cozinha, avisto um homem sem camisa segurando uma arma. Meu corpo entra em modo de combate. O som de um disparo rasga o silêncio. O vidro estilhaça na nossa frente. — p**a que pariu! — grito, me abaixando instintivamente. Heitor atira na fechadura da porta e a arromba com um chute firme. O estrondo ecoa pela casa. Salto para cobrir sua entrada. O homem tenta reagir, mas sou mais rápido. Meu tiro acerta seu braço. A arma dele cai, e Heitor o domina, algemando-o com destreza. Chamamos a equipe de apoio para reforço, enquanto Heitor faz uma varredura. Fico encarregado de vigiar Zé Galinha, que já está imobilizado. Minutos depois, Heitor retorna com pacotes de cocaína encontrados no congelador. O interrogatório começa. — Muito bem. De onde veio essa droga? Para quem você trabalha? — pergunto, encarando-o com frieza. Ele sorri de canto, desafiador. Heitor, impaciente, pressiona seu ferimento. Ele geme de dor. — Fique com ele. Vou dar mais uma olhada na casa. — digo, me afastando. Após vasculhar o local, sinto uma tábua solta debaixo dos pés. Ao levantá-la, encontro um caderno com anotações. Um nome me chama a atenção: "Fonseca". Entrega dia 20 de maio, Rua do Sol, 22. Sorrio satisfeito. Ainda temos tempo de interceptar essa carga. Volto para a sala e entrego o caderno para Heitor. O rosto de Zé Galinha endurece ao ver o objeto. — Essa entrega ainda vai acontecer. Como conseguiu essa grande quantidade de droga? — pergunto, firme. Ele solta uma risada seca e continua calado. — Temos muita droga aqui. Você vai apodrecer na cadeia se continuar defendendo esses filhos da p**a! Presídio de Bangu é um inferno. — Heitor solta, sua paciência no limite. — Somos o Comando do Zoio do Morro. Você sabe o que acontece com quem abre a boca. — Ele continua firme, mesmo com o suor escorrendo pela testa. Fecho as mãos em punhos, contendo a frustração. Esse silêncio cúmplice é um escudo que protege toda a operação do Zóio. Respiro fundo e tento outra abordagem. — Fonseca te conhece pessoalmente? — pergunto, analisando sua reação. Ele permanece em silêncio. Ele permanece em silêncio. As sirenes soam ao longe. A ambulância chegou. Me aproximo e, com frieza, murmuro: — Podemos fazer um acordo. Você fala e protegemos sua família. Ele hesita, sua respiração falha por um instante. Mas então, encara-me e solta um sussurro: — Sem acordo. Engulo minha raiva e dou as costas para ele. Isso ainda não acabou. Três dias depois, Quarta-feira.... Isabela  Passo o dia com Alice. Pela manhã, lemos juntas um livro infantil e depois desenhamos com os lápis de cor e as canetinhas que Rafael comprou para ela. Alice adora desenhar corações e pequenas casinhas, e eu me pego sorrindo ao observar a delicadeza dos seus traços. Há algo de puro nela que me faz querer protegê-la de tudo. À tardezinha, quando o sol perde a força, levo-a ao parquinho. Ela logo faz uma nova amizade com uma garotinha de sua idade, que está acompanhada da irmã mais velha. O tempo passa voando entre risadas e brincadeiras, e saímos tarde, quase escurecendo. Ao chegarmos ao prédio, o elevador se abre no hall e ouço vozes exaltadas. Meu corpo imediatamente entra em alerta. É Rafael discutindo com Dante. Meu coração aperta. Alice estremece ao meu lado e aperta minha mão, os olhos cheios de medo. — Eles estão brigando — ela murmura, a voz trêmula, já pronta para chorar. Respiro fundo, buscando a melhor forma de lidar com a situação. — Vai ficar tudo bem. Vamos acabar com essa briga? Sei que, no momento em que Rafael ver Alice, ele vai interromper a discussão. Ela assente para mim e, com um último aperto na sua mãozinha, toco a campainha. Ouço um silêncio abrupto do outro lado da porta, seguido pela voz tensa de Rafael: — Chega! Alice está aqui. A porta se abre, revelando Dante parado ali, sem camisa, usando apenas uma calça jeans e descalço. Ele me encara por um instante, seus olhos me prendendo, antes de desviar para a filha. — Oi. — Ele se agacha e pega Alice nos braços, erguendo-a com facilidade e beijando sua testa. Depois, volta a me encarar, sério, os olhos carregados de algo que não consigo decifrar. — Faça as malas dela. Amanhã partiremos. Sinto um aperto no peito, tanto por Alice quanto por Rafael. Meus olhos vão até ele e vejo que está tenso, o maxilar travado. Só então noto a mancha de sangue na camisa e o canto de seu lábio inchado e cortado. Meu estômago se revira.
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